Atividade Prática 2

Simulação de uma revisão integrativa, da pergunta à síntese

Autor
Afiliação

Henrique Alvarenga da Silva

Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)

Objetivos da atividade

Nesta atividade, os grupos vão executar, em pequena escala, as seis etapas de uma revisão integrativa (Mendes; Silveira; Galvão, 2008; Souza; Silva; Carvalho, 2010). Ao final, espera-se que o estudante seja capaz de:

  • Formular uma pergunta norteadora estruturada (PICO, PO ou PICo);
  • Construir e documentar uma estratégia de busca reprodutível;
  • Aplicar critérios de inclusão e exclusão e registrar a seleção em um fluxograma;
  • Extrair dados de estudos com diferentes delineamentos em uma matriz de síntese (planilha);
  • Classificar o nível de evidência e analisar criticamente os estudos incluídos;
  • Integrar os achados em categorias temáticas e redigir uma síntese crítica.

Descrição geral da atividade

Os estudantes, organizados em grupos de 4 a 5 participantes, realizarão uma revisão integrativa simulada: todas as etapas são feitas de verdade, mas a análise detalhada fica restrita a 4 ou 5 artigos — de preferência, um artigo por integrante.

📌 Tema: cada grupo escolhe um dos cenários propostos. O foco indicado em cada cenário é o ponto de partida para a pergunta norteadora.

📥 Planilha-modelo: baixe na página Materiais para download. Ela tem uma aba para cada etapa e calcula sozinha os números do fluxograma.

ImportantePor que só 4 ou 5 artigos?

É uma simplificação didática. Em uma revisão integrativa real, todos os estudos que atendem aos critérios de elegibilidade entram na análise — muitas vezes, dezenas. Aqui, o objetivo é aprender o processo, e não esgotar o tema. Por isso, o relatório do grupo deve deixar claro que se trata de uma simulação e o fluxograma deve mostrar em que ponto a amostra foi reduzida.

DicaComo escolher os 4 ou 5 artigos
  • Inclua pelo menos dois delineamentos diferentes (por exemplo, um ensaio clínico e um estudo observacional). Integrar delineamentos é a marca da revisão integrativa; com apenas ensaios clínicos, o trabalho vira uma pequena revisão sistemática.
  • Se a literatura permitir, inclua pelo menos um estudo qualitativo.
  • Use apenas artigos com texto completo acessível (SciELO, PubMed Central, periódicos de acesso aberto ou o acervo da biblioteca da instituição).
  • Escolha os artigos pela pergunta e pelos critérios de elegibilidade, nunca pelo resultado que “combina” com o que o grupo espera encontrar.

Etapa 1 — Pergunta norteadora

A pergunta norteadora é a etapa mais importante da revisão, porque determina quais estudos serão incluídos e quais informações serão extraídas de cada um (Souza; Silva; Carvalho, 2010).

O que fazer:

  1. Defina o tema e o objetivo da revisão;
  2. Escolha o acrônimo adequado ao tipo de pergunta (veja Acrônimos PICO, PICo, PICOT):
    • PICO / PICOT — eficácia ou segurança de intervenções;
    • PO — perguntas descritivas (prevalência, frequência, perfil);
    • PICo — experiências e significados (estudos qualitativos);
  3. Redija a pergunta de forma clara e específica.

Exemplo (Cenário 10 da página de cenários):

Quais são as evidências sobre a eficácia, a segurança e a experiência de uso de diferentes classes de psicofármacos no tratamento da insônia em idosos?

Elemento Conteúdo
P Idosos (≥ 60 anos) com insônia
I Psicofármacos: benzodiazepínicos, Z-drugs, antidepressivos sedativos, melatonina
C Outras classes de psicofármacos ou placebo
O Eficácia sobre o sono, eventos adversos (quedas, dependência) e experiência de uso relatada pelos idosos

Etapa 2 — Busca e seleção dos estudos

2.1 Critérios de elegibilidade

Defina os critérios antes de iniciar a busca. Eles devem decorrer da pergunta:

  • População: quem pode (e quem não pode) estar nos estudos;
  • Tipos de estudo: quais delineamentos serão aceitos;
  • Período e idioma: por exemplo, últimos 10 anos; português, inglês e espanhol;
  • Desfechos ou fenômenos de interesse: o que o estudo precisa ter investigado.

