Caso 2 — Psicose puerperal
Treze dias depois do parto · Aline, 26 anos
PUERPÉRIO · PSICOSE PUERPERAL
Aline, 26 anos, casada, mãe de dois filhos, moradora da cidade. Treze dias após o nascimento do segundo filho, familiares procuram atendimento por alterações comportamentais importantes, de início agudo nos dias seguintes ao parto.
Aline passou a apresentar intenso discurso de conteúdo místico-religioso: afirma que o recém-nascido é Jesus Cristo, que ela é Maria e que seu companheiro é José, e que a família foi escolhida por Deus para uma missão de salvação da humanidade. Além dos delírios, apresenta desconfiança em relação às pessoas ao redor, recusando ajuda de familiares e de profissionais no cuidado de si e do bebê. Os familiares relatam dificuldade crescente para garantir o aleitamento, a higiene da criança e os cuidados básicos.
Nas semanas anteriores observou-se redução importante da necessidade de sono: ela permanece acordada grande parte da noite, com elevada energia, aceleração do pensamento e da fala, inquietação psicomotora e comportamento expansivo. Também há relato de gastos excessivos, irritabilidade e momentos de agressividade verbal.
Pela gravidade, foi internada em hospital geral por cerca de dez dias e, após estabilização inicial, encaminhada ao CAPS. Segundo os familiares, não havia histórico prévio de acompanhamento psiquiátrico, uso regular de psicotrópicos ou episódios semelhantes.
Reflexão
Aqui a chave se inverte em relação ao Caso 1: este não é um caso de excesso de tratamento, e sim de uma emergência psiquiátrica real — a psicose puerperal é grave e envolve risco para a mãe e para o bebê. O aprendizado da aula é justamente saber distinguir: a crítica à medicalização não é um convite a negligenciar quem precisa de cuidado intensivo. O desafio é tratar com a intensidade que o quadro exige e, passada a fase aguda, construir um projeto de cuidado que não naturalize o uso contínuo e indefinido de medicamentos — articulando rede, família e Atenção Primária, e decidindo de forma compartilhada questões como amamentação e exposição medicamentosa.
Roteiro de estudo
- Quais são as principais hipóteses diagnósticas para este caso? (Considere psicose puerperal, episódio maníaco/misto com sintomas psicóticos no puerpério e diferenciais orgânicos do pós-parto.)
- Quais são os principais riscos para a paciente e para o recém-nascido?
- Em quais situações a internação psiquiátrica é indicada no puerpério?
- Como construir um Projeto Terapêutico Singular para Aline após a alta hospitalar?
- Quais estratégias de cuidado podem ser desenvolvidas a partir de uma perspectiva desmedicalizante, sem negligenciar a gravidade do quadro?
- Qual o papel da rede de atenção psicossocial, da família e da atenção básica no acompanhamento deste caso?
- Quais evidências sustentam (ou limitam) o uso de psicotrópicos durante a gestação e o puerpério? Reveja a tabela de classificação de risco no material teórico Gestação e puerpério e discuta a amamentação.