Viés do entrevistador

Quando quem coleta os dados influencia, mesmo sem querer, a resposta

Informação

Definição

Viés do entrevistador (interviewer bias)

Forma de viés de informação que ocorre quando o entrevistador sabe o status do participante (caso ou controle; exposto ou não-exposto) e, mesmo sem intenção, sonda mais profundamente, repete perguntas, ou interpreta respostas de forma diferente entre os grupos.

É um viés comum em estudos caso-controle e em inquéritos populacionais com questionários extensos aplicados por entrevistadores treinados.

Mecanismo

Esquema

entrevistador conhece a hipótese do estudo e o grupo do participante → formula perguntas, sondagem e codificação de forma sistematicamente diferente entre grupos → respostas registradas refletem o comportamento do entrevistador, não apenas o do entrevistado

Exemplos clássicos

1 · Investigação de exposições retrospectivas em casos

Num caso-controle sobre câncer e uso de determinada substância, entrevistadores que sabem quem é o caso podem:

  • Sondar com mais perguntas específicas sobre a exposição em casos;
  • Aceitar respostas evasivas em controles;
  • Codificar “uso ocasional” como exposição em casos e como não-exposição em controles.

A frequência aparente da exposição entre casos cresce sem que haja diferença real.

2 · Anamnese com vieses cognitivos

Mesmo na prática clínica, o médico que suspeita de um diagnóstico faz perguntas direcionadas que aumentam a probabilidade de “confirmação”. Em pesquisa, o efeito tem o mesmo mecanismo, mas opera de forma sistemática.

3 · Confiabilidade entre entrevistadores

Quando há vários entrevistadores e não se monitora a concordância, diferenças individuais (estilo, ritmo, ênfase) podem se acumular como viés.

Como prevenir

  1. Cegamento do entrevistador — quando viável, o entrevistador não sabe se o participante é caso ou controle, ou se é exposto ou não-exposto. Em estudos clínicos isso costuma ser difícil ou impossível.
  2. Roteiros padronizados — toda pergunta é lida exatamente como escrita; não há improvisação.
  3. Treinamento — entrevistadores treinados em técnica de entrevista neutra, com supervisão de gravações de teste.
  4. Múltiplos entrevistadores cruzados — distribuir casos e controles entre os mesmos entrevistadores, em vez de dedicar entrevistadores a um grupo.
  5. Concordância inter-avaliador — calcular kappa em sub-amostra para estimar e reportar a confiabilidade.
  6. Coleta automatizada quando possível — questionários web ou em tablet eliminam o efeito do entrevistador (mas trazem outros vieses, como viés de não-resposta).

Veja também

Catalogado por Sackett (1) como um dos vieses principais em estudos analíticos. Tratamento contemporâneo em Rothman et al. (2); em português, Rouquayrol & Silva (3).

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Referências

1.
Sackett DL. Bias in analytic research. Journal of Chronic Diseases. 1979;32(1–2):51–63.
2.
Rothman KJ, Greenland S, Lash TL. Modern Epidemiology. 3º ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins; 2008.
3.
Rouquayrol MZ, Silva MGC da. Rouquayrol: Epidemiologia & Saúde. 8º ed. Rio de Janeiro: MedBook; 2018.