Vieses em estudos transversais

O delineamento da fotografia única — vantagens e limites

Delineamento

O delineamento em uma frase

Estudos transversais (cross-sectional) medem exposição e desfecho simultaneamente numa amostra da população, em um momento no tempo. São rápidos, baratos e adequados para estimar prevalência. Não são adequados, por si só, para inferência causal.

Vieses característicos

Dois vieses decorrem diretamente da estrutura “fotografia única”.

1 · Viés de Neyman (prevalência-incidência)

Como o estudo capta casos prevalentes num momento no tempo, casos de curta duração (que evoluem rapidamente para óbito ou cura) ficam sub-representados, e casos crônicos, super-representados. Isso pode distorcer associações entre exposição e doença, sobretudo se a exposição estiver ligada à sobrevida.

Ver detalhes em Viés de Neyman.

2 · Ambiguidade temporal e causalidade reversa

Como exposição e desfecho são medidos simultaneamente, fica difícil saber o que veio antes. Se uma associação for encontrada entre “sedentarismo” e “depressão” em um estudo transversal, a depressão pode ter causado o sedentarismo, o sedentarismo pode ter causado a depressão, ou ambos podem ser causados por uma terceira variável.

A regra do delineamento transversal Transversais são bons para prevalência. Para causa, é preciso estudo longitudinal — coorte, caso-controle ou ensaio clínico. ### 3 · Viés de não-resposta

Comum em inquéritos populacionais. Quem responde a um survey de saúde é sistematicamente diferente de quem não responde (perfil socioeconômico, nível de saúde, motivação). Ver Viés de não-resposta.

Vieses gerais que também se aplicam

Como em qualquer estudo, também são relevantes:

  • Viés de aferição — instrumentos mal calibrados ou validados.
  • Viés de seleção na amostragem inicial.
  • Confundimento quando há terceiras variáveis associadas a exposição e desfecho.

Pontos fortes e fracos

Aspecto Vantagem Limitação
Velocidade Rápido (semanas a meses)
Custo Baixo
Generalização Boa para prevalência Pobre para causa
Inferência causal Muito limitada
Doenças raras Pouco eficiente
Múltiplos desfechos Sim, com a mesma amostra

Quando o desenho é apropriado

  • Estimativa de prevalência de uma condição numa população.
  • Vigilância epidemiológica (inquéritos periódicos como o Vigitel).
  • Caracterização descritiva de uma população (perfil demográfico, uso de serviços).
  • Geração de hipóteses para estudos longitudinais subsequentes.

Quando o desenho não é apropriado

  • Estabelecer causalidade (use coorte ou caso-controle).
  • Estudar doenças raras (a amostra precisaria ser enorme).
  • Estudar doenças com duração curta (Neyman, mais uma vez).

Checklist de leitura crítica

Ao ler um estudo transversal, pergunte:

  1. Prevalência ou causa? — o autor está usando para a finalidade apropriada?
  2. A amostra é representativa? — descrição da amostragem e da taxa de resposta.
  3. Casos prevalentes ou incidentes? — atenção a Neyman.
  4. Direção temporal pode ser inferida? — geralmente não; o autor evita conclusões causais?
  5. Instrumentos validados? — escalas, questionários, exames.

Veja também

Tratamento clássico em Rothman et al. (1) e Rothman (2). Em português, Rouquayrol & Silva (3) e Medronho et al. (4) dedicam capítulos específicos a este delineamento. Sackett (5) inclui Neyman na sua taxonomia.

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Referências

1.
Rothman KJ, Greenland S, Lash TL. Modern Epidemiology. 3º ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins; 2008.
2.
Rothman KJ. Epidemiology: An Introduction. 2º ed. New York: Oxford University Press; 2012.
3.
Rouquayrol MZ, Silva MGC da. Rouquayrol: Epidemiologia & Saúde. 8º ed. Rio de Janeiro: MedBook; 2018.
4.
Medronho RA, Carvalho DM, Bloch KV, Luiz RR, Werneck GL, organizadores. Epidemiologia. 2º ed. São Paulo: Atheneu; 2009.
5.
Sackett DL. Bias in analytic research. Journal of Chronic Diseases. 1979;32(1–2):51–63.