Antiarrítmicos pós-IAM (CAST)

Quando o desfecho substituto engana

Contexto clínico

A morte súbita após infarto agudo do miocárdio é evento clínico relevante e relativamente frequente nas primeiras décadas após o evento isquêmico. A maior parte dessas mortes envolve mecanismos arrítmicos — taquicardia ventricular sustentada que degenera em fibrilação ventricular. A pergunta clínica natural foi: quem está sob risco?

Em 1977, Ruberman e colaboradores (1) publicam estudo de coorte com 1.739 homens com infarto prévio. Demonstram que a presença de extrassístoles ventriculares complexas — em particular as polimorfas, repetitivas, e o fenômeno R sobre T — em registro de uma hora se associa a aumento de três vezes no risco de morte súbita coronariana e de duas vezes no risco de morte por qualquer causa, ajustado para outros marcadores prognósticos. O achado é replicado em outras coortes e cristaliza-se como conhecimento clínico estabelecido: extrassístoles ventriculares complexas são marcador independente de risco pós-infarto.

A inferência seguinte foi feita em terreno mais escorregadio. Se as extrassístoles indicam risco de morte súbita arrítmica, então — raciocínio aparentemente lógico — suprimi-las deveria reduzir esse risco. Os antiarrítmicos da classe IC, sobretudo encainida e flecainida, tornaram-se rapidamente disponíveis e demonstraram, em ensaios pequenos, capacidade efetiva de suprimir extrassístoles. A aprovação para uso ampliado em arritmias ventriculares assintomáticas ou minimamente sintomáticas levou, no fim dos anos 1980, a uma estimativa de aproximadamente 200 mil pacientes em uso desses fármacos nos Estados Unidos.

A prática se sustentava em três pilares: a associação observada entre extrassístoles e morte súbita; a plausibilidade biológica do mecanismo arrítmico; e a evidência de que os fármacos atingiam o alvo intermediário (supressão das extrassístoles). Faltava o quarto pilar — evidência de que essa supressão se traduzia em redução da mortalidade real.

A evidência observacional e o vácuo experimental

Antes do CAST, a literatura sobre antiarrítmicos da classe I em pacientes pós-infarto consistia majoritariamente em estudos de pequeno porte avaliando o desfecho substituto — supressão das extrassístoles em monitorização Holter. Vários estudos confirmavam que os fármacos faziam o que se propunham a fazer no nível eletrocardiográfico. Nenhum deles tinha poder estatístico, tempo de seguimento ou desenho adequado para avaliar o desfecho clinicamente relevante: mortalidade total ou morte súbita.

Algumas séries observacionais sugeriam tendência favorável; outras eram neutras. Persistia uma assimetria epistêmica entre a base de evidência sobre o marcador (robusta, replicada) e a base sobre o desfecho clínico (escassa, indireta). A prática clínica preencheu o vácuo com inferência: se o fármaco reverte o marcador de risco, espera-se que reverta também o risco. A inferência foi tratada como aproximação razoável até que pudesse ser testada formalmente.

Foi essa lacuna que o National Heart, Lung, and Blood Institute, com o desenho de Greene e colaboradores (2), se propôs a fechar.

CAST: o ensaio randomizado

O Cardiac Arrhythmia Suppression Trial foi desenhado para testar diretamente a hipótese de que a supressão de extrassístoles ventriculares assintomáticas ou minimamente sintomáticas em sobreviventes de infarto reduziria a mortalidade arrítmica e a mortalidade total. O desenho previa uma fase de titulação aberta na qual o fármaco era ajustado até que a supressão fosse documentada; em seguida, o paciente entrava em fase randomizada — fármaco efetivo na supressão versus placebo — em desenho duplo-cego. Três fármacos foram avaliados: encainida, flecainida e moricizina.

Em abril de 1989, durante análise interina rotineira, o comitê de monitoramento de dados encontra excesso significativo de mortalidade nos braços de encainida e flecainida em comparação com placebo. Após cerca de 10 meses de seguimento médio, os pacientes em uso de droga ativa apresentavam quase três vezes a taxa de mortalidade dos que recebiam placebo. O comitê recomenda parada imediata desses dois braços. O relatório preliminar (3) é publicado no New England Journal of Medicine em agosto de 1989.

O relato definitivo dos braços de encainida e flecainida, publicado por Echt e colaboradores (4) em 1991, consolida os números: 89 mortes ao longo do seguimento, das quais 59 por arritmia (43 em droga ativa vs 16 em placebo; p = 0,0004) e 22 por causa cardíaca não arrítmica (17 vs 5; p = 0,01). O risco relativo de morte arrítmica para droga ativa em relação a placebo era 3,6, e o risco relativo de mortalidade total era 2,5. Os fármacos tinham efeito claro sobre o desfecho substituto — suprimiam extrassístoles —, mas o desfecho clínico se movia na direção oposta da expectativa.

O braço de moricizina (CAST-II) (5) continuou em ensaio modificado, restrito a pacientes com fração de ejeção mais baixa e com janela de inclusão pós-infarto mais curta, no esforço de identificar subpopulação que pudesse se beneficiar. CAST-II também é encerrado precocemente: nas duas primeiras semanas de tratamento, observou-se mortalidade significativamente maior no grupo da moricizina (17 mortes em 665 pacientes) do que no placebo (3 em 660); a análise condicional de poder indicava menos de 8% de chance de detectar benefício de sobrevida caso o ensaio fosse completado.

