Utilidades de um diagnóstico
Linguagem universal
Na medicina o diagnóstico serve para facilitar a comunicação. Sem uma linguagem comum não haveria como dois médicos conversarem sobre seus pacientes. Sem uma linguagem comum não seria possível compreendermos a literatura médica. Se uma determinada doença fosse definida de formas diferentes por cada autor, a literatura médica seria um conjunto inútil de informações, pois um mesmo nome estaria sendo usado para descrever fenômenos diferentes. A constatação da importância de uma nomenclatura comum na psiquiatria surgiu a partir da verificação de como a esquizofrenia era diagnosticada de forma desigual no Reino Unido e nos estados Unidos. No início da década de 1960 a esquizofrenia estava sendo diagnosticada nos EUA numa taxa 5-20 vezes maior do que no Reino Unido1 Essas discrepâncias mostraram como um mesmo termo estava sendo usado e conceituado de formas distintas em cada país e impulsionaram o desenvolvimento de definições comuns para as várias categorias diagnósticas em psiquiatria2
Síntese de informação
Um sistema diagnóstico universal permite a troca de grande quantidade de informação de forma concisa. Um diagnóstico de Transtorno Bipolar do Humor já indica que (1) o paciente já teve pelo menos um episódio de mania, (2) durante esse episódio o paciente experimentou alguns sintomas característicos tais como elação do humor, aumento da energia, aceleração do pensamento, alterações na capacidade de julgamento e (3) o paciente provavelmente já vivenciou episódios de depressão, caracterizados por alguns sintomas tais como tristeza, insônia, alterações de apetite, sentimentos de baixa estima entre outros. Da mesma forma, diagnósticos de AIDS, tuberculose, Síndrome de Down ou qualquer outro diagnóstico médico carregam uma grande quantidade de informações sintetizadas em poucas palavras. ## Organização, simplificação, redução da complexidade
Um diagnóstico também contribui para ordenar fenômenos complexos. Conjuntos complexos de sinais ou sintomas são mais facilmente compreendidos quando categorizados/classificados em uma síndrome ou doença. Diferentes tipos de sinais e sintomas aparentemente aleatórios se tornam coerentes quando compreendidos como sintomas de uma determinada condição. O conceito de autismo criado por Leo Kanner tornou possível classificar sob um novo diagnóstico (autismo) pacientes antes classificados em diferentes diagnósticos (retardo mental, esquizofrenia etc.)3. O diagnóstico de autismo simplificou o que antes era uma extensa lista de condutas incompreensíveis e desconexas, organizou a forma como esses sintomas deveriam ser observados em três grandes grupos de sintomas (déficits de comunicação social, déficits na interação social e comportamentos estereotipados e repetitivos), reduzindo a complexidade da análise do quadro desses pacientes. Um diagnóstico pode possibilitar um novo olhar acerca da complexidade do comportamento humano e uma melhor compreensão dos fenômenos observados. ## Direcionamento da conduta
Um diagnóstico serve também para direcionar a conduta médica. Tendo em vista haver indicações de tratamentos diferentes para diferentes condições, o estabelecimento do diagnóstico correto indica que tratamento deve ser prescrito. Assim, um paciente com transtorno bipolar pode se beneficiar de um estabilizador de humor e um paciente com transtorno de personalidade borderline pode se beneficiar de uma psicoterapia adequada. ## Previsões prognósticas e planejamentos futuros
Um diagnóstico correto pode auxiliar no planejamento da vida, pois diferentes problemas têm diferentes evoluções. Uma doença autolimitada evolui de forma diferente de uma doença crônica. Algumas doenças são cíclicas (tais como o transtorno bipolar), outras são degenerativas e crônicas como a doença de Alzheimer. Conhecer a evolução e a história natural das doenças só faz sentido se há um sistema diagnóstico que permita classificar as diferentes condições.
Análises epidemiológicas e medidas de saúde pública
A definição das medidas de saúde pública depende em grande parte de informações epidemiológicas. Problemas frequentes e graves necessitam de mais investimento para prevenção e tratamento. Informações sobre quais são essas doenças e condições médicas que requerem atenção somente são possíveis com a existência de um sistema diagnóstico. Sem diagnóstico não haveria como saber a prevalência ou incidência das doenças e não haveria possibilidade de fazer nenhum planejamento de saúde pública.
Acesso a tratamentos e grupos de autoajuda
Em muitas situações um diagnóstico é necessário para o acesso ao tratamento. Com um diagnóstico, é possível fazer um encaminhamento ao psiquiatra, solicitar um tratamento psicoterápico ou uma medicação. Por exemplo, atualmente no Brasil o acesso a medicamentos de alto custo é liberado apenas para pacientes com diagnósticos predeterminados, segundo os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas emitidos pelo Ministério da Saúde e regulamentados pela Portaria 1.554 de 20134. Por exemplo, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I autoriza a liberação de uma série de medicamentos para pacientes com diagnóstico de transtorno bipolar do humor5. Sem esse diagnóstico os pacientes não têm acesso gratuito a esses tratamentos.
Um diagnóstico possibilita também que pacientes se reúnam para conversar e superar suas dificuldades. Grupos e organizações de pacientes com TDAH, bipolaridade, alcoolismo, autismo, etc. somente se tornam possíveis havendo um sistema diagnóstico. ## Direcionamento da busca de informações
Tanto médicos quanto pacientes e familiares vão em busca de informações sobre as condições que vivenciam ou tratam. Com um diagnóstico correto o paciente e o médico podem buscar informações atualizadas sobre aspectos do problema e as melhores condutas a serem tomadas. A busca de informações sobre a condição do paciente será muito limitada sem um diagnóstico. Se um paciente não sabe seu diagnóstico, como poderia buscar informação sobre seus problemas? ## Compreensão dos sintomas e redução do estigma
Um diagnóstico pode auxiliar o paciente e familiares a compreenderem melhor os sintomas. Os pais podem compreender melhor os sintomas de seu filho se souberem que ele tem autismo ou TDAH. Um indivíduo com depressão pode compreender melhor que seu cansaço e desânimo não significam fraqueza emocional, mas alterações causadas por uma condição fisiológica disfuncional. Um diagnóstico pode também reduzir o estigma, pois possibilita aos outros compreenderem que os sintomas não são fruto da vontade do paciente, podendo contribuir para reduzir os sentimentos de culpa e autorrecriminação.