O Brasil é o segundo país com maior população negra do mundo. Segundo o IBGE/PNAD 2019, negros (pretos + pardos) representam 55% da população brasileira. As desigualdades em saúde segundo raça/cor são sistemáticas, persistentes e têm raízes no racismo estrutural(Chor, 2013; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2020).
NotaRaça/cor como variável epidemiológica
No Brasil, a classificação de raça/cor é autodeclarada segundo os critérios do IBGE: branca, preta, parda, amarela, indígena. A Declaração de Óbito possui campo específico para raça/cor — seu preenchimento adequado é condição necessária para a produção de indicadores desagregados e para a equidade em saúde.
1.1 Mortalidade Materna por Raça/Cor
A mortalidade materna é um dos indicadores que melhor revelam as desigualdades raciais em saúde.
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# Valores aproximados baseados em SVS/MS — DATASUS, SIM# Consulte o Painel de Mortalidade Materna para dados exatosrmm <- tibble::tribble(~raca_cor, ~rmm, ~razao,"Branca", 51, 1.0,"Parda", 89, 1.7,"Preta", 134, 2.6,"Indígena", 185, 3.6)ggplot(rmm, aes(x =reorder(raca_cor, rmm), y = rmm,fill = raca_cor)) +geom_col(width =0.6) +geom_text(aes(label =paste0(rmm, "\n(", razao, "×)")),vjust =-0.3, size =3.5, fontface ="bold") +geom_hline(yintercept =70, linetype ="dashed", color ="#333") +annotate("text", x =0.7, y =78, label ="Meta ODS: 70",fontface ="italic", size =3) +scale_fill_manual(values =c("Branca"= cores_indicadores["branca"],"Parda"= cores_indicadores["parda"],"Preta"= cores_indicadores["preta"],"Indígena"= cores_indicadores["indigena"] )) +scale_y_continuous(limits =c(0, 220)) +labs(title ="Mulheres negras e indígenas morrem mais por causas maternas",subtitle ="RMM por 100.000 nascidos vivos — razão em relação à mulher branca entre parênteses",x =NULL, y ="RMM (por 100.000 NV)",caption ="Fonte: SVS/MS — DATASUS, SIM (valores aproximados — não usar como estatística oficial)" ) +tema_indicadores() +theme(legend.position ="none")
Figura 1: Razão de Mortalidade Materna (RMM) por raça/cor — Brasil
As causas dessa desigualdade são multifatoriais:
Menor acesso e menor qualidade do pré-natal
Discriminação institucional nos serviços de saúde
Maior exposição a determinantes sociais adversos
Racismo estrutural que atravessa todas as dimensões da vida social
1.2 Mortalidade Infantil por Raça/Cor
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# Valores aproximados baseados em SVS/MS — DATASUS, SIM/SINASC# Consulte TabNet para dados exatos por raça/cormi_raca <- tibble::tribble(~raca_cor, ~mi, ~razao,"Branca", 9.0, 1.0,"Parda", 14.2, 1.6,"Preta", 17.0, 1.9,"Indígena", 28.5, 3.2)ggplot(mi_raca, aes(x =reorder(raca_cor, mi), y = mi, fill = raca_cor)) +geom_col(width =0.6) +geom_text(aes(label =paste0(fmt_br(mi), "\n(", razao, "×)")),vjust =-0.3, size =3.5, fontface ="bold") +scale_fill_manual(values =c("Branca"= cores_indicadores["branca"],"Parda"= cores_indicadores["parda"],"Preta"= cores_indicadores["preta"],"Indígena"= cores_indicadores["indigena"] )) +scale_y_continuous(limits =c(0, 35)) +labs(title ="Mortalidade infantil: crianças indígenas morrem 3× mais",subtitle ="MI por 1.000 NV — razão em relação à criança branca entre parênteses",x =NULL, y ="MI (por 1.000 NV)",caption ="Fonte: SVS/MS — DATASUS, SIM/SINASC (valores aproximados — não usar como estatística oficial)" ) +tema_indicadores() +theme(legend.position ="none")
Figura 2: Mortalidade infantil por raça/cor — Brasil
ImportanteEfeito independente da raça/cor
Estudos mostram que, mesmo após controle de variáveis socioeconômicas, persiste um efeito independente da raça/cor sobre a mortalidade infantil, indicando que o racismo age além da mediação econômica(Cardoso; Santos; Jr., 2005).
