Excel (XLSX/XLS)

Módulo 2 · Dados

Em algum lugar de qualquer hospital universitário, neste momento, alguém está digitando dados de um paciente numa planilha do Excel. É o programa de inserção de dados de pesquisa mais usado do mundo, com larga vantagem sobre qualquer alternativa. Você pode ter opinião negativa sobre isso (e há motivos), mas é a realidade do trabalho: na cadeia de produção de dados clínicos, o Excel está em algum lugar quase sempre. Este capítulo é sobre o que esse formato é, de onde veio, por que dominou, e — importante para pesquisa — onde ele é perigoso.

Da origem à hegemonia

A história do Excel é, antes de mais nada, uma história de batalha por mercado que a Microsoft ganhou.

Antes do Excel: VisiCalc e Lotus 1-2-3. A planilha eletrônica como gênero foi inventada em 1979 por Dan Bricklin e Bob Frankston, com o VisiCalc para o Apple II — o primeiro killer app da computação pessoal, o programa que justificou a compra de um computador para usuário comum de empresa. Pouco depois, em 1983, a Lotus Development lançou o Lotus 1-2-3 para o IBM PC, que rapidamente substituiu o VisiCalc e dominou o mercado corporativo dos anos 80.

A Microsoft entrou nesse mercado tarde. Lançou o Multiplan em 1982 (versão para CP/M, depois portado para outros sistemas) sem grande sucesso, e em 1985 lançou o Excel — primeiro para o Macintosh. A escolha era estratégica: o Mac tinha tela gráfica de alta resolução, mouse e interface de janelas, todos recursos que permitiam uma planilha visualmente superior à concorrência ainda em modo texto. Excel para Windows veio em 1987.

A vitória sobre o Lotus 1-2-3 levou cerca de uma década. Foi consolidada nos anos 1990 com a estratégia de empacotar Excel no Microsoft Office junto com Word e PowerPoint — força de venda que a Lotus não conseguiu igualar. Em 1995, o Excel já era a planilha dominante; nos anos 2000, virou padrão absoluto em qualquer escritório, laboratório, hospital ou universidade do mundo.

Os dois formatos: .xls e .xlsx

Tecnicamente, “arquivo Excel” pode significar dois formatos bem diferentes:

.xls (1987–2007). Formato binário proprietário baseado em OLE Compound File Binary Format. Era um arquivo único contendo planilhas, fórmulas, gráficos, macros — tudo em estrutura binária fechada. A especificação não foi publicamente documentada até 2008 (sob pressão regulatória); por décadas, ler .xls exigia engenharia reversa ou licença comercial da Microsoft.

.xlsx (2007 em diante). Em 2007, com o Office 2007, a Microsoft lançou o Office Open XML (OOXML) — um formato aberto, baseado em XML compactado em ZIP. Um arquivo .xlsx é, literalmente, um arquivo ZIP que você pode descompactar com qualquer ferramenta:

mv coorte.xlsx coorte.zip
unzip coorte.zip
ls
# [Content_Types].xml  _rels/  docProps/  xl/

Dentro, há XMLs descrevendo planilhas, células, estilos, fórmulas. A abertura do formato foi resultado de pressão antitruste e da competição com o Open Document Format (ODF) — o formato aberto usado pelo OpenOffice/LibreOffice, padronizado como ISO/IEC 26300 em 2006. Para evitar perder o mercado governamental europeu (que começava a exigir formatos abertos), a Microsoft formalizou o OOXML como padrão ISO/IEC 29500 em 2008 — em processo polêmico de fast-track no qual a Microsoft foi acusada de manipular votos nacionais.

A consequência prática: hoje, .xlsx pode ser lido e escrito por qualquer biblioteca em qualquer linguagem (openxlsx2 e readxl em R, openpyxl e pandas em Python, etc.) sem licença Microsoft. .xls ainda funciona em programas modernos por compatibilidade, mas é tratado como formato legado em vias de descontinuação.

