Critérios diagnósticos
Por que critérios?
Algumas condições têm um teste que decide o diagnóstico: uma fratura aparece na radiografia, uma gravidez no exame laboratorial. Os transtornos psiquiátricos — como os quadros demenciais e várias doenças reumáticas — não têm esse padrão-ouro e dependem de “critérios” para serem de classificados e nomeados.
Um critério diagnóstico é, no fundo, um sinal a ser buscado na avaliação do paciente (ver Sinal e ruído). Um conjunto de critérios é a receita explícita e compartilhada que define quando um termo diagnóstico pode ser usado: em vez de cada médico ter em mente sua própria ideia de “mania”, todos passam a apontar para a mesma lista. É isso que torna o diagnóstico reprodutível — dois clínicos diante do mesmo paciente tendem a chegar ao mesmo nome1. As classificações atuais combinam, portanto, um léxico (os nomes dos transtornos) e um conjunto de critérios que operacionaliza e uniformiza o uso desses nomes.
A anatomia de um conjunto de critérios
Apesar de tratarem de quadros muito diferentes, os critérios do DSM-5 seguem quase sempre a mesma arquitetura. Reconhecê-la torna a leitura de qualquer diagnóstico mais rápida. Tomando o episódio maníaco como molde:
- Critério nuclear (A) — o fenômeno obrigatório e definidor, em geral com uma duração mínima. Na mania, o período de humor elevado ou irritável por pelo menos uma semana. Sem ele não há diagnóstico, por mais sintomas que existam.
- Lista politética (B) — um cardápio de sintomas do qual se exige um número mínimo, não todos. Na mania, “três (ou mais) de sete” (quatro, se o humor for apenas irritável). Por isso dois pacientes com o mesmo diagnóstico podem ter quadros bem diferentes: preenchem a mesma cota por caminhos distintos.
- Gravidade e prejuízo (C) — a exigência de que os sintomas causem sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento (ou, na mania, justifiquem hospitalização). É o critério que separa um traço de um transtorno.
- Exclusões (D e seguintes) — cláusulas que afastam explicações concorrentes: efeitos de substância ou de outra condição médica e o diagnóstico diferencial com outros transtornos.
A esse esqueleto somam-se as “Notas” (que ajustam os critérios para crianças, por exemplo) e os especificadores. Nos exemplos abaixo, procure identificar cada um desses elementos.
Três exemplos do DSM-5
O que os critérios garantem — e o que não
Os critérios uniformizam o termo: garantem que a comunidade médica internacional está falando da mesma coisa ao dizer “transtorno bipolar tipo I”. O que eles não fazem é dispensar o juízo clínico — cada item ainda precisa ser reconhecido no paciente real, um trabalho de discriminar sinal de ruído (Sinal e ruído), e a própria escolha e o recorte dos critérios têm limites e controvérsias (Doença ou diagnóstico?). Os conjuntos reproduzidos aqui seguem o DSM-5; permaneceram essencialmente iguais no DSM-5-TR3, e a CID-11 traz seus próprios critérios diagnósticos para os mesmos quadros.
Leituras sugeridas
- Critérios na íntegra: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais — DSM-52 e sua revisão, o DSM-5-TR3.
- Por que a padronização importa: Aboraya e cols., The Reliability of Psychiatric Diagnosis Revisited1.
Critérios reproduzidos do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5)2.