2.2 Estratégia de busca

  • Pesquise em pelo menos duas bases, por exemplo PubMed / MEDLINE, BVS / LILACS e SciELO;
  • Combine descritores controlados (MeSH no PubMed; DeCS na BVS) com sinônimos em texto livre;
  • Use OR dentro de cada bloco de sinônimos e AND entre os blocos.

2.3 Registro da busca

Registre cada busca em uma tabela. Esse registro é o que torna a busca reprodutível:

Base Data da busca Estratégia completa Filtros aplicados Registros encontrados
PubMed dd/mm/aaaa (copiar a estratégia exata) ex.: 2016–2026; humanos n = ___
BVS dd/mm/aaaa (copiar a estratégia exata) ex.: português, inglês, espanhol n = ___

2.4 Seleção

  1. Remova as duplicatas encontradas em mais de uma base;
  2. Faça a triagem por título e resumo, aplicando os critérios de elegibilidade. A seleção deve ser feita, de preferência, por dois integrantes de forma independente, com as divergências resolvidas por consenso (Mendes; Silveira; Galvão, 2008);
  3. Leia o texto completo dos estudos que passaram na triagem e registre o motivo de cada exclusão;
  4. Entre os estudos elegíveis, escolha os 4 ou 5 que farão parte da simulação, seguindo as orientações do quadro “Como escolher os 4 ou 5 artigos”.
NotaSe a busca retornar centenas de registros

Para manter a atividade viável, o grupo pode triar apenas os primeiros 50 registros de cada base (ordenados por relevância). Essa decisão deve ser registrada no método e citada como limitação no relatório.

2.5 Fluxograma

Represente a seleção em um fluxograma adaptado do PRISMA 2020 (Page et al., 2021):

  • Registros identificados em cada base (n);
  • Duplicatas removidas (n);
  • Registros triados por título e resumo (n) → excluídos (n);
  • Textos completos avaliados (n) → excluídos, com os motivos (n);
  • Estudos elegíveis (n);
  • Estudos selecionados para esta simulação (n = 4 ou 5).

Etapa 3 — Coleta de dados: a matriz de síntese

Nesta etapa, o grupo extrai as mesmas informações de todos os estudos usando um instrumento elaborado antes da leitura. O instrumento serve para garantir que todos os dados relevantes sejam extraídos, reduzir erros de transcrição e funcionar como registro do processo (Souza; Silva; Carvalho, 2010). Na prática, ele é uma planilha (Excel ou Google Planilhas) com uma linha por estudo — a aba 3 Matriz de síntese da planilha-modelo já traz essas colunas.

Como dividir o trabalho: cada integrante extrai os dados do seu artigo; em seguida, outro integrante confere a extração, comparando a planilha com o texto original.

Colunas da planilha

Coluna O que registrar
ID Código do estudo (E1, E2, E3…)
Referência Autores, ano e periódico
País Onde o estudo foi realizado
Objetivo Objetivo ou pergunta do estudo
Delineamento Ensaio clínico, coorte, caso-controle, transversal, qualitativo, revisão…
Participantes Quem foi estudado, quantos e onde
Intervenção ou fenômeno O que foi testado, medido ou explorado
Desfechos ou variáveis O que foi medido e com qual instrumento
Principais resultados Achados centrais, com números quando houver (efeito, intervalo de confiança, valor de p)
Conclusão dos autores O que os autores concluem
Limitações As apontadas pelos autores e as percebidas pelo grupo
Nível de evidência Preenchido na Etapa 4
Rigor metodológico Preenchido na Etapa 4
Categoria temática Preenchida na Etapa 5

Exemplo de uma linha

ID Referência Delineamento Participantes Intervenção Principais resultados Nível
E1 Autor A et al., 2021 Ensaio clínico randomizado 120 idosos atendidos em ambulatório Melatonina × placebo, por 8 semanas Menor latência do sono no grupo melatonina; sem diferença em quedas II

Nota: linha ilustrativa, com dados fictícios. Na planilha real, preencha todas as colunas.

