Atividade Prática 2
Simulação de uma revisão integrativa, da pergunta à síntese
Objetivos da atividade
Nesta atividade, os grupos vão executar, em pequena escala, as seis etapas de uma revisão integrativa (Mendes; Silveira; Galvão, 2008; Souza; Silva; Carvalho, 2010). Ao final, espera-se que o estudante seja capaz de:
- Formular uma pergunta norteadora estruturada (PICO, PO ou PICo);
- Construir e documentar uma estratégia de busca reprodutível;
- Aplicar critérios de inclusão e exclusão e registrar a seleção em um fluxograma;
- Extrair dados de estudos com diferentes delineamentos em uma matriz de síntese (planilha);
- Classificar o nível de evidência e analisar criticamente os estudos incluídos;
- Integrar os achados em categorias temáticas e redigir uma síntese crítica.
Descrição geral da atividade
Os estudantes, organizados em grupos de 4 a 5 participantes, realizarão uma revisão integrativa simulada: todas as etapas são feitas de verdade, mas a análise detalhada fica restrita a 4 ou 5 artigos — de preferência, um artigo por integrante.
📌 Tema: cada grupo escolhe um dos cenários propostos. O foco indicado em cada cenário é o ponto de partida para a pergunta norteadora.
📥 Planilha-modelo: baixe na página Materiais para download. Ela tem uma aba para cada etapa e calcula sozinha os números do fluxograma.
É uma simplificação didática. Em uma revisão integrativa real, todos os estudos que atendem aos critérios de elegibilidade entram na análise — muitas vezes, dezenas. Aqui, o objetivo é aprender o processo, e não esgotar o tema. Por isso, o relatório do grupo deve deixar claro que se trata de uma simulação e o fluxograma deve mostrar em que ponto a amostra foi reduzida.
- Inclua pelo menos dois delineamentos diferentes (por exemplo, um ensaio clínico e um estudo observacional). Integrar delineamentos é a marca da revisão integrativa; com apenas ensaios clínicos, o trabalho vira uma pequena revisão sistemática.
- Se a literatura permitir, inclua pelo menos um estudo qualitativo.
- Use apenas artigos com texto completo acessível (SciELO, PubMed Central, periódicos de acesso aberto ou o acervo da biblioteca da instituição).
- Escolha os artigos pela pergunta e pelos critérios de elegibilidade, nunca pelo resultado que “combina” com o que o grupo espera encontrar.
Etapa 1 — Pergunta norteadora
A pergunta norteadora é a etapa mais importante da revisão, porque determina quais estudos serão incluídos e quais informações serão extraídas de cada um (Souza; Silva; Carvalho, 2010).
O que fazer:
- Defina o tema e o objetivo da revisão;
- Escolha o acrônimo adequado ao tipo de pergunta (veja Acrônimos PICO, PICo, PICOT):
- PICO / PICOT — eficácia ou segurança de intervenções;
- PO — perguntas descritivas (prevalência, frequência, perfil);
- PICo — experiências e significados (estudos qualitativos);
- Redija a pergunta de forma clara e específica.
Exemplo (Cenário 10 da página de cenários):
Quais são as evidências sobre a eficácia, a segurança e a experiência de uso de diferentes classes de psicofármacos no tratamento da insônia em idosos?
| Elemento | Conteúdo |
|---|---|
| P | Idosos (≥ 60 anos) com insônia |
| I | Psicofármacos: benzodiazepínicos, Z-drugs, antidepressivos sedativos, melatonina |
| C | Outras classes de psicofármacos ou placebo |
| O | Eficácia sobre o sono, eventos adversos (quedas, dependência) e experiência de uso relatada pelos idosos |
Etapa 2 — Busca e seleção dos estudos
2.1 Critérios de elegibilidade
Defina os critérios antes de iniciar a busca. Eles devem decorrer da pergunta:
- População: quem pode (e quem não pode) estar nos estudos;
- Tipos de estudo: quais delineamentos serão aceitos;
- Período e idioma: por exemplo, últimos 10 anos; português, inglês e espanhol;
- Desfechos ou fenômenos de interesse: o que o estudo precisa ter investigado.
2.2 Estratégia de busca
- Pesquise em pelo menos duas bases, por exemplo PubMed / MEDLINE, BVS / LILACS e SciELO;
- Combine descritores controlados (MeSH no PubMed; DeCS na BVS) com sinônimos em texto livre;
- Use OR dentro de cada bloco de sinônimos e AND entre os blocos.
