3 Períodos críticos e sensíveis do desenvolvimento humano
O desenvolvimento do sistema nervoso humano ocorre por meio de janelas temporais durante as quais influências genéticas e ambientais interagem para estabelecer características funcionais. Essas interações correspondem a rearranjos estruturais do córtex cerebral, e diferentes circuitos neurais passam por essas janelas em idades distintas. Nem todas as janelas, contudo, têm a mesma natureza: a neurociência atual distingue os períodos sensíveis, em geral, de uma classe especial deles, os períodos críticos, cujos efeitos são irreversíveis1.
Períodos críticos, em sentido estrito, são janelas de efeitos irreversíveis: se a experiência adequada não ocorrer dentro da janela, a função correspondente não se desenvolve normalmente, e o déficit tende a ser permanente. Os exemplos clássicos vêm do sistema visual. Hubel e Wiesel demonstraram, em gatos e primatas, que ocluir um olho durante os primeiros meses de vida produz ambliopia definitiva no olho privado, com perda permanente da dominância cortical correspondente — mesmo que a visão dos dois olhos seja restaurada depois do fim do período1. Em humanos, o desenvolvimento normal da visão binocular e da visão estereoscópica depende do alinhamento dos olhos nos primeiros anos de vida: a criança com estrabismo precoce pode não desenvolver a visão estereoscópica, embora possa compensar a percepção de profundidade com outras pistas visuais1.
Nos demais períodos sensíveis, por contraste, o cérebro está especialmente — mas não exclusivamente — receptivo a determinadas influências. Após o seu término, o aprendizado permanece possível, ainda que mais lento, custoso e tipicamente incompleto. A aquisição de uma língua é o exemplo paradigmático: estudo de larga escala com quase 670 mil falantes mostrou que a capacidade de aprender a gramática de uma língua se mantém preservada até cerca dos 17-18 anos, declinando de modo acentuado a partir daí2. Adultos seguem aprendendo línguas estrangeiras com algum sucesso, mas dificilmente atingem competência indistinguível da de um falante nativo.
Aplicada à arquitetura do córtex, essa distinção ajuda a entender por que diferentes circuitos seguem cronogramas distintos. Os períodos críticos para circuitos sensoriais de baixo nível — análise visual primária, processamento auditivo elementar, mapas somatossensoriais — tendem a se fechar nos primeiros anos de vida. Em contraste, os períodos sensíveis para funções cognitivas de alto nível se prolongam por muito mais tempo. A capacidade de aprender a gramática de uma segunda língua mostra declínio acentuado em torno do início da idade adulta2, e a maturação estrutural do córtex pré-frontal — base do controle inibitório, do raciocínio abstrato, do planejamento e da regulação emocional — se estende pelo menos até o início da terceira década de vida, com áreas associativas amadurecendo depois das áreas sensoriais primárias3,4. A infância e a adolescência são, portanto, fases de grande importância para o desenvolvimento, mas a janela de plasticidade para o funcionamento executivo e reflexivo permanece aberta significativamente além delas, e a qualidade das experiências vividas nesse longo período influencia a formação da personalidade e da saúde do indivíduo5,6.
Eventos traumáticos na infância — incluindo abuso, negligência e adversidades cumulativas — estão associados a maior risco de transtornos de personalidade na vida adulta, mas são fatores de risco, e não causas: a maioria das pessoas expostas não desenvolve nenhum transtorno7.