Quarto como artefato científico

Módulo 3 · Reprodutibilidade

Você publica um artigo em revista de alto impacto. O artigo tem dez páginas. Por trás dele há: dezenas de páginas de notas e exploração; um ambiente computacional com versões específicas; dados brutos e dados limpos; vinte scripts que vão de extração à análise final; cinco figuras finais e dezenas de figuras descartadas; tabelas formatadas para artigo e tabelas exploratórias; um histórico de decisões metodológicas que ficou na cabeça dos autores. Tudo isso desaparece quando o artigo é publicado — só sobram dez páginas em PDF.

Esse é o problema que o conceito de research compendium (compêndio de pesquisa) pretende resolver. Em vez de o artigo ser o único artefato publicado, o compêndio reúne tudo — dados, código, ambiente, prosa — num pacote único, navegável, e reproduzível. Quem lê o artigo pode descer ao compêndio para verificar análises, refazer cálculos, modificar parâmetros e ver como mudam.

Quarto é, hoje, a ferramenta mais natural para construir compêndios desse tipo em pesquisa em saúde. Este capítulo explica por quê e mostra como.

A ideia: research compendium

O termo research compendium foi popularizado por Ben Marwick (arqueólogo e cientista de dados na University of Washington) num par de papers seminais em 2017 e 2018 (Marwick, 2017; Marwick; Boettiger; Mullen, 2018). A definição:

Um research compendium é uma forma de organizar arquivos de pesquisa que combina dados, código, e prosa textual em uma única estrutura coerente, idealmente versionada e reproduzível, que pode acompanhar um artigo científico como artefato publicável.

Os princípios centrais:

  1. Tudo num só lugar — não dados num servidor, código no email, manuscrito no Word. Tudo num repositório Git.
  2. Estrutura previsível — pasta data/, analysis/, manuscript/, figures/. Quem clona consegue se orientar.
  3. Reprodutível — qualquer pessoa pode rodar do início ao fim e chegar nos mesmos resultados.
  4. Citável — tem um identificador persistente (DOI), pode ser referenciado em artigos.

Esse modelo nasceu na arqueologia computacional mas se espalhou para epidemiologia, ecologia, psicologia, e — crescentemente — pesquisa em saúde. Revistas como o American Journal of Epidemiology, BMC Medical Research Methodology, e Lancet Digital Health hoje recomendam ou exigem compêndios.

Por que Quarto é particularmente adequado

Quarto não foi criado especificamente para compêndios — foi criado como sucessor do R Markdown, sistema de publicação científica reproduzível. Mas as características que definem Quarto fazem dele a ferramenta natural para compêndios:

1. Combina texto, código e saída no mesmo arquivo. Capítulo M3-B1-02 estabeleceu isso. O .qmd mistura prosa Markdown com chunks {r} ou {python} que executam de verdade. Isso elimina a separação tradicional entre “manuscrito” e “análise” — eles vivem juntos.

2. Múltiplos formatos de saída do mesmo source. O mesmo .qmd gera HTML (compêndio web), PDF (manuscrito para revista), DOCX (revisão com coautor que só usa Word), e site Quarto inteiro (com várias páginas). Você não escreve quatro versões da análise.

3. Integração nativa com Git e GitHub. Quarto + GitHub Pages (capítulo M4-B1-06) é o caminho menos-frição para publicar um compêndio na web. Atualizações no compêndio são automáticas.

4. Aceita R, Python, e mistura dos dois (M3-B3-13). Compêndios de bioinformática moderna frequentemente precisam de ambas — Python para deep learning, R para estatística clássica. Quarto não força escolha.

5. Sistema de citações nativo. Capítulo M3-B1-03 tratou — o Quarto integra .bib e .csl para gerar bibliografia formatada. Compêndio fica completo, com referências bibliográficas inline.

6. Sistema de freeze e cache. Capítulo M3-B3-13 cobriu — análises pesadas não precisam re-rodar a cada render. Compêndios grandes ficam práticos de manter.

Anatomia de um compêndio Quarto

A estrutura típica que combina os princípios de Marwick com a infraestrutura Quarto:

artigo-coorte-2026/
├── README.md                      ← orientação inicial pra quem chega
├── _quarto.yml                    ← configuração do site Quarto
├── manuscrito.qmd                 ← o "artigo" propriamente — texto + análise embutida
├── DESCRIPTION                    ← (opcional) descreve o projeto como pacote
├── LICENSE                        ← licença explícita (CC BY 4.0, MIT, etc.)
├── CITATION.cff                   ← arquivo padrão para citação (cap. 05)
├── renv.lock                      ← lockfile R (M3-B3-04)
├── .github/workflows/             ← GitHub Action que renderiza o site (M4-B1-06)
├── data/
│   ├── raw/                       ← dados brutos (intocáveis)
│   └── processed/                 ← dados limpos (gerados por scripts/)
├── R/                             ← funções reusáveis
├── analysis/
│   ├── 01-limpeza.qmd             ← cada etapa em um .qmd
│   ├── 02-descritiva.qmd
│   ├── 03-modelagem.qmd
│   └── 04-figuras.qmd
├── manuscript/
│   ├── manuscrito.qmd             ← texto formal pra submissão (versão pdf)
│   └── referencias.bib
├── figures/                       ← figuras finais geradas automaticamente
├── tables/                        ← tabelas finais geradas automaticamente
└── docs/                          ← site Quarto renderizado (publicado via GitHub Pages)

Não há regra rígida — variações são livres. O importante é que o leitor chegando no repositório consiga se orientar em segundos e refazer a análise em minutos.