2.3 Registro da busca
Registre cada busca em uma tabela. Esse registro é o que torna a busca reprodutível:
| Base | Data da busca | Estratégia completa | Filtros aplicados | Registros encontrados |
|---|---|---|---|---|
| PubMed | dd/mm/aaaa | (copiar a estratégia exata) | ex.: 2016–2026; humanos | n = ___ |
| BVS | dd/mm/aaaa | (copiar a estratégia exata) | ex.: português, inglês, espanhol | n = ___ |
2.4 Seleção
- Remova as duplicatas encontradas em mais de uma base;
- Faça a triagem por título e resumo, aplicando os critérios de elegibilidade. A seleção deve ser feita, de preferência, por dois integrantes de forma independente, com as divergências resolvidas por consenso (Mendes; Silveira; Galvão, 2008);
- Leia o texto completo dos estudos que passaram na triagem e registre o motivo de cada exclusão;
- Entre os estudos elegíveis, escolha os 4 ou 5 que farão parte da simulação, seguindo as orientações do quadro “Como escolher os 4 ou 5 artigos”.
Para manter a atividade viável, o grupo pode triar apenas os primeiros 50 registros de cada base (ordenados por relevância). Essa decisão deve ser registrada no método e citada como limitação no relatório.
2.5 Fluxograma
Represente a seleção em um fluxograma adaptado do PRISMA 2020 (Page et al., 2021):
- Registros identificados em cada base (n);
- Duplicatas removidas (n);
- Registros triados por título e resumo (n) → excluídos (n);
- Textos completos avaliados (n) → excluídos, com os motivos (n);
- Estudos elegíveis (n);
- Estudos selecionados para esta simulação (n = 4 ou 5).
Etapa 3 — Coleta de dados: a matriz de síntese
Nesta etapa, o grupo extrai as mesmas informações de todos os estudos usando um instrumento elaborado antes da leitura. O instrumento serve para garantir que todos os dados relevantes sejam extraídos, reduzir erros de transcrição e funcionar como registro do processo (Souza; Silva; Carvalho, 2010). Na prática, ele é uma planilha (Excel ou Google Planilhas) com uma linha por estudo — a aba 3 Matriz de síntese da planilha-modelo já traz essas colunas.
Como dividir o trabalho: cada integrante extrai os dados do seu artigo; em seguida, outro integrante confere a extração, comparando a planilha com o texto original.
Colunas da planilha
| Coluna | O que registrar |
|---|---|
| ID | Código do estudo (E1, E2, E3…) |
| Referência | Autores, ano e periódico |
| País | Onde o estudo foi realizado |
| Objetivo | Objetivo ou pergunta do estudo |
| Delineamento | Ensaio clínico, coorte, caso-controle, transversal, qualitativo, revisão… |
| Participantes | Quem foi estudado, quantos e onde |
| Intervenção ou fenômeno | O que foi testado, medido ou explorado |
| Desfechos ou variáveis | O que foi medido e com qual instrumento |
| Principais resultados | Achados centrais, com números quando houver (efeito, intervalo de confiança, valor de p) |
| Conclusão dos autores | O que os autores concluem |
| Limitações | As apontadas pelos autores e as percebidas pelo grupo |
| Nível de evidência | Preenchido na Etapa 4 |
| Rigor metodológico | Preenchido na Etapa 4 |
| Categoria temática | Preenchida na Etapa 5 |
Exemplo de uma linha
| ID | Referência | Delineamento | Participantes | Intervenção | Principais resultados | Nível |
|---|---|---|---|---|---|---|
| E1 | Autor A et al., 2021 | Ensaio clínico randomizado | 120 idosos atendidos em ambulatório | Melatonina × placebo, por 8 semanas | Menor latência do sono no grupo melatonina; sem diferença em quedas | II |
Nota: linha ilustrativa, com dados fictícios. Na planilha real, preencha todas as colunas.
Teste a planilha com um artigo antes de distribuir os demais. Se alguma coluna ficar sempre vazia ou confusa, ajuste o instrumento antes de continuar.
Etapa 4 — Análise crítica dos estudos incluídos
Esta etapa corresponde à análise de dados de uma pesquisa convencional: cada estudo é examinado em detalhe, procurando explicações para resultados diferentes ou conflitantes (Mendes; Silveira; Galvão, 2008).
4.1 Nível de evidência
Classifique cada estudo segundo a hierarquia de evidências de Melnyk e Fineout-Overholt (2005), reproduzida por Dantas et al. (2022):
| Nível | Tipo de evidência |
|---|---|
| I | Revisão sistemática ou metanálise de ensaios clínicos randomizados; diretrizes clínicas baseadas nessas revisões |
| II | Pelo menos um ensaio clínico randomizado controlado bem delineado |
| III | Pelo menos um ensaio clínico bem delineado, não randomizado |
| IV | Estudos de coorte e de caso-controle |
| V | Revisão sistemática de estudos descritivos ou qualitativos |
| VI | Um único estudo descritivo ou qualitativo |
| VII | Opinião de especialistas ou relatório de comitês de especialistas |
Outras classificações também podem ser usadas, como a hierarquia de seis níveis apresentada por Souza; Silva; Carvalho (2010) e a do Centro de Medicina Baseada em Evidências de Oxford (Dantas et al., 2022). O importante é declarar qual foi adotada.
4.2 Rigor metodológico
Para cada estudo, responda de forma breve, com base no próprio texto do artigo (Mendes; Silveira; Galvão, 2008; Souza; Silva; Carvalho, 2010):
- A pergunta ou o objetivo do estudo está claro?
