Psicose Induzida por Cocaína

Substâncias
Caso clínico
Victor Moreira, designer — paranoia, câmeras escondidas e internação após uso crônico de cocaína.
NotaFicha do caso
  • Diagnóstico: Transtorno psicótico induzido por cocaína
  • Nome fictício: Victor Moreira
  • Idade: não informada (início do uso aos 25 anos)
  • Profissão: Designer gráfico freelancer
DicaObjetivos de aprendizagem
  • Reconhecer os sintomas psicóticos induzidos por estimulantes
  • Identificar os sinais clínicos da intoxicação por cocaína
  • Diferenciar a psicose induzida por substância da esquizofrenia
  • Discutir o manejo agudo e o encaminhamento para o tratamento da dependência

Victor Moreira sempre foi inquieto. Inteligente, criativo, dono de uma mente que trabalhava em velocidade dobrada. Trabalhava de casa como designer gráfico freelancer, criando campanhas publicitárias para marcas pequenas, startups e eventos culturais. O prazo curto, a pressão constante e a busca por performance levaram-no a experimentar cocaína pela primeira vez aos 25 anos. “Me faz pensar mais rápido”, dizia.

No início, usava aos fins de semana. Depois, durante as madrugadas de deadline apertado. Por fim, todos os dias. Passou a dormir pouco, a comer menos e a se tornar progressivamente irritadiço. Começou a desconfiar de colegas, acreditando que roubavam suas ideias. Dizia que escutava conversas sobre ele, mesmo quando não havia ninguém por perto.

A paranoia cresceu. Fez adaptações no apartamento: cobriu tomadas com fita isolante, retirou o microfone do notebook, colocou espelhos em lugares estratégicos para vigiar possíveis espiões. Passava horas olhando através da cortina, convencido de que carros parados na rua eram “observadores contratados por agências concorrentes”. Um dia, ligou para a mãe dizendo que o estavam filmando através das paredes. Gritava ao telefone. Chorava.

Foi a irmã quem o encontrou em surto, trancado no banheiro, dizendo que “tudo fazia sentido agora”, que era parte de uma experiência controlada, que cada gesto dele tinha sido manipulado por uma inteligência externa. O olhar estático, a fala acelerada, os pensamentos desorganizados. Foi levado à emergência psiquiátrica por iniciativa da família.

Chegou em estado de agitação psicomotora grave, incapaz de permanecer sentado, andando de um lado para o outro em passos rápidos e abruptos. O discurso era acelerado, com frases incompletas e saltos bruscos de assunto, por vezes repetindo palavras como se buscasse reforçar o próprio raciocínio. Manifestava delírios de perseguição e de referência, apontando para cantos da sala e afirmando que havia câmeras escondidas. Relatava ouvir vozes que comentavam suas ações em tempo real, misturadas a ideias mágicas sobre sua própria identidade, acreditando ser portador de habilidades especiais. Clinicamente, apresentava taquicardia intensa, hipertensão, sudorese profusa, tremores finos nas mãos, pupilas dilatadas e um comportamento imprevisível, alternando momentos de riso nervoso com explosões verbais hostis.

A anamnese revelou uso crônico de cocaína, com aumento progressivo da dose e associações esporádicas com álcool e energéticos. Foi internado para contenção do quadro agudo, com uso de benzodiazepínicos, antipsicóticos e suporte clínico.

Victor permaneceu hospitalizado por duas semanas. Aos poucos, os delírios cederam, a agitação diminuiu e o discurso retomou alguma coerência. Ainda com dificuldade em aceitar o vínculo entre uso e sintomas, foi incluído em programa terapêutico para dependência química. De forma intermitente, inicia um processo de reflexão sobre os efeitos da droga na sua vida. Disse, dias antes da alta: “Eu achei que estava voando. Mas tava é me jogando do precipício.”

Questões para discussão

  1. Que sinais clínicos de intoxicação por estimulante o exame de Victor apresenta?
  2. Caracterize os sintomas psicóticos do caso e sua relação temporal com o uso.
  3. Como diferenciar psicose induzida por cocaína de esquizofrenia primária?
  4. Planeje o manejo agudo e o seguimento após a alta.
  1. Taquicardia intensa, hipertensão, sudorese profusa, tremores finos, midríase, agitação psicomotora grave com imprevisibilidade — a assinatura adrenérgica da cocaína, que exige monitorização clínica (risco cardiovascular e hipertermia) além do manejo comportamental.
  2. Delírios persecutórios e de referência (espiões contratados, câmeras nas paredes, carros “observadores”), alucinações auditivas comentando seus atos em tempo real, ideias de grandeza místicas (“habilidades especiais”) e desorganização do discurso — evoluindo em paralelo à escalada do uso: fins de semana → madrugadas de deadline → uso diário. A relação dose-tempo-sintoma é o coração do diagnóstico.
  3. A favor de induzida: início após uso pesado, paranoia > sintomas negativos, resolução em dias-semanas com abstinência (os delírios de Victor cederam em 2 semanas), idade e funcionamento prévios preservados. Esquizofrenia: sintomas que persistem > 1 mês após abstinência confirmada, pródromo prévio, sintomas negativos e curso independente do uso. A resposta só vem com seguimento sóbrio — por isso não rotular definitivamente na crise.
  4. Agudo: contenção ambiental, benzodiazepínico como base (agitação e proteção cardiovascular), antipsicótico se sintomas psicóticos proeminentes, hidratação e monitorização. Seguimento: programa estruturado para dependência (a parte mais difícil — Victor “aceita o vínculo de forma intermitente”), prevenção de recaída, rastreio de comorbidades e reavaliação diagnóstica em abstinência.
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