Doença ou diagnóstico? Controvérsias do diagnóstico psiquiátrico

Classificação
Conceitos
Se não há definição de doença — nem de doença mental —, o que a psiquiatria diagnostica? De Szasz ao DSM-IV, as controvérsias que todo médico deveria conhecer.
NotaSobre este texto

Ensaio conceitual sobre as controvérsias do diagnóstico psiquiátrico — a existência ou não de “doenças mentais”, a explicação do próprio DSM-IV sobre o termo transtorno mental e os limites de acurácia e confiabilidade. Leia também Utilidades de um diagnóstico e O conceito de doença.

Apesar da importância do diagnóstico, as classificações dos transtornos psiquiátricos são repletas de controvérsias. Existem questionamentos acerca da existência ou não de doenças mentais, da acurácia e confiabilidade do diagnóstico psiquiátrico, da utilidade do diagnóstico e do mau uso dos diagnósticos. Além disso, o diagnóstico psiquiátrico é carregado de uma série de estigmas e preconceitos que podem impactar negativamente o tratamento.

A questão da existência dos transtornos mentais

Diversos autores questionam o diagnóstico psiquiátrico com o argumento de que não existem doenças mentais e que os diagnósticos psiquiátricos são nada mais do que meras abstrações1. Essa corrente de pensamento se fundamenta na noção de que um diagnóstico deve sempre representar doença; caso contrário, o diagnóstico não teria valor científico.

Entretanto, o conceito de doença é bastante controverso: as definições do que é uma doença são vagas, circulares e frustrantes. A dificuldade desse conceito é tão grande na área de saúde mental que as condições listadas nos manuais de psiquiatria recebem a denominação de transtornos, e não de doenças. A psiquiatria não trabalha com doenças pelo simples fato de não haver uma definição do que seja doença, muito menos do que seja doença mental. Até mesmo o termo transtorno mental é problemático, pois a distinção entre transtornos mentais e transtornos que não sejam mentais é enganosa, tendo em vista que existem inúmeras alterações fisiológicas nos transtornos denominados de mentais e, do mesmo modo, há muitas alterações mentais em diversas outras condições médicas. Vale a pena aqui reproduzir a explicação sobre o termo transtorno mental no DSM-IV2:

Although this volume is titled the Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, the term mental disorder unfortunately implies a distinction between “mental” disorders and “physical” disorders that is a reductionistic anachronism of mind/body dualism. A compelling literature documents that there is much “physical” in “mental” disorders and much “mental” in “physical” disorders. The problem raised by the term “mental” disorders has been much clearer than its solution, and, unfortunately, the term persists in the title of DSM-IV because we have not found an appropriate substitute.

Tradução livre: Embora este volume se intitule Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o termo transtorno mental infelizmente implica uma distinção entre transtornos “mentais” e “físicos” que é um anacronismo reducionista do dualismo mente/corpo. Uma literatura convincente documenta que há muito de “físico” nos transtornos “mentais” e muito de “mental” nos transtornos “físicos”. O problema criado pelo termo transtornos “mentais” tem sido muito mais claro do que sua solução e, infelizmente, o termo persiste no título do DSM-IV porque não encontramos um substituto adequado.

Para minimizar o problema causado pelo termo doença, a psiquiatria trabalha com o conceito de diagnóstico. Ao contrário do termo genérico doença, um diagnóstico se refere a um conjunto definido de sinais e sintomas. A grande questão da psiquiatria não é saber se esses diagnósticos representam ou não doenças. A questão é saber se esses diagnósticos são úteis, se a distinção entre padrões de sinais e sintomas faz sentido, e qual a melhor forma de ajudar os pacientes com esses diagnósticos.

Os diagnósticos clínicos e psiquiátricos não são entidades estáticas: estão continuamente sendo repensados e reformulados. Alguns diagnósticos são eliminados, outros são fundidos, outros são desmembrados, num processo contínuo, de acordo com o pensamento científico e cultural de cada época. Por exemplo, a noção de uma síndrome de imunodeficiência adquirida foi construída no início da década de 1980 a partir da observação clínica de pacientes com tumores raros na população em geral3,4; os diagnósticos de Autismo5 e Síndrome de Asperger6, cunhados respectivamente nos anos de 1943 e 1944, foram fundidos num só diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista no DSM-57.

A questão da acurácia e da confiabilidade

Os diagnósticos psiquiátricos sofrem uma constante crítica a respeito de sua acurácia e de sua confiabilidade8. Os diagnósticos psiquiátricos são atualmente baseados exclusivamente na observação clínica, na anamnese, não havendo ainda nenhum exame complementar para comprovar o diagnóstico.

Materiais de apoio

Documentário sugerido

  • Diagnóstico (Diagnosis, baseado na coluna de Lisa Sanders no New York Times) — Netflix

Leituras sugeridas

  • Szasz, The Myth of Mental Illness: Foundations of a Theory of Personal Conduct1.
  • Aboraya e cols., The Reliability of Psychiatric Diagnosis Revisited8.
  • Johnstone, A Straight Talking Introduction to Psychiatric Diagnosis9.
De volta ao topo

Referências

1.
Szasz, T. S. The Myth of Mental Illness: Foundations of a Theory of Personal Conduct. (Harper & Row, New York, 1961).
2.
American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-IV. (American Psychiatric Association, Washington, DC, 1994).
3.
Hymes, K. B. et al. Kaposi’s Sarcoma in Homosexual Men — A Report of Eight Cases. The Lancet 2, 598–600 (1981).
4.
Centers for Disease Control (CDC). Update on Acquired Immune Deficiency Syndrome (AIDS) — United States. MMWR Morbidity and Mortality Weekly Report 31, 507–514 (1982).
5.
Kanner, L. Autistic disturbances of affective contact. Nervous Child 2, 217–250 (1943).
6.
Asperger, H. Die “Autistischen Psychopathen” im Kindesalter. Archiv für Psychiatrie und Nervenkrankheiten 117, 76–136 (1944).
7.
American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5. (American Psychiatric Association, Washington, DC, 2013).
8.
Aboraya, A., Rankin, E., France, C., El-Missiry, A. & John, C. The Reliability of Psychiatric Diagnosis Revisited: The Clinician’s Guide to Improve the Reliability of Psychiatric Diagnosis. Psychiatry (Edgmont) 3, 41–50 (2006).
9.
Johnstone, L. A Straight Talking Introduction to Psychiatric Diagnosis. (PCCS Books, Monmouth, 2014).