Fichas toxicológicas: intoxicação e abstinência
No pronto-socorro, o paciente raramente chega dizendo o que usou. Chega agitado, sonolento, suando, tremendo, com as pupilas muito abertas ou muito fechadas, e o médico precisa reconhecer o padrão. Estudar cada substância isoladamente ajuda pouco nessa hora; o que ajuda é ter visto as substâncias lado a lado. Por isso, nesta atividade, todos os grupos pesquisam seguindo a mesma organização, e o produto final não é uma soma de seminários, mas um quadro comparativo construído pela turma.
Orientações:
- Formem os grupos e sorteiem (ou escolham) uma das classes de substância listadas abaixo.
- Pesquisem a substância seguindo a organização da ficha. Todos os itens devem ser respondidos, mesmo que a resposta seja “não se aplica” ou “não há antídoto”. Usem a bibliografia de apoio e citem as fontes.
- Preencham a linha do grupo no quadro comparativo e entreguem a ficha ao professor.
- Com o quadro completo projetado, a turma discute as perguntas da seção Discussão e responde ao questionário.
Substâncias
- Álcool
- Benzodiazepínicos (e outros sedativo-hipnóticos, como o zolpidem)
- Opioides (heroína, morfina, oxicodona, fentanil, tramadol)
- Cocaína e crack
- Anfetaminas e metanfetamina, incluindo o MDMA (ecstasy)
- Cannabis
- Alucinógenos e dissociativos (LSD, psilocibina, ketamina)
- Tabaco e nicotina, incluindo os cigarros eletrônicos
- Novas substâncias psicoativas: canabinoides sintéticos (K2, K4, spice) e catinonas sintéticas
Com uma turma maior, um décimo grupo pode ficar com os inalantes (loló, lança-perfume, solventes), muito presentes no Brasil.
Organização da Ficha
- Identificação. Nomes populares, formas de apresentação, vias de uso e situação legal no Brasil.
- Mecanismo de ação. Em uma ou duas frases: sobre qual sistema de neurotransmissão a substância age?
- Intoxicação aguda. O que se espera encontrar em sinais vitais (frequência cardíaca, pressão, temperatura, respiração), pupilas, pele (seca ou sudorética) e estado mental. Quais achados indicam gravidade?
- Conduta na intoxicação. Medidas de suporte, exames, existência de antídoto e os limites do seu uso.
- Abstinência. Início, pico e duração após a última dose; sinais e sintomas. A abstinência pode matar? Por quê?
- Conduta na abstinência. O que se usa para tratá-la e quando internar.
- Uso a longo prazo. Principais complicações clínicas e psiquiátricas, e opções de tratamento da dependência (farmacológicas e psicossociais).
- Complicações e interações relevantes. Complicações graves que podem passar despercebidas no atendimento e interações medicamentosas de risco.
- Fontes consultadas.
Quadro comparativo da turma
Cada grupo preenche a sua linha. Em sala, o quadro completo é projetado e discutido.