Padrões que automatizam essa estrutura

Se você quer começar com um esqueleto que já segue convenções estabelecidas, há ferramentas que geram a estrutura inicial:

rrtools (R) — pacote do Marwick que cria estrutura de compêndio em R. Gera DESCRIPTION, README, .Rprofile, estrutura de pastas, integração com renv e Docker. Comando único cria projeto pronto.

workflowr (R) — alternativa popular, particularmente em genômica. Foco em geração automática de site web e versionamento via Git.

Quarto Project Templatesquarto create-project nome --template manuscript gera projeto com estrutura adequada para artigo + análise embutida.

Não importa qual ferramenta você escolhe — o importante é começar com estrutura coerente em vez de improvisar.

DicaComece simples

Não tente o compêndio “perfeito” no primeiro projeto. Comece com:

  1. Repositório Git com data/, scripts/, output/, manuscrito.qmd.
  2. renv.lock commitado.
  3. README explicando como rodar.

Esse mínimo já cumpre 80% do valor de um compêndio. Ferramentas como rrtools ajudam mas adicionam complexidade — vale aprender depois que a prática básica estiver enraizada.

A relação com o artigo publicado

Modelo recomendado em 2026:

  1. Compêndio no GitHub — repositório completo, com tudo (dados, código, ambiente, manuscrito).
  2. Site Quarto via GitHub Pages — versão navegável do compêndio, acessível por URL.
  3. Versão arquivada no Zenodosnapshot do compêndio no momento da publicação, com DOI permanente (capítulos 04 e 05 deste Bloco).
  4. Artigo na revista — com o DOI do compêndio citado no manuscrito.

A combinação garante que daqui a 20 anos:

  • O artigo está preservado (revista cuida disso).
  • O compêndio está preservado (Zenodo cuida disso, com garantia de longo prazo via CERN).
  • A versão “viva” continua acessível (GitHub Pages, atualizável).

Pesquisador externo lendo o artigo segue o link, chega no compêndio Zenodo (versão estável), navega, refaz análise. Nada se perde no tempo.

Compêndios em pesquisa em saúde

Casos típicos onde o modelo de compêndio é especialmente valioso:

Estudos observacionais com cohort grande, múltiplas análises, e necessidade de revisores/auditores conseguirem refazer cada cálculo.

Ensaios clínicos com análise estatística pré-registrada — o compêndio inclui SAP (Statistical Analysis Plan), dados anonimizados, e código que reproduz cada figura.

Revisões sistemáticas e meta-análises — o compêndio inclui critério de busca, dados extraídos, código de meta-análise, gráficos forest, análise de sensibilidade. Compêndios são especialmente valorizados em meta-análises porque evitam o problema clássico de não conseguir refazer um cálculo do artigo original.

Estudos com algoritmos de IA aplicados a imagem médica/EHR — onde o algoritmo, o pré-processamento, e a avaliação precisam ser reproduzíveis para a comunidade verificar resultados.

AvisoDados sensíveis e compêndios

Compêndios em pesquisa médica frequentemente envolvem dados sensíveis (PHI, prontuários). A estratégia padrão:

  • Dados brutos não vão para o repositório público. Ficam em servidor institucional protegido. O compêndio público inclui apenas dados sintéticos ou agregados que reproduzem os principais resultados.
  • Código vai público integralmente. Mesmo sem dados, código permite replicar o método, e revisor pode verificar se o método é defensável.
  • DUA (Data Use Agreement) descreve como pesquisador externo pode obter dados originais, com aprovação de comitê.

Esse caminho é compatível com FAIR — não tudo aberto, mas tudo bem geridos e descritos.

Conexão com IA

Agentes ajudam em três frentes específicas em compêndios:

1. Estruturação inicial. “Crie a estrutura de compêndio para um artigo de coorte clínica em R + Quarto, com renv, GitHub Actions, e suporte a Docker.” — agente entrega esqueleto completo, com _quarto.yml, Dockerfile, README inicial, .gitignore apropriado.

2. Reformatação para revista específica. “Adapte este compêndio Quarto para o formato de submissão do New England Journal of Medicine.” — agente ajusta YAML, citação, formatação de tabelas/figuras.

3. Geração de README e CITATION.cff. Arquivos meta-textuais como README e CITATION.cff são tediosos de escrever. Agente lê o repositório, gera versão inicial coerente — você revisa.

O que vem a seguir

Compêndio é o “como organizar”. Mas ele só vira artefato científico de longo prazo quando depositado em repositório especializado que garante preservação por décadas e atribui identificador permanente. O próximo capítulo cobre exatamente isso: o Zenodo, o repositório do CERN para artefatos científicos.

04 · Zenodo

Referências

MARWICK, Ben. Computational Reproducibility in Archaeological Research: Basic Principles and a Case Study of Their Implementation. Journal of Archaeological Method and Theory, [s. l.], v. 24, p. 424–450, 2017.
MARWICK, Ben; BOETTIGER, Carl; MULLEN, Lincoln. Packaging Data Analytical Work Reproducibly Using R (and Friends). The American Statistician, [s. l.], v. 72, n. 1, p. 80–88, 2018.