Charles Whitman

Tumor cerebral e impulso violento egodistônico

Charles Joseph Whitman tinha vinte e cinco anos em agosto de 1966. Ex-fuzileiro naval, estudante de engenharia arquitetônica na Universidade do Texas em Austin, casado, sem antecedentes psiquiátricos formais nem registros criminais. Nos meses anteriores, procurou o médico universitário queixando-se de cefaleias persistentes e do que descreveu como “pensamentos violentos e irracionais” que não conseguia controlar. Foi encaminhado a um psiquiatra, com quem teve uma única consulta em março daquele ano. Não retornou.

Em 31 de julho, na noite anterior ao ataque, Whitman escreveu uma carta à máquina interrompida por anotações manuscritas. Nela descreveu não compreender o que vinha experimentando, manifestou afeto pela esposa e pela mãe, e — em uma passagem que se tornaria central nas discussões médico-legais posteriores — pediu uma autópsia. “Eu não compreendo realmente a mim mesmo nestes dias”, escreveu. “Supõe-se que eu seja um homem médio e razoável. No entanto, ultimamente (não consigo recordar quando começou) tenho sido vítima de muitos pensamentos incomuns e irracionais. (…) Após minha morte, desejo que uma autópsia seja realizada em mim para ver se há alguma desordem física visível” (Lavergne, 1997). Na madrugada de 1º de agosto, matou a esposa e, depois, a mãe, em suas respectivas residências. Ambas as cenas continham notas explicativas — em uma delas, Whitman escreveu que matava a esposa para poupá-la do constrangimento do que estava prestes a fazer.

Por volta das onze e meia da manhã, subiu à plataforma de observação da Torre da Universidade do Texas levando rifles, espingardas, uma pistola, munição abundante, alimentos e instrumentos. Bloqueou os acessos. Pelos noventa minutos seguintes atirou contra pedestres e estudantes no campus e em ruas adjacentes, alcançando alvos a centenas de metros. Foi morto por dois policiais que conseguiram subir à plataforma. O número de vítimas é tipicamente registrado como quatorze mortos e trinta e um feridos no ataque da torre, somados à esposa e à mãe na noite anterior. Uma das vítimas morreu de complicações da bala em 2001, elevando o total a dezessete. Foi, à época, o maior atentado com arma de fogo cometido por um único atirador em campus universitário nos Estados Unidos.

A autópsia foi realizada conforme o pedido escrito de Whitman. O exame macroscópico identificou um tumor no lobo temporal, descrito originalmente como localizado próximo ao tálamo e à amígdala. O patologista que examinou o material descreveu uma lesão de aproximadamente dois centímetros, com características de glioblastoma multiforme — um astrocitoma de alto grau, agressivo, conhecido por comprometer função em proporção desproporcional ao tamanho, especialmente quando localizado em estruturas límbicas profundas. A localização exata da lesão e sua relação anatômica com a amígdala foram objeto de divergência. O patologista original descreveu o tumor como adjacente à amígdala, mas comprimindo-a. Análises posteriores, baseadas em documentação fotográfica do exame, sugerem que o componente principal estava no lobo temporal medial direito, com efeito de massa sobre a amígdala e estruturas adjacentes.

O governador do Texas, John Connally, instituiu uma comissão médica para examinar os aspectos médicos do caso. A comissão reuniu neurologistas, neurocirurgiões, psiquiatras e patologistas, e publicou seu relatório em setembro de 1966 (Governor’s Committee, State of Texas, 1966). As conclusões foram cuidadosamente formuladas. A comissão concluiu que o tumor “poderia ter contribuído” para a incapacidade de Whitman controlar suas emoções e ações, mas que não era possível estabelecer relação causal direta. A maioria dos membros considerou plausível que a lesão em região límbica pudesse ter facilitado a perda de controle, particularmente dado que tumores nessa localização estão associados a alterações afetivas e comportamentais em outros casos descritos na literatura. Mas a comissão rejeitou explicitamente a interpretação simples de que o tumor “fez Whitman atirar”. Os fatores considerados como contribuintes incluíram uso documentado de anfetaminas — Whitman tomava dextroanfetamina prescrita para insônia, em doses crescentes —, história de relacionamento difícil com o pai (descrito como abusivo), pressões acadêmicas, queda do desempenho militar nos meses anteriores, e o planejamento meticuloso do ataque, indicativo de função executiva substancialmente preservada — algo difícil de conciliar com um quadro de perda total de controle produzida exclusivamente por lesão.

