Diagnóstico dimensional × categorial
Existem duas formas diferentes de conceituarmos os problemas encontrados na prática médica. A abordagem tradicional da medicina é a que usa de categorias diagnósticas, na qual um paciente tem ou não determinada condição. Essa abordagem é adequada para situações nas quais a conduta se baseia simplesmente na presença ou ausência da condição. Situações nas quais só existem duas possibilidades, tais como estar ou não grávida, o sexo do bebê ser masculino ou feminino, haver ou não uma trissomia do cromossomo 21, haver ou não um vírus ou bactéria no corpo, são todos exemplos de como uma classificação dicotômica, que discerne entre haver ou não uma condição médica pode esclarecer os sintomas e ajudar no planejamento das condutas adequadas.
Entretanto, uma série de outras situações correntes na medicina envolvem um continuum e a decisão de haver ou não determinada condição depende de “ponto de corte”. Por exemplo a pressão arterial pode variar desde muito baixa até muito alta e classificação do paciente em hipertenso ou normotenso irá depender de um ponto de corte consensualmente estabelecido entre a comunidade médica de determinada época. Da mesma forma, haverá necessidade de um ponto de corte em todas doenças nas quais há uma medida numérica contínua para o diagnóstico, tal como na determinação do diagnóstico de diabetes mellitus, hipo ou hipertiroidismo, anemia etc.. Em qualquer situação na qual o diagnóstico depende de um valor numérico, será necessário o estabelecimento de valores de referência e pontos de corte para auxiliar a determinação da presença ou não da condição.
No campo da saúde mental a situação é mais complexa. Os diagnósticos psiquiátricos dependem de uma série de critérios subjetivos e praticamente todos esses critérios existem num continuum de intensidade. A gradação de um sintoma é muitas vezes tão ou mais importante do que a mera e simples detecção da existência do sintoma. Entretanto, a abordagem dimensional é demasiadamente complexa para uso diário na clínica e, apesar de suas limitações e fragilidades, a abordagem categórica tem sido a tradicionalmente usada nos diagnósticos psiquiátricos desde a década de 1970, quando Feighner propôs o uso de categorias para uso em pesquisas na área da psiquiatria1.