Planejamento do projeto

Módulo 4 · Aplicação na docência

A tentação maior em qualquer projeto que envolve dados é abrir o R e começar a explorar. Você baixa o dataset, faz head(), vê as colunas, dispara um histograma, descobre algo interessante, escreve mais código, gera mais figuras, e três horas depois tem dezenas de arquivos sem estrutura, dúvidas sobre quais foram filtros aplicados, e nenhum manuscrito por escrever. Esse é o anti-padrão clássico.

A solução é simples mas exige disciplina: planejar antes de executar. Capítulo curto, mas central. As decisões aqui economizam horas — e tornam o trabalho que vem depois bem mais fluído.

Os quatro artefatos do planejamento

Em ordem de criação:

  1. Pergunta de pesquisa formalizada (já formulada no capítulo anterior — agora ela vira documento).
  2. Estrutura de pastas inicial com placeholders.
  3. AGENTS.md específico do projeto.
  4. Plano estatístico pré-especificado (SAP — Statistical Analysis Plan).

Esses quatro artefatos ficam commitados no Git antes de qualquer linha de análise ser escrita. Funcionam como contrato com você-do-futuro.

Artefato 1: pergunta de pesquisa em arquivo

Um único arquivo PESQUISA.md na raiz com a estrutura mínima:

# Pergunta de pesquisa

Qual a prevalência de hipertensão arterial estágio 2 (PAS ≥ 140 ou PAD ≥ 90)
em adultos brasileiros 40-64 anos, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde 2019,
estratificada por região (Norte/Nordeste/Sudeste/Sul/Centro-Oeste) e sexo?

# Hipóteses

- H1: Prevalência maior em homens que em mulheres.
- H2: Prevalência maior nas regiões Sul e Sudeste.
- H3: Prevalência cresce com a idade (>50 anos > 40-49 anos).

# Dataset

PNS 2019 (IBGE) — microdata pública.
Pacote R: `PNSIBGE`.
Variáveis-chave: P00104 (PAS), P00105 (PAD), C006 (sexo), C008 (idade), V0001 (região).

# Critérios de inclusão

- Adultos 40 a 64 anos.
- Com medida válida de PA (não-NA, não-implausível).

# Critérios de exclusão

- PAS < 60 ou > 250 (implausíveis).
- Sem informação de sexo ou região.

Esse arquivo fica visível no GitHub, é a primeira coisa que qualquer leitor — incluindo seus alunos — abre quando chegar no repositório. Forma o leitor sobre o que esperar do projeto antes mesmo de olhar código.

Artefato 2: estrutura de pastas

A estrutura padrão que vimos no Bloco Dados (M3-B2-08) e na seção sobre compendium (M4-B2-03), aplicada ao Capstone:

capstone-prevalencia-has/
├── README.md
├── PESQUISA.md
├── LICENSE
├── CITATION.cff
├── AGENTS.md
├── _quarto.yml
├── renv.lock           ← (após renv::init())
├── .gitignore
├── data/
   ├── raw/            ← intocável, dados originais
   ├── processed/      ← gerado por scripts/
   └── data-dictionary.md
├── R/
   └── utils.R         ← funções reusáveis
├── analysis/
   ├── 01-limpeza.qmd
   ├── 02-descritiva.qmd
   └── 03-resultados.qmd
├── output/
   ├── tabelas/
   └── figuras/
└── manuscrito.qmd

Crie tudo de uma vez no terminal:

mkdir -p capstone-prevalencia-has/{data/raw,data/processed,R,analysis,output/tabelas,output/figuras}
cd capstone-prevalencia-has
touch README.md PESQUISA.md LICENSE CITATION.cff AGENTS.md _quarto.yml .gitignore manuscrito.qmd
echo "data/raw/" >> .gitignore
echo "data/processed/" >> .gitignore
echo "_freeze/" >> .gitignore

git init
git add .
git commit -m "feat: estrutura inicial do projeto"

Em três minutos, esqueleto pronto. Os arquivos vazios garantem que a estrutura aparece no GitHub assim que você fizer o primeiro push (Git ignora pastas vazias, mas detecta arquivos vazios).

Artefato 3: AGENTS.md específico do Capstone

O AGENTS.md (capítulo M1-B2-05) traz contrato persistente com agentes de IA. Para Capstone, é o arquivo que garante coerência ao longo de várias sessões de vibe coding — você não precisa repetir convenções a cada conversa.

Modelo mínimo para um Capstone de epidemiologia:

# AGENTS.md — Projeto Capstone

## Contexto

Análise de prevalência de hipertensão arterial estágio 2 em adultos brasileiros
40-64 anos, com dados públicos da PNS 2019 (IBGE). Material didático para
disciplina de Epidemiologia Clínica.