# Fonte: Atlas da Violência 2023 (IPEA/FBSP), referentes a 2021# Taxa por 100 mil hab.: negros 31,0; não negros 10,8# Proporção: negros 79% das vítimashomic <- tibble::tribble(~grupo, ~taxa, ~pct_vitimas,"Não negros", 10.8, 21,"Negros (pretos + pardos)", 31.0, 79)p_taxa <-ggplot(homic, aes(x = grupo, y = taxa, fill = grupo)) +geom_col(width =0.5) +geom_text(aes(label =fmt_br(taxa)), vjust =-0.5, size =4, fontface ="bold") +scale_fill_manual(values =c("Não negros"="#4575b4", "Negros (pretos + pardos)"="#d73027")) +scale_y_continuous(limits =c(0, 40)) +labs(title ="Taxa de homicídios\n(por 100 mil hab.)", x =NULL, y =NULL) +tema_indicadores(base_size =10) +theme(legend.position ="none")p_prop <-ggplot(homic, aes(x ="", y = pct_vitimas, fill = grupo)) +geom_col(width =0.6) +geom_text(aes(label =paste0(pct_vitimas, "%")),position =position_stack(vjust =0.5), color ="white", size =5, fontface ="bold") +coord_flip() +scale_fill_manual(values =c("Não negros"="#4575b4", "Negros (pretos + pardos)"="#d73027")) +labs(title ="Proporção das vítimas", x =NULL, y =NULL, fill =NULL) +tema_indicadores(base_size =10) +theme(axis.text =element_blank(), panel.grid =element_blank())p_taxa / p_prop +plot_annotation(title ="Negros morrem por homicídio 2,9× mais que não negros",subtitle ="79% das vítimas de homicídio no Brasil são negras (dados de 2021)",caption ="Fonte: Atlas da Violência 2023 — IPEA/FBSP (dados referentes a 2021)" )
Figura 3: Taxa de homicídios por raça/cor — Brasil
Jovens negros (15-29 anos) constituem o grupo mais vulnerável
A diferença persiste mesmo após controle de renda e escolaridade
1.4 Fontes de dados sobre saúde e raça/cor
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fontes_raca <- tibble::tribble(~`Sistema/Base`, ~Cobertura, ~`Uso principal`,"DATASUS / SIM", "Nacional", "Mortalidade por raça/cor, causa e município","SINASC", "Nacional", "Natalidade por raça/cor da mãe","PNAD Contínua / IBGE", "Nacional", "Dados socioeconômicos e autodeclaração racial","Atlas da Violência / IPEA", "Nacional", "Homicídios e segurança com recorte racial","Painel de Mortalidade Materna", "Nacional", "Dados em tempo real por raça/cor")tabela_indicador(fontes_raca)
Tabela 1: Principais bases de dados sobre saúde e raça/cor no Brasil
Sistema/Base
Cobertura
Uso principal
DATASUS / SIM
Nacional
Mortalidade por raça/cor, causa e município
SINASC
Nacional
Natalidade por raça/cor da mãe
PNAD Contínua / IBGE
Nacional
Dados socioeconômicos e autodeclaração racial
Atlas da Violência / IPEA
Nacional
Homicídios e segurança com recorte racial
Painel de Mortalidade Materna
Nacional
Dados em tempo real por raça/cor
DicaEquidade ≠ Igualdade
Igualdade distribui recursos de forma uniforme. Equidade distribui segundo a necessidade — dando mais a quem mais precisa. As desigualdades raciais em saúde não são biológicas nem naturais: são produtos de injustiça histórica e estrutural. O papel do médico começa pelo preenchimento correto da Declaração de Óbito.
CARDOSO, Andrey Moreira; SANTOS, Ricardo Ventura; JR., Carlos E. A. Coimbra. Mortalidade infantil segundo raça/cor no Brasil: o que dizem os sistemas nacionais de informação? Cadernos de Saúde Pública, [s. l.], v. 21, n. 5, p. 1602–1608, 2005.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua — PNAD Contínua 2019. Rio de Janeiro: IBGE, 2020.
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Atlas da Violência 2023. Brasília: IPEA; FBSP, 2023.