1 Indicadores de Morbidade

Os indicadores de morbidade medem a frequência de doenças em uma população. Diferentemente dos indicadores de mortalidade, eles capturam o adoecimento — incluindo doenças que raramente matam, mas causam grande sofrimento e incapacidade (Medronho, 2009).

1.1 Incidência e Prevalência

Esses são os dois indicadores mais fundamentais da epidemiologia descritiva.

1.1.1 Taxa de Incidência

Mede a velocidade de ocorrência de novos casos em uma população em risco.

Taxa de Incidência = Casos novos no período / Pessoa-tempo em risco

1.1.2 Prevalência

Mede a proporção de casos existentes (novos + antigos) em um ponto ou período no tempo.

Prevalência = Casos existentes / População total no momento

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# Diagrama conceitual como gráfico
conceito <- tibble::tribble(
  ~Medida, ~`O que mede`, ~`Tipo`, ~`Utilidade principal`,
  "Incidência", "Casos NOVOS por tempo", "Fluxo (dinâmica)", "Avaliar risco, etiologia",
  "Prevalência", "Casos EXISTENTES no momento", "Estoque (estática)", "Planejar serviços, recursos"
)

tabela_indicador(conceito, caption = "Incidência vs. Prevalência")
Incidência vs. Prevalência
Medida O que mede Tipo Utilidade principal
Incidência Casos NOVOS por tempo Fluxo (dinâmica) Avaliar risco, etiologia
Prevalência Casos EXISTENTES no momento Estoque (estática) Planejar serviços, recursos
Figura 1: Relação entre incidência, prevalência, cura e mortalidade
NotaRelação entre incidência e prevalência

Prevalência ≈ Incidência × Duração da doença

  • Doenças de longa duração (diabetes, HIV com tratamento) → alta prevalência mesmo com incidência moderada
  • Doenças de curta duração (gripe) ou muito letais → prevalência baixa

1.2 Dengue no Brasil: um caso de incidência epidêmica

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# Fonte: SINAN/SVS/Ministério da Saúde — Série histórica de casos prováveis
# Fontes: Boletins Epidemiológicos SVS e Agência Brasil (consolidação final 2024)
# Casos em milhares; população IBGE projeções; incidência calculada
dengue <- tibble::tribble(
  ~ano, ~casos_mil, ~pop_milhoes, ~incidencia,
  2010,  1012,  190.7,  530.6,
  2011,   739,  192.4,  384.1,
  2012,   590,  194.0,  304.1,
  2013,  1455,  195.5,  744.2,
  2014,   589,  197.0,  299.0,
  2015,  1689,  198.4,  851.3,
  2016,  1484,  199.8,  742.7,
  2017,   253,  201.0,  125.9,
  2018,   216,  202.2,  106.8,
  2019,  1545,  203.2,  760.3,
  2020,   988,  204.1,  484.1,
  2021,   544,  204.9,  265.5,
  2022,  1451,  205.5,  706.1,
  2023,  1659,  206.0,  805.3,
  2024,  6485,  206.5, 3140.9
)

ggplot(dengue, aes(x = ano, y = incidencia)) +
  geom_col(fill = ifelse(dengue$incidencia > 700, cores_indicadores["perigo"],
                          cores_indicadores["destaque"]),
           alpha = 0.8, width = 0.8) +
  scale_x_continuous(breaks = dengue$ano) +
  scale_y_continuous(labels = label_number(big.mark = ".")) +
  labs(
    title = "Padrão epidêmico da dengue no Brasil",
    subtitle = "Grandes surtos cíclicos — 2024 bateu recorde com >6,4 milhões de casos",
    x = "Ano", y = "Incidência (por 100 mil hab.)",
    caption = "Fonte: SINAN/SVS/Ministério da Saúde (2024 = dados preliminares)"
  ) +
  tema_indicadores() +
  theme(axis.text.x = element_text(angle = 45, hjust = 1))
Figura 2: Taxa de incidência de dengue no Brasil (2010–2024)

1.3 Prevalência de Doenças Crônicas

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# Fonte: PNS 2019 (IBGE) e Vigitel 2023 (SVS/MS)
# PNS 2019: hipertensão 23,9%, diabetes 7,7%, depressão 10,2%, asma 5,3%
# Vigitel 2023: obesidade 24,3%
# DRC: PNS 2019 reportou 1,4% (autodeclaração de diagnóstico médico)
dcnt <- tibble::tribble(
  ~doenca, ~prevalencia, ~fonte,
  "Hipertensão arterial",  23.9, "PNS 2019",
  "Obesidade (IMC ≥ 30)",  24.3, "Vigitel 2023",
  "Depressão",             10.2, "PNS 2019",
  "Diabetes mellitus",      7.7, "PNS 2019",
  "Asma",                   5.3, "PNS 2019",
  "Doença renal crônica",   1.4, "PNS 2019"
)

ggplot(dcnt, aes(x = reorder(doenca, prevalencia), y = prevalencia)) +
  geom_col(fill = cores_indicadores["destaque"], width = 0.7) +
  geom_text(aes(label = paste0(fmt_br(prevalencia), "%")), hjust = -0.1, size = 3.5) +
  coord_flip() +
  scale_y_continuous(limits = c(0, 32)) +
  labs(
    title = "Doenças crônicas afetam 1 em cada 4 adultos brasileiros",
    subtitle = "Hipertensão e obesidade lideram",
    x = NULL, y = "Prevalência (%)",
    caption = "Fonte: PNS 2019 / Vigitel 2023 — IBGE / SVS"
  ) +
  tema_indicadores()
Figura 3: Prevalência estimada de DCNT selecionadas — Brasil adulto

1.4 Notificação Compulsória e o SINAN

O Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) é a principal fonte de dados sobre doenças de notificação compulsória no Brasil. A lista de doenças é atualizada periodicamente pelo Ministério da Saúde.

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notif <- tibble::tribble(
  ~Doença, ~Periodicidade, ~Importância,
  "Dengue (óbito)",     "Imediata (24h)",  "Monitoramento de surtos",
  "COVID-19",           "Imediata (24h)",  "Vigilância epidemiológica",
  "Meningite",          "Imediata (24h)",  "Risco de surto",
  "Sarampo",            "Imediata (24h)",  "Doença eliminada — vigilância ativa",
  "Tuberculose",        "Semanal",         "Endemia nacional",
  "Sífilis congênita",  "Semanal",         "Indicador sentinela de pré-natal",
  "Hanseníase",         "Semanal",         "Endemia em eliminação"
)

tabela_indicador(notif)
Tabela 1: Exemplos de doenças de notificação compulsória imediata
Doença Periodicidade Importância
Dengue (óbito) Imediata (24h) Monitoramento de surtos
COVID-19 Imediata (24h) Vigilância epidemiológica
Meningite Imediata (24h) Risco de surto
Sarampo Imediata (24h) Doença eliminada — vigilância ativa
Tuberculose Semanal Endemia nacional
Sífilis congênita Semanal Indicador sentinela de pré-natal
Hanseníase Semanal Endemia em eliminação
AvisoViés de notificação

Doenças que afetam populações vulneráveis ou estigmatizadas — como tuberculose, HIV/AIDS e transtornos mentais — tendem a ser subnotificadas por barreiras de acesso e discriminação nos serviços de saúde. Isso produz uma subestimação sistemática do problema nos grupos que já são menos visíveis nos sistemas de informação.

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Referências

MEDRONHO, Roberto A. Epidemiologia. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2009.