Lição metodológica

A história do CAST é o exemplo mais consequente do que a literatura epidemiológica metodológica passou a chamar de problema do desfecho substituto. Um marcador biológico associado a um desfecho clínico — extrassístoles ventriculares e morte súbita, no caso — pode estar associado por mecanismos compartilhados com o desfecho, como expressão de doença subjacente, sem que sua manipulação afete o desfecho. Pior, a manipulação do marcador pode introduzir efeitos paralelos do agente sobre vias causais não consideradas. As classes IC, em particular, têm propriedades pró-arrítmicas próprias: prolongam a condução intraventricular e podem facilitar reentrada em corações com substrato isquêmico. Essas propriedades não eram visíveis no desfecho substituto monitorado; emergiram apenas quando o desfecho clínico foi medido diretamente.

Vale registrar que o trabalho dos investigadores que conduziram o CAST não foi causa do problema, e sim sua resposta. A prática clínica anterior a 1989 baseava-se em inferência compatível com o conhecimento e a evidência disponíveis na época. O desenho do CAST — randomizado, com placebo, comitê de monitoramento independente — era o instrumento corretivo possível, e a parada precoce em 1989 deu testemunho de que esse instrumento funcionou: o ensaio identificou o dano, comunicou-o à comunidade médica, e a prática mudou. Estima-se que a interrupção precoce do CAST tenha evitado número expressivo de mortes nos anos subsequentes, ao retirar de uso uma intervenção amplamente empregada.

A lição metodológica que a epidemiologia contemporânea extrai do CAST é direta. A demonstração de que um agente atua sobre um marcador associado a um desfecho não estabelece, por si só, eficácia sobre o desfecho. Eficácia clínica se mede no desfecho clinicamente relevante — mortalidade por todas as causas, eventos cardiovasculares maiores, qualidade de vida, função preservada — e não em parâmetros laboratoriais ou eletrocardiográficos. A formalização dessa exigência aparece, no Cap. 03, na noção de target trial: o protocolo precisa especificar explicitamente qual desfecho clinicamente relevante se pretende afetar, e a análise — observacional ou experimental — precisa estimar exatamente esse desfecho.

A intuição de que “se o marcador é causa do desfecho, então corrigir o marcador corrige o desfecho” tem outras manifestações na prática contemporânea: ajuste agressivo de glicemia como proxy de evento microvascular; LDL pós-tratamento como proxy de mortalidade cardiovascular; biomarcadores oncológicos circulantes como proxy de sobrevida em ensaios de fase II. Em cada um desses contextos, a história do CAST funciona como advertência: o marcador precisa ter sido validado contra o desfecho clínico em ensaios prévios, e mesmo essa validação tem alcance restrito ao contexto em que foi feita.

Para discussão em sala

  1. Antes da publicação do CAST, era razoável prescrever encainida ou flecainida para pacientes pós-infarto com extrassístoles ventriculares assintomáticas? Discuta a partir do conhecimento disponível à época, sem contaminar o argumento com o que se sabe hoje.

  2. O comitê de monitoramento de dados do CAST decidiu pela parada precoce em abril de 1989. Discuta as obrigações éticas envolvidas nessa decisão — o que se devia aos pacientes randomizados para droga ativa? O que se devia aos pacientes em uso clínico do fármaco fora do ensaio?

  3. Em um ensaio fase II que demonstra redução de marcador tumoral circulante após nova quimioterapia, deve-se aprovar o fármaco com base nesse achado, ou aguardar ensaios fase III com desfecho de sobrevida? Argumente com referência ao CAST e à literatura sobre desfechos substitutos.

Referências

1.
Ruberman W, Weinblatt E, Goldberg JD, Frank CW, Shapiro S. Ventricular Premature Beats and Mortality After Myocardial Infarction. New England Journal of Medicine. 1977;297(14):750–7.
2.
Greene HL, Roden DM, Katz RJ, Woosley RL, Salerno DM, Henthorn RW. The Cardiac Arrhythmia Suppression Trial: First CAST ... Then CAST-II. Journal of the American College of Cardiology. 1992;19(5):894–8.
3.
Cardiac Arrhythmia Suppression Trial (CAST) Investigators. Preliminary Report: Effect of Encainide and Flecainide on Mortality in a Randomized Trial of Arrhythmia Suppression After Myocardial Infarction. New England Journal of Medicine. 1989;321(6):406–12.
4.
Echt DS, Liebson PR, Mitchell LB, Peters RW, Obias-Manno D, Barker AH, et al. Mortality and Morbidity in Patients Receiving Encainide, Flecainide, or Placebo: The Cardiac Arrhythmia Suppression Trial. New England Journal of Medicine. 1991;324(12):781–8.
5.
Cardiac Arrhythmia Suppression Trial II Investigators. Effect of the Antiarrhythmic Agent Moricizine on Survival After Myocardial Infarction. New England Journal of Medicine. 1992;327(4):227–33.