Caso 3 — Medicalização na infância
Expulso da escola · Davi, 11 anos
INFÂNCIA · MEDICALIZAÇÃO
Durante uma reunião de matriciamento em saúde mental, um médico de família e comunidade traz para discussão o caso de Davi, 11 anos, acompanhado na Atenção Primária. A criança foi encaminhada ao CAPS, mas não conseguiu acesso a atendimento especializado em saúde mental infantojuvenil — não há CAPSi no município. O profissional relata sentir-se sem recursos para ajudar a família e afirma já ter tentado diferentes intervenções medicamentosas sem melhora significativa.
A queixa principal são comportamentos agressivos e impulsivos. Nos últimos meses, Davi foi expulso da escola após episódios repetidos de agressão física a colegas e conflitos frequentes com professores; a instituição afirmava não ter condições de mantê-lo em sala. Em casa, a mãe descreve dificuldades semelhantes: ele não aceita limites, tem explosões de raiva quando contrariado e, por vezes, agride a si próprio ou à própria mãe.
Mais recentemente surgiram sintomas psicóticos: Davi passou a relatar escuta de vozes que faziam comentários depreciativos sobre si mesmo e que, às vezes, o incentivavam a agredir outras pessoas ou a si próprio.
Quanto ao tratamento, já fez uso de risperidona, clorpromazina e periciazina (Neuleptil® 1%), atualmente em 30 gotas por dia. Segundo o médico, a risperidona produziu melhora parcial inicial das vozes, mas o benefício não se sustentou; as demais medicações tiveram pouca resposta.
Ao ser questionado sobre a composição familiar, o médico informa que os pais são separados e que a intensificação dos comportamentos agressivos coincide temporalmente com mudanças importantes: há alguns meses o pai iniciou novo relacionamento e gradualmente se afastou — hoje o contato é raro. A mãe refere sobrecarga importante no cuidado e escassez de apoio familiar ou comunitário.
Reflexão
O caso de Davi mostra a medicalização da infância em estado quase puro: diante de um sofrimento que tem raízes claras no contexto (abandono paterno, sobrecarga materna, exclusão escolar, ausência de rede), a única ferramenta acionada foi a troca sucessiva de antipsicóticos — sem que nenhuma delas tocasse no que produz e mantém o sofrimento. A pergunta clínica decisiva não é “qual o próximo medicamento”, mas “o que está acontecendo com esta criança, nesta família, nesta escola”. Isso não significa que sintomas psicóticos numa criança devam ser ignorados — significa que avaliá-los exige ler o contexto antes de ampliar a farmacoterapia.
Roteiro de estudo
- Como diferenciar sofrimento psíquico relacionado a eventos de vida de transtornos mentais estruturados na infância?
- Em que medida a centralidade das intervenções medicamentosas pode ter ampliado ou limitado a compreensão do sofrimento apresentado pela criança?
- O que este caso ensina sobre a importância de investigar o contexto familiar, escolar e social na avaliação do sofrimento psíquico infantil?
- Qual o significado clínico das vozes relatadas por Davi? Elas necessariamente indicam um transtorno psicótico? (Pesquise alucinações no contexto de trauma, sofrimento e desenvolvimento.)
- Quais fatores familiares, escolares e sociais podem estar contribuindo para o agravamento do quadro?
- Quais estratégias não medicamentosas poderiam ser desenvolvidas — incluindo escola, família e rede intersetorial — antes da ampliação da farmacoterapia?