- O delineamento é adequado para responder a essa pergunta?
- Os participantes e os critérios de inclusão e exclusão estão descritos?
- Os resultados respondem ao objetivo e as conclusões são justificadas pelos resultados?
- Os autores reconhecem limitações e possíveis vieses?
Na revisão integrativa, a avaliação da qualidade serve para qualificar a síntese, e não para eliminar estudos: a recomendação é manter os estudos e verificar se a metodologia influencia os resultados (Mendes; Silveira; Galvão, 2008). Registre o nível de evidência e o rigor na planilha e leve-os em conta na discussão.
Etapa 5 — Discussão: das linhas às categorias
Aqui acontece a integração. A análise segue a lógica proposta por Whittemore; Knafl (2005): reduzir os dados (a planilha), organizá-los em quadros, compará-los e só então tirar conclusões, sempre voltando aos artigos para verificar.
O que fazer:
- Leia a planilha por colunas, e não por linhas. Compare o que cada estudo diz sobre o mesmo aspecto;
- Agrupe os achados em 2 ou 3 categorias temáticas. Uma boa categoria, de preferência, reúne estudos de delineamentos diferentes;
- Para cada categoria, descreva:
- o que os estudos mostram;
- onde concordam e onde divergem — e por quê (população, delineamento, contexto);
- qual é a força da evidência (níveis da Etapa 4);
- Identifique lacunas do conhecimento e implicações para a prática.
Exemplo de quadro de categorias
| Categoria | Estudos | Delineamentos | O que os estudos mostram em conjunto |
|---|---|---|---|
| Eficácia sobre o sono | E1, E4 | Ensaio clínico; revisão sistemática | … |
| Segurança: quedas e dependência | E2, E5 | Coorte; transversal | … |
| Experiência do idoso com o tratamento | E3 | Qualitativo | … |
Nota: modelo ilustrativo, a partir do exemplo da insônia em idosos.
A discussão não é um resumo de cada artigo, um após o outro. O valor da síntese está em articular os estudos em torno das categorias (veja o exemplo de boa e má articulação no capítulo Revisão Narrativa).
Etapa 6 — Apresentação da revisão
A apresentação deve ser clara e completa, para permitir que o leitor avalie criticamente os resultados (Souza; Silva; Carvalho, 2010). O relatório do grupo deve conter:
- Título — indicando que se trata de uma revisão integrativa (simulação);
- Introdução — justificativa do tema e pergunta norteadora;
- Método — as Etapas 1 a 4: critérios, bases, estratégias, registro da busca, processo de seleção e classificação adotada;
- Resultados — fluxograma, quadro-síntese dos estudos (versão resumida da planilha) e quadro de categorias;
- Discussão — síntese por categorias, lacunas e implicações para a prática;
- Limitações — incluindo o fato de ser uma simulação com amostra reduzida;
- Referências — todos os estudos citados, em formato padronizado.
O que entregar
Critérios de avaliação (sugestão)
| Critério | O que se espera |
|---|---|
| Pergunta | Clara, delimitada e estruturada com o acrônimo adequado |
| Busca | Duas ou mais bases, descritores e sinônimos, registro completo e reprodutível |
| Seleção | Critérios definidos antes da busca, exclusões justificadas, fluxograma coerente |
| Matriz de síntese | Colunas completas, dados fiéis aos artigos, conferência por outro integrante |
| Análise crítica | Nível de evidência correto e rigor avaliado com base no texto dos artigos |
| Síntese | Categorias que integram estudos diferentes; convergências, divergências e lacunas discutidas |
| Apresentação | Relatório completo, organizado e com as limitações reconhecidas |
Erros comuns
- Escolher apenas ensaios clínicos — o trabalho deixa de ser integrativo;
- Não registrar a data, a estratégia e o número de registros de cada busca;
- Excluir estudos pela qualidade sem relatar essa decisão;
- Resumir artigo por artigo, sem integração entre eles;
- Tirar conclusões que vão além do que 4 ou 5 estudos permitem afirmar.
Leituras de apoio
- Mendes; Silveira; Galvão (2008) — Revisão integrativa: método de pesquisa para a incorporação de evidências na saúde e na enfermagem
- Souza; Silva; Carvalho (2010) — Revisão integrativa: o que é e como fazer
- Whittemore; Knafl (2005) — The integrative review: updated methodology
- Dantas et al. (2022) — Como elaborar uma revisão integrativa: sistematização do método científico
- Younas; Ali (2021) — Five tips for developing useful literature summary tables for writing review articles
Considerações finais
Esta atividade completa a anterior: na Atividade 1, o estudante avalia uma revisão publicada; nesta, planeja e executa — em pequena escala — todas as etapas de uma revisão integrativa.
Mais do que o resultado sobre o tema, o que se avalia é o processo: a pergunta bem formulada, a busca documentada, a seleção transparente, a extração cuidadosa e, principalmente, a capacidade de integrar estudos diferentes em uma síntese crítica.