Glossário
Os termos da semiologia da vontade, do impulso, da ação e do Eu
Um fenômeno, muitos nomes
Na psicopatologia ainda há muita inconsistência nos nomes. O que um autor chama de abulia, outro chama de perda da vontade ou perturbação da iniciativa; a vivência de influência aparece como experiência de passividade; o juízo crítico vira insight; e volição é simplesmente vontade. Parece confuso, mas é a mesma psicopatologia falada em línguas diferentes.
A razão é histórica. A semiologia da vontade e do Eu foi descrita, ao longo de um século, por escolas distintas: a fenomenologia alemã (Jaspers, Kurt Schneider, Scharfetter), a tradição francesa e a psicopatologia descritiva de língua inglesa (Fish, Sims, e mais tarde o DSM). Cada uma cunhou seu vocabulário para descrever os mesmos fenômenos. Vivência de influência (Beeinflussungserlebnis) e experiência de passividade são o mesmo sintoma de primeira ordem de Schneider — a fronteira do Eu se rompe e funções próprias são atribuídas a uma força externa. Volição e vontade são sinônimos; abulia, avolição e perturbação da iniciativa nomeiam a mesma coisa.
Na essência, a diferença é de nome, não de conceito. Cabe, porém, uma ressalva: nomear não é neutro. Cada tradição recorta o fenômeno com finura própria. O roteiro de exame que seguimos, herdeiro da escola alemã, separa com cuidado abulia (a vontade), anedonia (o prazer) e apatia (a ressonância afetiva); o Sims, mais pragmático, reconhece que, na clínica, “é difícil distinguir ausência de necessidade, impulso, motivação ou vontade”. O mesmo vale para insight: no uso inglês é um guarda-chuva mais largo — consciência de estar doente, reconhecimento dos sintomas como patológicos, adesão ao tratamento — do que o juízo crítico que se cobra sobre um sintoma isolado, ainda que, na compulsão, os dois coincidam, pois o paciente sabe que o ato é absurdo.
A lição prática é simples: o que importa é compreender o fenômeno, não decorar o jargão. O nome é uma etiqueta útil, mas convencional.
As definições seguem o Roteiro do Exame do Estado Mental do autor (baseado em Dalgalarrondo, 2019, e Kaplan & Sadock, 2017), condensadas. As âncoras remetem ao Sims — Sintomas da Mente (5ª ed.). Onde o nome do Sims difere do roteiro, ele vem indicado — pelo motivo explicado acima. O que se aprende não é o termo isolado, é a fronteira entre termos vizinhos: por isso cada grupo fecha com a fronteira em jogo.
Vontade e iniciativa (volição)
No Sims: cap. 18, Perturbações da Vontade e Execução.
- Hipobulia — diminuição da vontade e da iniciativa.
- Abulia — ausência de vontade; incapacidade de iniciar a ação, sem que haja bloqueio motor que a impeça (estimulado de fora, o sujeito age). No Sims: perda da vontade ou perturbação da iniciativa (Bleuler); também avolição.
- Hiperbulia — aumento patológico da vontade e da iniciativa.
- Ambivalência (ambitendência) volitiva — vontades opostas e simultâneas, que se anulam: quer e contraquer ao mesmo tempo, e a decisão trava. Bleuler a descreveu como traço fundamental da esquizofrenia, embora não seja exclusiva dela.
Fronteira. Abulia (não inicia a ação) × apatia (não se comove) × anedonia (não sente prazer). E a ambivalência trava a ação por conflito de vontades, não por ausência delas.
Afeto que se confunde com falta de vontade
No Sims: cap. 16, Alterações de Afeto e Emoções.
- Apatia — diminuição da excitabilidade emotiva; “não sinto nada”.
- Anedonia — incapacidade de sentir prazer.
- Embotamento afetivo — perda profunda das vivências afetivas.
- Sentimento de falta de sentimento — o sujeito percebe e sofre com a própria incapacidade de sentir.
- Indiferença afetiva (belle indifférence) — frieza diante dos próprios sintomas.
Fronteira. O embotado não sente; quem tem “sentimento de falta de sentimento” sofre por não sentir. E a falta de iniciativa pode vir do afeto (apatia) ou da vontade (abulia).
Impulso, compulsão e obsessão
No Sims: cap. 17, Obsessões e Compulsões; atos impulsivos no cap. 18, Atos Impulsivos e Agressivos.
- Ato impulsivo — sem fases de deliberação e decisão; egossintônico; descarga imediata; baixa tolerância à frustração.
- Impulsividade — agir sem planejar nem pesar as consequências.
- Ato compulsivo — egodistônico; o sujeito tenta resistir e sente alívio ao realizar; ligado a obsessões. Lewis (1936): compulsão subjetiva, resistência e preservação do insight.
- Obsessão (ideia obsessiva) — pensamento intrusivo, repetitivo e egodistônico, que gera ansiedade e ao qual o sujeito resiste, com juízo crítico preservado. No Sims: “a palavra obsessão é reservada para o pensamento; compulsão, para o ato”.
Fronteira. Impulsivo (alivia a tensão, sem crítica) × compulsivo (alivia, com crítica preservada) × obsessão (é ideia, não ato).
Autoria e agência — o Eu age?
No Sims: cap. 12, Perturbações do Eu; pensamento feito e roubo do pensamento no cap. 9, Perturbações do Processo de Pensamento; despersonalização e desrealização no cap. 13, Despersonalização.
- Vivência de influência (ação controlada) — atos e impulsos sentidos como impostos por uma força externa; o sujeito não reconhece o ato como seu. No Sims: experiência de passividade (sintoma de primeira ordem de Schneider).
- Pensamento feito (imposto) — pensamentos vividos como inseridos por outros.
- Roubo do pensamento — sensação de que o pensamento foi retirado por uma força externa.
- Despersonalização — estranheza em relação a si mesmo.
- Desrealização — sensação de irrealidade do mundo.
- Alteração da consciência de existência — “sou apenas uma máquina”, “sou um nada”.
Fronteira. Impulso egodistônico (reconhece o ato como seu, mas não controla) × vivência de passividade (não reconhece o ato como seu). Despersonalização (estranheza de si) × desrealização (irrealidade do mundo).
Movimento e ação: alterados, repetidos ou sem sujeito
No Sims: cap. 18, Distúrbios do Movimento e Comportamento; automatismo no cap. 3, Consciência e Distúrbios da Consciência.
- Estereotipia — movimento repetitivo, uniforme e sem finalidade aparente.
- Maneirismo — movimento bizarro e peculiar; caricatura de um gesto que tem sentido.
- Tique — movimento involuntário, súbito e repetitivo.
- Ecopraxia — imitação automática dos gestos do examinador.
- Obediência automática — execução automática de qualquer ordem.
- Negativismo — ativo (faz o oposto do que se pede) ou passivo (não faz nada).
- Catalepsia — mantém a postura que lhe é imposta.
- Flexibilidade cérea — resistência plástica à movimentação passiva.
- Estupor — imobilidade e mutismo, sem resposta, por inibição motora, com a consciência possivelmente preservada.
- Acatisia (inquietação) — impossibilidade de ficar parado.
- Automatismo — ação complexa sem sujeito consciente (sonambulismo, estados crepusculares).
Fronteira. Estereotipia × maneirismo × tique × ato compulsivo: todos repetem, por mecanismos diferentes. Estupor × abulia: não age por inibição motora × por vontade abolida.