Aprimoramento cognitivo
Estimulantes por quem não tem TDAH: o que se sabe e o que se discute
Aprimoramento cognitivo é o uso de uma substância por pessoas saudáveis para melhorar o desempenho intelectual: estudar mais horas, manter a atenção por mais tempo, render melhor numa prova. Os estimulantes usados no tratamento do TDAH, como o metilfenidato, são os exemplos mais discutidos.
Quanto se usa
Numa meta-análise de estudos com universitários, cerca de 17% (IC95% 13%–23%) relataram uso indevido de estimulantes de prescrição. O motivo mais citado era acadêmico, e a fonte mais comum eram colegas com receita (Benson et al. 2015).
Entre estudantes de Medicina, uma revisão sistemática encontrou prevalências de uso de metilfenidato que chegavam a 16% (Finger et al. 2013).
De onde vêm os comprimidos
Em 2023, a FDA reforçou os alertas das bulas dos estimulantes sobre uso indevido, abuso, dependência e compartilhamento. Ao revisar a literatura publicada de 2006 a 2020, concluiu que, na população geral (U.S. Food and Drug Administration 2023):
| Origem do estimulante usado sem indicação médica | Proporção estimada |
|---|---|
| Amigos ou familiares, geralmente de graça | 56% a 80% |
| A própria receita | 10% a 20% |
| Traficantes ou desconhecidos | 4% a 7% |
| Internet | 1% a 2% |
Se a maior parte vem de amigos e familiares que têm receita, onde está a responsabilidade: em quem prescreve, em quem repassa ou em quem usa?
O que o estimulante faz em quem não tem TDAH
Um estudo com 50 adultos jovens saudáveis mediu, por tomografia por emissão de pósitrons (PET), a capacidade de síntese de dopamina no núcleo caudado e a disposição de cada um para fazer esforço mental numa tarefa de memória de trabalho. Quem tinha mais capacidade de síntese aceitava mais esforço. Na média do grupo, o metilfenidato não teve efeito significativo; mas aumentou a motivação para o esforço cognitivo justamente em quem tinha menor capacidade de síntese. Os autores concluem que o remédio aumenta o benefício percebido do esforço em relação ao seu custo (Westbrook et al. 2020).
Em outras palavras: parte do efeito pode estar mais na vontade de fazer o trabalho do que na capacidade de fazê-lo.
O debate ético
Em 2008, um grupo de autores de direito, ética, psiquiatria, políticas de saúde e neurociência publicou na Nature uma proposta que provocou debate (Greely et al. 2008):
- adultos mentalmente capazes deveriam, em princípio, poder usar fármacos para aprimoramento cognitivo;
- riscos e benefícios deveriam ser avaliados com base em evidências;
- políticas aplicáveis deveriam garantir equidade, proteger as pessoas de coerção e reduzir as desigualdades socioeconômicas ligadas ao aprimoramento;
- os instrumentos seriam pesquisa, diretrizes de associações profissionais, informação ao público e uma legislação “cuidadosa e limitada”: nem laissez-faire, nem uma resposta basicamente legislativa.
As perguntas que ficam usam as palavras da própria proposta. Quem tem acesso ao remédio e quem fica para trás? Num ambiente competitivo, como uma prova de residência, o uso de alguns pressiona os outros a usar? E o risco de abuso e dependência, que a própria FDA destacou, cabe numa decisão “de adulto capaz” tomada sem acompanhamento?
No Brasil
Metilfenidato e lisdexanfetamina estão na lista A3 da Portaria 344/1998, a dos psicotrópicos sujeitos à Notificação de Receita A, de cor amarela (Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância Sanitária 1998; Agência Nacional de Vigilância Sanitária 2026). Usar o remédio de um colega ou de um familiar é usar, sem avaliação médica, um medicamento de controle especial. Veja também Tratamento.
- Na semana de provas, quantos colegas da sua turma você imagina que já usaram estimulante sem receita? Compare com os 17% da meta-análise.
- Se um estimulante deixasse o plantonista mais atento às 4 da manhã, um hospital poderia exigir o uso? Onde fica a fronteira entre aprimoramento e coerção?
- Qual é a diferença ética entre o café, o estimulante prescrito e o estimulante emprestado?
Para assistir: Take Your Pills (Netflix, 2018), documentário de Alison Klayman sobre o uso de estimulantes de prescrição (Klayman 2018).