O caso combina três elementos que raramente convergem. Há insight preservado: o sujeito reconhece os impulsos como estranhos a si próprio, procura ajuda médica, solicita autópsia. Há planejamento executivo intacto: o ataque é cuidadosamente preparado, com armamento, alimentos, rotas e ordem operacional. E há achado anatômico relevante: lesão expansiva em região límbica documentada post-mortem. A configuração desafia leituras simplistas em duas direções opostas. Contra uma leitura biologicamente reducionista, o tumor não explica o planejamento, a escolha do alvo, a ordem dos eventos. Whitman não foi tomado por um surto compulsivo cego. Manteve coerência narrativa, capacidade de escrever, dirigir, comprar suprimentos, executar tarefas em sequência. Se houve perda de controle, ela foi seletiva — operou sobre algo afetivo ou impulsivo, não sobre função executiva geral. Contra uma leitura puramente moralista, a lesão estava lá, o sujeito relatou meses antes “pensamentos violentos e irracionais” que não compreendia, procurou ajuda médica, antecipou a possibilidade de causa física a ponto de pedir autópsia. Tratar o caso como simples maldade — descontando o substrato biológico — ignora dados clínicos relevantes.

A formulação mais cuidadosa, e a que a Comissão Connally em essência adotou, é que o tumor provavelmente contribuiu para reduzir a margem de controle inibitório sobre impulsos agressivos, sem determinar a forma específica que esses impulsos tomaram. A distinção importa: o substrato biológico estreita o espaço de possibilidades, mas o conteúdo do ato emerge da biografia, do contexto, das escolhas que ainda restavam. O caso ilustra a noção de agência comprometida em grau, não em essência. Whitman não foi um autômato sem vontade. Tampouco foi um agente plenamente soberano cujos atos seriam separáveis de sua biologia. Foi um sujeito cuja arquitetura inibitória estava sob estresse — biológico, farmacológico, biográfico — e cuja capacidade de manter um plano coerente alternativo aos impulsos que o assediavam foi insuficiente. O tumor não escolheu por ele. Mas reduziu os graus de liberdade dentro dos quais sua escolha aconteceu.

Três cuidados são necessários ao usar o caso em discussão pedagógica. Primeiro, a relação causal entre o tumor e o comportamento permanece uma inferência clínica plausível, não uma demonstração empírica. Não há grupo controle, não há reversibilidade observável (Whitman morreu no ataque), e a literatura sobre tumores em região límbica documenta uma faixa ampla de manifestações comportamentais, incluindo casos sem alteração de impulsividade. Segundo, o uso forense do caso ao longo das décadas tende a polarizar. Defesas de outros acusados invocam Whitman como precedente para argumentar determinismo neurobiológico. Promotorias invocam o planejamento como prova de premeditação plenamente responsável. Ambas as leituras simplificam o que a Comissão Connally cuidadosamente recusou simplificar. Terceiro, há a questão da anfetamina. Whitman tomava doses crescentes de dextroanfetamina por insônia, e anfetaminas em altas doses estão associadas a irritabilidade, paranoia e desorganização do sono. Em um sujeito com lesão expansiva em região límbica, o efeito pode ser aditivo. Nenhuma análise do caso pode atribuir o ataque exclusivamente ao tumor ignorando o componente farmacológico.

Questões para discussão

  1. Whitman pediu, por escrito, uma autópsia para investigar causas físicas dos seus impulsos. O que esse pedido nos diz sobre o estado de sua consciência e seu insight? Ele invalida a hipótese de “perda de controle”?

  2. Se o tumor “contribuiu mas não determinou”, como atribuir responsabilidade? Existe uma metodologia razoável para essa partição, ou ela é estrutural e necessariamente impossível?

  3. Compare com o caso da pedofilia adquirida por tumor frontal (capítulo 5.3). Por que aquele caso costuma gerar consenso mais claro sobre redução de responsabilidade do que o caso Whitman?

  4. A Comissão Connally optou por uma formulação cautelosa (“poderia ter contribuído”). Argumente a favor e contra essa formulação do ponto de vista médico-legal. Que outra formulação você proporia?

  5. Se hoje um paciente em consulta queixar-se de “pensamentos violentos e irracionais” sem antecedentes claros, qual conduta clínica é apropriada? O que mudou em prática clínica entre 1966 e hoje em relação ao caso Whitman?

Referências

GOVERNOR’S COMMITTEE, STATE OF TEXAS. Report to the Governor: Medical Aspects, Charles J. Whitman Catastrophe. Austin, TX: State of Texas, 1966.
LAVERGNE, Gary M. A Sniper in the Tower: The Charles Whitman Murders. Denton, TX: University of North Texas Press, 1997.