## Linguagem e estilo

- R com tidyverse (preferência por `dplyr` sobre base R quando equivalente).
- Sempre `set.seed(12345)` em métodos com aleatoriedade.
- Pipes `|>` (R nativo), não `%>%`.
- Indentação com 2 espaços, sem tabs.
- Comentários em português, concisos.

## Convenções estatísticas

- Nível de significância: alpha = 0.05.
- IC: 95%.
- Comparações entre 2 grupos: teste t de Welch (não assume variância igual);
  Mann-Whitney se distribuição não-normal.
- Comparações entre 3+ grupos: ANOVA + Tukey HSD.
- Múltiplas comparações: ajuste por Bonferroni.
- Tabelas formatadas com `gtsummary`.
- Gráficos com `ggplot2`, paleta colorblind-safe (`viridis`).

## Convenções do projeto

- `dados/raw/` é somente leitura (não modificar nem reescrever).
- Scripts numerados em ordem de execução: 01-, 02-, 03-.
- Cada figura final salva em `output/figuras/` com nome descritivo.
- Cada tabela final salva em `output/tabelas/`.
- Mensagens de commit em português, formato Conventional Commits.

## Restrições

- Não comite dados em `data/raw/` ou `data/processed/`.
- Não rode `git push --force`, `git reset --hard`, ou comandos destrutivos sem aprovação.
- Não invente referências bibliográficas — projeto acadêmico exige verificação.
- Não inclua dados identificáveis em prompts ou commits.

Esse arquivo, lido pelos agentes em cada sessão, garante que todas as decisões implícitas que você teria que repetir já estão registradas.

Artefato 4: SAP — plano estatístico pré-especificado

Em pesquisa séria, especialmente RCTs, há um documento chamado SAP (Statistical Analysis Plan) escrito antes de tocar nos dados. O SAP descreve quais análises serão feitas — e isso protege contra p-hacking (rodar várias análises e reportar só as significativas).

Para Capstone, um SAP simplificado já tem valor pedagógico enorme. Crie SAP.md na raiz:

# Plano Estatístico Pré-Especificado (SAP)

## Análise primária

**Objetivo:** estimar prevalência de hipertensão arterial estágio 2 em adultos
brasileiros 40-64 anos, segundo PNS 2019.

**Definição operacional do desfecho:** PAS ≥ 140 mmHg OU PAD ≥ 90 mmHg na
medida única realizada na PNS.

**Análise:** prevalência bruta (n com HAS / n total na faixa etária) com IC 95%
binomial exato. Estratificação por região (5 categorias) e sexo (2 categorias).

## Análises secundárias

- Prevalência por faixa etária quinquenal (40-44, 45-49, 50-54, 55-59, 60-64).
- Prevalência por nível educacional (3 categorias: até fundamental, médio, superior).

## Análise sensibilidade

- Repetir análise primária excluindo casos com PAS > 200 ou PAD > 130
  (implausíveis ou outliers extremos).
- Repetir análise considerando apenas pacientes não em uso de antihipertensivo
  (variável Q006).

## O que NÃO será feito

- Modelagem multivariada (esse é exercício didático, não estudo causal).
- Análise de subgrupos não pré-especificados.
- Comparação com cortes etários ou regiões fora dos pré-especificados.

## Software

- R 4.4.2.
- Pacotes: PNSIBGE, dplyr, gtsummary, ggplot2 (versões registradas em renv.lock).
- Quarto 1.5.x para renderização.

Esse arquivo é essencialmente um pré-registro de análise — gesto de honestidade científica que muda a credibilidade do trabalho.

DicaPré-registro adicional opcional

Para Capstone que será usado como exemplo de boas práticas em sala, vale o gesto adicional de registrar o SAP no OSF (osf.io) com timestamp imutável. Aluno verá: “professor pré-registrou SAP, depositou no OSF, então pode mostrar que a análise foi como planejada — não foi ajustada para chegar no resultado bonito”. Esse exemplo concreto vale mais que cinco aulas teóricas sobre p-hacking.

Conexão com IA

Agentes ajudam nos quatro artefatos:

1. Esqueleto de PESQUISA.md. Você descreve em PT-BR, agente formaliza em estrutura padronizada.

2. Geração de estrutura de pastas. Comandos mkdir, touch, git init, gitignore — agente entrega script completo em segundos.

3. AGENTS.md a partir de descrição. Você descreve as convenções do seu lab/disciplina; agente formata em AGENTS.md coerente.

4. SAP draft. Mais delicado — agente propõe SAP a partir da pergunta de pesquisa, mas decisões metodológicas precisam ser revisadas por humano (capítulo M3-B3-14). Use o draft como ponto de partida, não como produto final.

O que vem a seguir

Plano fixo, estrutura criada, contrato com agentes formalizado, SAP escrito. Hora de executar. O próximo capítulo é o núcleo prático do Capstone — vibe coding aplicado para conduzir a análise da pergunta de pesquisa até as figuras finais.

04 · Execução com vibe coding