| Substância | Pupilas | FC / PA | Temperatura | Pele | Estado mental | Antídoto | A abstinência pode matar? |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Álcool | |||||||
| Benzodiazepínicos | |||||||
| Opioides | |||||||
| Cocaína / crack | |||||||
| Anfetaminas / MDMA | |||||||
| Cannabis | |||||||
| Alucinógenos / dissociativos | |||||||
| Tabaco / nicotina | |||||||
| Novas substâncias psicoativas |
| Substância | Pupilas | FC / PA | Temperatura | Pele | Estado mental | Antídoto | A abstinência pode matar? |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Álcool | normais ou pouco alteradas; nistagmo | normais ou baixas | normal ou baixa | normal | desinibição, ataxia, disartria, sonolência até coma | não há (suporte; tiamina) | sim: convulsões e delirium tremens |
| Benzodiazepínicos | normais ou pouco alteradas | normais ou baixas | normal | normal | sedação, ataxia; depressão respiratória sobretudo com álcool ou opioides | flumazenil, de uso restrito | sim: convulsões e delirium |
| Opioides | miose | baixas | normal ou baixa | normal | sonolência até coma, bradipneia | naloxona | raramente; muito desconfortável |
| Cocaína / crack | midríase | altas | alta | sudorética | agitação, ansiedade, paranoia, convulsões | não há (benzodiazepínicos, resfriamento) | não; disforia, hipersonia, fissura e risco de suicídio |
| Anfetaminas / MDMA | midríase | altas | alta | sudorética | agitação, psicose; MDMA: hiponatremia e síndrome serotoninérgica | não há | não; disforia e fadiga |
| Cannabis | normais; hiperemia conjuntival | FC alta | normal | normal | euforia ou ansiedade, pânico, às vezes psicose | não há | não; irritabilidade, insônia, perda de apetite |
| Alucinógenos / dissociativos | midríase (LSD); nistagmo (ketamina) | levemente altas | normal ou alta | variável | alterações perceptivas, dissociação, “bad trip” | não há (ambiente calmo; benzodiazepínicos) | não há síndrome de abstinência descrita para os alucinógenos |
| Tabaco / nicotina | variáveis | altas na intoxicação leve | normal | sudorética; náuseas, sialorreia | intoxicação rara (crianças, líquido de cigarro eletrônico) | não há | não; irritabilidade, ansiedade, fome, insônia |
| Novas substâncias psicoativas | midríase (catinonas) | altas | alta | sudorética | agitação intensa, psicose, convulsões; quadros mais graves e imprevisíveis | não há | pouco estudada |
Os padrões que se repetem são as síndromes tóxicas (toxíndromes): simpatomimética (cocaína, anfetaminas, catinonas: midríase, taquicardia, hipertensão, hipertermia, sudorese), opioide (miose, bradipneia, rebaixamento), sedativo-hipnótica (álcool, benzodiazepínicos: rebaixamento com pupilas e sinais vitais pouco alterados). A anticolinérgica, que não aparece na lista e vem sobretudo de medicamentos (tricíclicos, anti-histamínicos, antiparkinsonianos) e de plantas como a trombeteira (Datura), imita a simpatomimética, mas com a pele seca.
Quadro redigido com apoio de IA a partir da literatura de referência — revisão do professor recomendada.
Discussão
- Olhando o quadro completo: quais abstinências podem matar e quais intoxicações podem matar? Que relação há entre as substâncias que estão em cada lista?
- A abstinência costuma ser a “imagem em espelho” da intoxicação. Em quais substâncias isso aparece com mais clareza? Há exceções?
- Um paciente chega ao PS agitado, com midríase e taquicardia, e não sabe ou não quer dizer o que usou. Que dados do exame físico ajudam a estreitar as possibilidades?
- As novas substâncias psicoativas mudam de composição mais rápido do que a lei e os testes de laboratório conseguem acompanhar. Como regular uma substância que ainda não se conhece? (Este tema pode render um júri simulado próprio.)
- Em 2010, um comitê independente britânico pontuou o dano de 20 drogas para o usuário e para os outros1. Antes de ler o artigo, ordenem as substâncias do quadro da mais para a menos danosa. Depois comparem com o resultado. O que surpreendeu?
Questões
1. Em quais das síndromes de abstinência abaixo há risco de convulsões e de morte? (marque todas as corretas)
- Álcool
- Opioides
- Benzodiazepínicos
- Cocaína
a + c. Álcool e benzodiazepínicos agem sobre o sistema GABA, e a suspensão abrupta após uso prolongado deixa o cérebro hiperexcitável, com risco de convulsões e de delirium2. A abstinência de opioides é muito desconfortável, mas raramente fatal em pessoas sem outras doenças; a de cocaína é sobretudo disfórica, e o risco que se deve vigiar nela é o de suicídio.
2. Um jovem é trazido ao PS por amigos, sonolento, com frequência respiratória de 6 incursões por minuto e pupilas puntiformes. Qual é a conduta específica mais urgente, além do suporte ventilatório?
- Flumazenil
- Naloxona
- Tiamina
- Diazepam
b. Miose, bradipneia e rebaixamento do nível de consciência formam a tríade da intoxicação por opioides, e a naloxona é o antagonista que a reverte. Como a naloxona age por menos tempo que muitos opioides (sobretudo os de longa ação e o fentanil), o paciente precisa ficar em observação, porque a depressão respiratória pode voltar.
