História do conceito

De Crichton (1798) à CID-11

A descrição de crianças com dificuldade de manter a atenção é mais antiga que qualquer remédio para tratá-la. O nome, os critérios e a fronteira do diagnóstico mudaram muitas vezes. A linha do tempo acompanha quatro trilhas:

Conceito DSM CID Medicamentos e mercado

1798

Alexander Crichton, médico escocês, descreve pessoas com dificuldade de manter a atenção num objeto, com início muito cedo na vida e tendência a diminuir com a idade (Crichton 2008; Lange et al. 2010).

Década de 1840

Heinrich Hoffmann, médico alemão, escreve as histórias ilustradas de Der Struwwelpeter. Numa delas, Zappelphilipp (“Fidgety Philip”), o menino não consegue ficar quieto à mesa (Thome e Jacobs 2004; Lange et al. 2010).

1902

George Frederic Still, pediatra britânico, descreve crianças com déficit de autocontrole, impulsividade e dificuldade de adiar gratificação (Still 1902a, 1902b, 1902c).

1906

Nos Estados Unidos, a lei federal de alimentos e medicamentos (Food and Drugs Act) passa a exigir que o rótulo dos remédios declare a quantidade de álcool, morfina, ópio, cocaína, heroína, clorofórmio, cannabis indica, hidrato de cloral e outras substâncias (United States Congress 1906; U.S. Food and Drug Administration 2019). A lei veio depois de uma campanha da imprensa contra os “remédios patenteados”, com reportagens como as de Samuel Hopkins Adams (Adams 1905; U.S. Food and Drug Administration 2019).

1932

Franz Kramer e Hans Pollnow descrevem uma “doença hipercinética da infância”, com atividade motora intensa e dificuldade de concentração (Kramer e Pollnow 1932).

1937

Charles Bradley observa melhora do desempenho escolar em crianças tratadas com benzedrina, um estimulante. É o primeiro registro do tratamento farmacológico da hiperatividade (Bradley 1937; Lange et al. 2010). Segundo Strohl, a fabricante, Smith, Kline & French, ignorou o trabalho de Bradley porque ele tratava de crianças com lesões cerebrais, e a empresa queria vender a droga a um público maior de escolares saudáveis (Strohl 2011).

1944

O químico Leandro Panizzon sintetiza o metilfenidato; a Ciba lança o remédio como Ritalina em 1954. O nome homenageia a esposa dele, Marguerite (“Rita”) (Panizzon 1944; Lange et al. 2010).

Década de 1950

A Ritalina chega à prática médica como remédio de adultos. O Physicians’ Desk Reference da época a indicava para fadiga crônica, estados letárgicos e depressivos (inclusive os associados a tranquilizantes e outras drogas), comportamento senil perturbado, psiconeuroses e psicoses associadas à depressão, e narcolepsia (Morton e Stockton 2000).

1957

Laufer, Denhoff e Solomons descrevem o “transtorno de impulso hipercinético” em crianças (Laufer et al. 1957).

1962

Clements e Peters consolidam a noção de “disfunção cerebral mínima” (Clements e Peters 1962).

1963

Conners e Eisenberg publicam um ensaio com metilfenidato em crianças “perturbadas”. Segundo Mayes e Rafalovich, é o primeiro artigo médico a defender explicitamente a Ritalina para essas crianças, depois de a FDA ter aprovado o uso em crianças com problemas de comportamento no início dos anos 1960 (Conners e Eisenberg 1963; Mayes e Rafalovich 2007).

1968

CID-8 entra em vigor (a conferência de revisão foi em 1965). Não há categoria hipercinética própria: o índice remete a hiperatividade da criança ao código 308, “transtornos de comportamento da infância” (World Health Organization 1967, s. d.).

1968

DSM-II: reação hipercinética da infância (ou adolescência) (Lange et al. 2010).

1979

CID-9 entra em vigor (conferência em 1975, manual publicado em 1977). Código 314, “síndrome hipercinética da infância”; 314.0, “simple disturbance of activity and attention” (World Health Organization 1977, s. d.). A versão clínica americana, a CID-9-CM, usou o mesmo código 314.0 para “attention deficit disorder”, o nome que o DSM-III adotaria (National Center for Health Statistics 2011).

1980

DSM-III: transtorno de déficit de atenção. A desatenção passa a ser o sintoma central (Lange et al. 2010).

1987

DSM-III-R: transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (Lange et al. 2010).

1993

CID-10 entra em vigor (aprovada pela Assembleia Mundial da Saúde em 1990). As descrições clínicas e diretrizes diagnósticas dos transtornos mentais saem em 1992. Categoria F90, transtornos hipercinéticos: F90.0, distúrbios da atividade e da atenção; F90.1, transtorno hipercinético de conduta (World Health Organization, s. d., 2019b; DATASUS, s. d.).

1994

DSM-IV: mantém o nome e exige início dos sintomas antes dos 7 anos (Lange et al. 2010).

2003–2012

No Brasil, a quantidade de metilfenidato comercializada passa de 94 kg para 823 kg, um aumento de 775%, segundo cálculo de Barros com dados da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes, da ONU (Barros 2014).

2013

DSM-5: amplia o início para antes dos 12 anos e reduz para cinco o número de sintomas exigidos a partir dos 17 anos (American Psychiatric Association 2013).

2022

CID-11 entra em vigor: TDAH, código 6A05, entre os transtornos do neurodesenvolvimento (World Health Organization 2022, 2019a).

DicaPergunta para pensar

Se a descrição clínica antecede o primeiro estimulante em mais de um século, o que sobra da tese de que o TDAH foi inventado pela indústria farmacêutica? E o que muda quando se olha para a expansão do diagnóstico e do mercado, e não para a sua origem?

Referências

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