Relações espúrias

Quando a correlação é puro acaso

Conceito fundamental

A terceira ameaça

Além do viés (erro sistemático introduzido pelo pesquisador) e do confundimento (distorção pela estrutura causal do mundo), há uma terceira ameaça à interpretação de associações: o acaso. Em amostras grandes ou em análises com muitas variáveis, algumas correlações aparecem apenas por sorte, sem nenhum mecanismo causal por trás. Essas associações são chamadas de relações espúrias.

Relação espúria

Associação estatística observada entre duas variáveis que não reflete nenhuma relação causal entre elas. Ocorre por acaso (erro aleatório), por viés ou por confundimento.

Por que isso importa

Numa análise honesta com 20 testes de hipótese ao nível α = 0,05, espera-se em média um resultado falso-positivo apenas por acaso — mesmo que nenhuma associação real exista na população. Em estudos exploratórios com centenas de variáveis (genômicos, big data, “p hacking”), a inflação do erro tipo I é dramática.

Alguns exemplos de correlações estatisticamente significantes, mas espúrias:

  • O número de filmes com Nicolas Cage por ano correlaciona-se com o número de afogamentos em piscinas nos EUA.
  • O consumo per capita de queijo correlaciona-se com mortes por enrolamento em lençóis.
  • O número de doutorados em engenharia civil por ano correlaciona-se com o consumo per capita de queijo mozzarella.

Essas correlações são reais (no sentido estatístico), mas obviamente não significam nada — não há mecanismo causal nem confundidor comum plausível.

Como diferenciar uma associação verdadeira de uma espúria

A pergunta correta não é se o p é significativo, mas se existe um mecanismo causal plausível. A epidemiologia clássica usa para isso um conjunto de critérios, conhecidos como critérios de Hill (1):

Critério Pergunta
Força A associação é forte?
Consistência Foi replicada em diferentes populações?
Especificidade A exposição causa um desfecho específico?
Temporalidade A exposição precedeu o desfecho?
Gradiente biológico Mais exposição = mais desfecho?
Plausibilidade Existe mecanismo biológico conhecido?
Coerência Bate com o conhecimento prévio?
Experimento Há evidência experimental?
Analogia Há casos análogos conhecidos?

A temporalidade é o único critério rigorosamente necessário: a causa precisa preceder o efeito. Os demais ajudam a julgar se vale acreditar na associação.

Acaso, viés e confundimento — três distorções, três soluções

Acaso

Solução: estatística. Aumentar amostra, ajustar para múltiplos testes, replicar em estudos independentes.

Viés

Solução: prevenção no desenho. Amostragem representativa, instrumentos validados, cegamento.

Confundimento

Solução: mensurar e ajustar. Estratificação, regressão multivariada, randomização, DAGs.

Antes de aceitar qualquer associação reportada num estudo, pergunte-se se ela pode ser acaso (olhe o intervalo de confiança e o tamanho amostral), se pode ser viés (olhe o desenho, a amostragem, os instrumentos) e se pode ser confundimento (procure terceiras variáveis plausivelmente associadas a exposição e desfecho). Só depois de excluir as três a hipótese causal merece consideração. ## Veja também

Os critérios de Hill (1) permanecem o pilar do raciocínio causal observacional. A abordagem contemporânea de inferência causal — com DAGs, contrafactuais e ajuste estrutural — está em Pearl (2) e Hernán & Robins (3). Para uma discussão acessível em português, ver Rouquayrol & Silva (4) e Medronho et al. (5).

De volta ao topo

Referências

1.
Hill AB. The environment and disease: association or causation? Proceedings of the Royal Society of Medicine. 1965;58(5):295–300.
2.
Pearl J. Causality: Models, Reasoning, and Inference. 2º ed. Cambridge: Cambridge University Press; 2009.
3.
Hernán MA, Robins JM. Causal Inference: What If. Boca Raton: Chapman & Hall/CRC; 2020.
4.
Rouquayrol MZ, Silva MGC da. Rouquayrol: Epidemiologia & Saúde. 8º ed. Rio de Janeiro: MedBook; 2018.
5.
Medronho RA, Carvalho DM, Bloch KV, Luiz RR, Werneck GL, organizadores. Epidemiologia. 2º ed. São Paulo: Atheneu; 2009.