Tratamento
Intervenções psicossociais, medicamentos e terapêutica digital
Esta página resume a evidência para estudo. Não substitui avaliação clínica nem orienta prescrição.
O tratamento começa por um diagnóstico bem feito (veja Critérios) e combina, conforme o caso, psicoeducação, intervenções psicossociais e medicamentos. O consenso da World Federation of ADHD resume assim o lugar dos remédios: são tão eficazes quanto, ou mais do que, muitos medicamentos usados em doenças não psiquiátricas (Faraone et al. 2021).
Intervenções psicossociais
Psicoeducação do paciente e da família, adaptações na escola e mudanças na forma de ensinar fazem parte do cuidado, com ou sem medicamento. Para as intervenções estruturadas, o consenso da World Federation of ADHD reuniu as meta-análises (Faraone et al. 2021):
| Intervenção | O que a evidência mostra |
|---|---|
| Treinamento de pais (pré-escola) | Redução moderada dos sintomas relatados pelos pais; sem efeito significativo quando o avaliador é independente |
| Terapia cognitivo-comportamental (adultos) | Melhora moderada no autorrelato; pequena quando há grupo controle ativo e avaliador cego |
| Treino de habilidades de organização | Redução moderada da desatenção relatada pelos pais |
| Treino de habilidades sociais | Sem melhora |
| Neurofeedback e treino cognitivo | Sem redução significativa dos sintomas em estudos cegos; ganho de memória de trabalho de curto prazo |
| Meditação | Evidência insuficiente |
| Ômega-3 | Efeito pequeno a médio em três meta-análises, mínimo em outra |
| Exercício físico | Efeito moderado, que perde significância depois do ajuste para viés de publicação |
Repare no padrão: muitos efeitos encolhem quando quem avalia não sabe quem recebeu a intervenção.
Medicamentos
Numa meta-análise em rede, as anfetaminas tiveram efeito grande em todas as idades; o metilfenidato, efeito grande em crianças e adolescentes e moderado em adultos; a atomoxetina, efeito moderado. A melhor relação entre benefício e risco foi a do metilfenidato em crianças e adolescentes e a das anfetaminas em adultos (Faraone et al. 2021).
| Metilfenidato | Lisdexanfetamina | Atomoxetina | |
|---|---|---|---|
| Classe | Estimulante | Estimulante (pró-fármaco) | Não estimulante |
| Mecanismo | Inibe os transportadores de dopamina (DAT) e de noradrenalina (NET) (Faraone 2018) | D-anfetamina ligada à L-lisina, inativa até ser hidrolisada nas hemácias (Pennick 2010; Sharman e Pennick 2014). A anfetamina inibe DAT e NET, libera dopamina por transporte reverso e age sobre o VMAT-2 (Faraone 2018) | Inibidor seletivo do transportador de noradrenalina; em ratos, aumentou noradrenalina e dopamina no córtex pré-frontal, sem aumentar a dopamina no estriado (Bymaster et al. 2002) |
| No Brasil | Ritalina, Concerta, genéricos e similares | Venvanse, genéricos e similares | Atentah, genérico e similar (Agência Nacional de Vigilância Sanitária 2026a) |
| Receita | Lista A3: Notificação de Receita A (amarela) | Lista A3: Notificação de Receita A (amarela) | Lista C1: Receita de Controle Especial em duas vias |
A Notificação de Receita A vale por 30 dias e cobre, no máximo, 30 dias de tratamento (Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância Sanitária 1998). As listas de substâncias controladas são atualizadas periodicamente pela Anvisa; a classificação acima segue a versão vigente em setembro de 2026 (Agência Nacional de Vigilância Sanitária 2026b).
Uso entre países
O uso de estimulantes varia entre países e é assunto de debate público. Em 2005, Harpin escreveu sobre o Reino Unido:
“There has been a reluctance in the UK to treat ADHD with medication, fuelled by concerns about possible over-prescription in the USA. In addition, newspaper and media coverage of ADHD is often negative and stigmatising.”
— Harpin, 2005 (Harpin 2005)
No Brasil, a quantidade de metilfenidato comercializada, em quilos, cresceu mais de oito vezes entre 2003 e 2012 (veja História). O uso por pessoas sem TDAH é assunto de Aprimoramento cognitivo.
Terapêutica digital
Em junho de 2020, a FDA autorizou o EndeavorRx, o primeiro jogo eletrônico com finalidade terapêutica autorizado pela agência, para qualquer condição. A indicação é para crianças de 8 a 12 anos com TDAH predominantemente desatento ou combinado e problema de atenção demonstrado, como complemento de um programa que pode incluir terapia, medicação e apoio educacional. A própria autorização adverte que o jogo pode não trazer benefício em sintomas como a hiperatividade (U.S. Food and Drug Administration 2020a, 2020b).
No ensaio clínico randomizado publicado, 348 crianças de 8 a 12 anos, sem medicação, foram sorteadas para o jogo ou para um grupo controle; o jogo era usado 25 minutos por dia, 5 dias por semana, durante 4 semanas. O desfecho principal foi um teste computadorizado de atenção (TOVA API), que melhorou mais no grupo do jogo. Não houve evento adverso grave. O estudo foi financiado pela empresa que desenvolveu o jogo (Kollins et al. 2020).
O desfecho do ensaio foi um teste de atenção no computador, não o comportamento em casa ou na escola. Que diferença isso faz na hora de recomendar o tratamento?