3. Na intoxicação por cocaína ou anfetaminas (síndrome simpatomimética), qual achado ajuda a diferenciá-la da intoxicação anticolinérgica?
- Midríase
- Taquicardia
- Pele úmida e sudorética
- Agitação psicomotora
c. As duas síndromes têm midríase, taquicardia, hipertermia e agitação. Na simpatomimética, a pele está sudorética; na anticolinérgica, está seca e quente, porque a sudorese depende de receptores muscarínicos. Ruídos hidroaéreos diminuídos e retenção urinária também sugerem o quadro anticolinérgico.
4. Um paciente com uso pesado e prolongado de álcool, desnutrido, chega ao PS confuso e com hipoglicemia. Que vitamina deve ser administrada antes ou junto com a glicose, para prevenir a encefalopatia de Wernicke?
- Vitamina B12 (cianocobalamina)
- Vitamina B1 (tiamina)
- Ácido fólico
- Vitamina K
b. A tiamina é cofator do metabolismo da glicose. No paciente com deficiência, a oferta de glicose sem tiamina pode precipitar ou agravar a encefalopatia de Wernicke (confusão, ataxia, oftalmoplegia). Por isso a tiamina faz parte do manejo de rotina da abstinência alcoólica2.
5. Após a última dose de álcool, em que período costuma surgir o delirium tremens?
- Nas primeiras 6 horas
- Entre 6 e 12 horas
- Entre 48 e 96 horas
- Depois de duas semanas
c. Os tremores e a hiperatividade autonômica começam nas primeiras horas, e as convulsões costumam ocorrer nas primeiras 48 horas; o delirium tremens aparece mais tarde, em geral entre 2 e 4 dias após a última dose2. Para acompanhar a gravidade da abstinência e orientar a dose de benzodiazepínico, usa-se a escala CIWA-Ar3.
6. Por que o flumazenil não é usado de rotina na suspeita de intoxicação por benzodiazepínicos?
- Porque não tem efeito sobre os benzodiazepínicos de longa ação
- Porque pode precipitar abstinência e convulsões em usuários crônicos ou em quem também ingeriu substâncias pró-convulsivantes
- Porque causa depressão respiratória
- Porque só existe para uso oral
b. Em quem usa benzodiazepínicos há muito tempo, o antagonismo abrupto pode desencadear abstinência e convulsões, e o mesmo risco existe quando há co-ingestão de substâncias que baixam o limiar convulsivo, como os antidepressivos tricíclicos. A intoxicação isolada por benzodiazepínicos raramente é grave; o perigo aparece sobretudo quando eles se somam ao álcool ou a opioides.
7. Qual dos sinais abaixo não é esperado na abstinência de opioides?
- Rinorreia e lacrimejamento
- Piloereção
- Miose
- Diarreia e cólicas
c. A abstinência de opioides é a imagem em espelho da intoxicação: no lugar da miose, há midríase; no lugar da constipação, diarreia; aparecem ainda bocejos, rinorreia, lacrimejamento, piloereção, dores musculares e fissura. A cena da abstinência de heroína em Trainspotting ilustra vários desses sinais.
8. Na análise multicritério de Nutt e colaboradores, que pontuou 20 drogas pelo dano ao usuário e aos outros, qual substância obteve o maior escore total de dano?
- Heroína
- Crack
- Álcool
- Metanfetamina
c. O álcool teve o maior escore total (72), à frente de heroína (55) e crack (54). Heroína, crack e metanfetamina foram as mais danosas para o próprio usuário, mas o álcool foi de longe a mais danosa para os outros. Os autores observam que essa ordem tem pouca relação com a classificação legal das drogas no Reino Unido1.
Respostas comentadas redigidas com apoio de IA a partir da literatura de referência — revisão do professor recomendada.
Materiais de apoio
Para aplicar o que foi pesquisado a pacientes concretos, vejam os casos Victor (cocaína) e Antônio (benzodiazepínicos), e a discussão sobre maconha e benzodiazepínicos para ansiedade.
Leituras sugeridas