DicaDica prática

Teste a planilha com um artigo antes de distribuir os demais. Se alguma coluna ficar sempre vazia ou confusa, ajuste o instrumento antes de continuar.


Etapa 4 — Análise crítica dos estudos incluídos

Esta etapa corresponde à análise de dados de uma pesquisa convencional: cada estudo é examinado em detalhe, procurando explicações para resultados diferentes ou conflitantes (Mendes; Silveira; Galvão, 2008).

4.1 Nível de evidência

Classifique cada estudo segundo a hierarquia de evidências de Melnyk e Fineout-Overholt (2005), reproduzida por Dantas et al. (2022):

Nível Tipo de evidência
I Revisão sistemática ou metanálise de ensaios clínicos randomizados; diretrizes clínicas baseadas nessas revisões
II Pelo menos um ensaio clínico randomizado controlado bem delineado
III Pelo menos um ensaio clínico bem delineado, não randomizado
IV Estudos de coorte e de caso-controle
V Revisão sistemática de estudos descritivos ou qualitativos
VI Um único estudo descritivo ou qualitativo
VII Opinião de especialistas ou relatório de comitês de especialistas

Outras classificações também podem ser usadas, como a hierarquia de seis níveis apresentada por Souza; Silva; Carvalho (2010) e a do Centro de Medicina Baseada em Evidências de Oxford (Dantas et al., 2022). O importante é declarar qual foi adotada.

4.2 Rigor metodológico

Para cada estudo, responda de forma breve, com base no próprio texto do artigo (Mendes; Silveira; Galvão, 2008; Souza; Silva; Carvalho, 2010):

  1. A pergunta ou o objetivo do estudo está claro?
  2. O delineamento é adequado para responder a essa pergunta?
  3. Os participantes e os critérios de inclusão e exclusão estão descritos?
  4. Os resultados respondem ao objetivo e as conclusões são justificadas pelos resultados?
  5. Os autores reconhecem limitações e possíveis vieses?
AvisoNão exclua estudos pela qualidade

Na revisão integrativa, a avaliação da qualidade serve para qualificar a síntese, e não para eliminar estudos: a recomendação é manter os estudos e verificar se a metodologia influencia os resultados (Mendes; Silveira; Galvão, 2008). Registre o nível de evidência e o rigor na planilha e leve-os em conta na discussão.


Etapa 5 — Discussão: das linhas às categorias

Aqui acontece a integração. A análise segue a lógica proposta por Whittemore; Knafl (2005): reduzir os dados (a planilha), organizá-los em quadros, compará-los e só então tirar conclusões, sempre voltando aos artigos para verificar.

O que fazer:

  1. Leia a planilha por colunas, e não por linhas. Compare o que cada estudo diz sobre o mesmo aspecto;
  2. Agrupe os achados em 2 ou 3 categorias temáticas. Uma boa categoria, de preferência, reúne estudos de delineamentos diferentes;
  3. Para cada categoria, descreva:
    • o que os estudos mostram;
    • onde concordam e onde divergem — e por quê (população, delineamento, contexto);
    • qual é a força da evidência (níveis da Etapa 4);
  4. Identifique lacunas do conhecimento e implicações para a prática.

Exemplo de quadro de categorias

Categoria Estudos Delineamentos O que os estudos mostram em conjunto
Eficácia sobre o sono E1, E4 Ensaio clínico; revisão sistemática …
Segurança: quedas e dependência E2, E5 Coorte; transversal …
Experiência do idoso com o tratamento E3 Qualitativo …

Nota: modelo ilustrativo, a partir do exemplo da insônia em idosos.

ImportanteEvite a “colcha de retalhos”

A discussão não é um resumo de cada artigo, um após o outro. O valor da síntese está em articular os estudos em torno das categorias (veja o exemplo de boa e má articulação no capítulo Revisão Narrativa).


Etapa 6 — Apresentação da revisão

A apresentação deve ser clara e completa, para permitir que o leitor avalie criticamente os resultados (Souza; Silva; Carvalho, 2010). O relatório do grupo deve conter:

  1. Título — indicando que se trata de uma revisão integrativa (simulação);
  2. Introdução — justificativa do tema e pergunta norteadora;
  3. Método — as Etapas 1 a 4: critérios, bases, estratégias, registro da busca, processo de seleção e classificação adotada;
  4. Resultados — fluxograma, quadro-síntese dos estudos (versão resumida da planilha) e quadro de categorias;
  5. Discussão — síntese por categorias, lacunas e implicações para a prática;
  6. Limitações — incluindo o fato de ser uma simulação com amostra reduzida;
  7. Referências — todos os estudos citados, em formato padronizado.

O que entregar


Critérios de avaliação (sugestão)

Critério O que se espera
Pergunta Clara, delimitada e estruturada com o acrônimo adequado
Busca Duas ou mais bases, descritores e sinônimos, registro completo e reprodutível
Seleção Critérios definidos antes da busca, exclusões justificadas, fluxograma coerente
Matriz de síntese Colunas completas, dados fiéis aos artigos, conferência por outro integrante
Análise crítica Nível de evidência correto e rigor avaliado com base no texto dos artigos
Síntese Categorias que integram estudos diferentes; convergências, divergências e lacunas discutidas
Apresentação Relatório completo, organizado e com as limitações reconhecidas

Erros comuns

  • Escolher apenas ensaios clínicos — o trabalho deixa de ser integrativo;
  • Não registrar a data, a estratégia e o número de registros de cada busca;
  • Excluir estudos pela qualidade sem relatar essa decisão;
  • Resumir artigo por artigo, sem integração entre eles;
  • Tirar conclusões que vão além do que 4 ou 5 estudos permitem afirmar.

Leituras de apoio

  • Mendes; Silveira; Galvão (2008) — Revisão integrativa: método de pesquisa para a incorporação de evidências na saúde e na enfermagem
  • Souza; Silva; Carvalho (2010) — Revisão integrativa: o que é e como fazer
  • Whittemore; Knafl (2005) — The integrative review: updated methodology
  • Dantas et al. (2022) — Como elaborar uma revisão integrativa: sistematização do método científico
  • Younas; Ali (2021) — Five tips for developing useful literature summary tables for writing review articles

Considerações finais

Esta atividade completa a anterior: na Atividade 1, o estudante avalia uma revisão publicada; nesta, planeja e executa — em pequena escala — todas as etapas de uma revisão integrativa.

Mais do que o resultado sobre o tema, o que se avalia é o processo: a pergunta bem formulada, a busca documentada, a seleção transparente, a extração cuidadosa e, principalmente, a capacidade de integrar estudos diferentes em uma síntese crítica.

Referências

DANTAS, Hallana Laisa de Lima et al. Como elaborar uma revisão integrativa: sistematização do método científico. Revista Recien - Revista Científica de Enfermagem, [s. l.], v. 12, n. 37, p. 334–345, 2022.
MENDES, Karina Dal Sasso; SILVEIRA, Renata Cristina de Campos Pereira; GALVÃO, Cristina Maria. Revisão integrativa: método de pesquisa para a incorporação de evidências na saúde e na enfermagem. Texto & Contexto - Enfermagem, [s. l.], v. 17, n. 4, p. 758–764, 2008.
PAGE, Matthew J. et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ, [s. l.], v. 372, p. n71, 2021.
SOUZA, Marcela Tavares de; SILVA, Michelly Dias da; CARVALHO, Rachel de. Revisão integrativa: o que é e como fazer. Einstein, [s. l.], v. 8, n. 1, p. 102–106, 2010.
WHITTEMORE, Robin; KNAFL, Kathleen. The integrative review: updated methodology. Journal of Advanced Nursing, [s. l.], v. 52, n. 5, p. 546–553, 2005.
YOUNAS, Ahtisham; ALI, Parveen. Five tips for developing useful literature summary tables for writing review articles. Evidence-Based Nursing, [s. l.], v. 24, n. 2, p. 32–34, 2021. Disponível em: https://ebn.bmj.com/content/24/2/32.