Excel em pesquisa: o que ele faz bem

Antes do que ele faz mal: vale registrar onde Excel é genuinamente útil em pesquisa:

  • Entrada manual de dados. Auxiliares de pesquisa, residentes coletando dados de prontuário, colaboradores eventuais — para entrada manual estruturada, a interface do Excel é difícil de superar. Validação de células, listas suspensas, formatação condicional ajudam a reduzir erro de digitação.
  • Compartilhamento com colaboradores não-técnicos. Mostrar dados a um clínico, um administrador, um colaborador de outra área — Excel é o denominador comum universal. Mandar .csv para um colega que nunca abriu terminal é convidar problema; mandar .xlsx ele abre direto.
  • Exploração rápida e ad-hoc. Pequenas verificações, gráficos descartáveis, tabelas dinâmicas — são tarefas onde Excel ganha por baixo custo de fricção, antes de qualquer ambiente de programação.

Negar esses casos é teimosia. A questão é onde Excel deixa de ser apropriado — e essa fronteira é mais próxima do que muitos assumem.

O custo da onipresença: gene names e além

Em 2016, Ziemann, Eren e El-Osta publicaram no Genome Biology um estudo que revisou sistematicamente artigos de genômica com tabelas suplementares em Excel (Ziemann; Eren; El-Osta, 2016). Resultado: aproximadamente 20% dos artigos continham nomes de gene silenciosamente corrompidos pela autoconversão do Excel. Os clássicos:

  • SEPT2 (gene Septin-2) → autoconvertido para 2-Sep (segunda de setembro)
  • MARCH1 (gene Membrane Associated Ring-CH-Type Finger 1) → 1-Mar
  • OCT4 (gene de pluripotência) → 4-Oct
  • Identificadores como 2310009E13 → notação científica 2.31E+13

O Excel “ajudava” interpretando string que parecia data como data, e número longo como notação científica — e gravava o resultado de volta na planilha sem aviso. Pesquisador exportava CSV de banco, abria no Excel para inspecionar, salvava, reenviava — e os gene names estavam destruídos. O artigo de 2016 mostrou que era epidemia.

A consequência foi histórica e quase cômica: depois de anos de campanhas pedindo à Microsoft que oferecesse opção para desativar a autoconversão (sem sucesso), em 2020 o HUGO Gene Nomenclature Committee (HGNC) — comitê internacional que rege nomes de genes humanos — renomeou 27 genes (Bruford et al., 2020). SEPT1 virou SEPTIN1. MARCH1 virou MARCHF1. DEC1 virou DELEC1. A nomenclatura científica internacional cedeu ao software desktop.

Esse episódio é uma alegoria útil. Excel é uma ferramenta opinativa — ela interpreta o que você digita, não armazena passivamente. Em pesquisa científica, onde fidelidade ao dado bruto é essencial, essa opinião embutida é fonte de erro.

AvisoOutras autoconversões silenciosas

Além de gene names, Excel comumente corrompe:

  • CEP brasileiro com zero à esquerda (02115-000) — o zero some, vira 2115-000.
  • CPF / CNPJ longos — convertidos para notação científica.
  • Códigos de identificação alfanuméricos que parecem data ou número — interpretação imprevisível.
  • Datas em formato regional misturado — DD/MM/YYYY brasileiro vs MM/DD/YYYY americano viram silenciosamente uma na outra dependendo do locale do sistema.
  • Trailing zeros em números decimais (1,10 vira 1,1).

A defesa: ao importar CSV no Excel, nunca use “Abrir” (que aplica autoconversão). Use “Importar Dados” ou “Get Data → From Text/CSV”, escolhendo texto como tipo das colunas problemáticas. Em fluxo automatizado (R, Python), prefira ler o CSV diretamente sem passar por Excel.

Trabalhando com Excel em R e Python

Para o trabalho de análise propriamente dito, leia o .xlsx programaticamente em vez de abri-lo no Excel. Isso preserva tipos de dado, evita autoconversões, e mantém o pipeline reprodutível.

Em R:

library(readxl)

# Lê uma planilha específica de um arquivo Excel
dados <- read_excel("dados/coorte.xlsx", sheet = "Pacientes")

# Lista todas as planilhas (sheets) do arquivo
excel_sheets("dados/coorte.xlsx")

Em Python:

import pandas as pd

# Lê uma planilha específica
dados = pd.read_excel("dados/coorte.xlsx", sheet_name="Pacientes")

# Lê todas as planilhas como dicionário
todas = pd.read_excel("dados/coorte.xlsx", sheet_name=None)

Para escrever Excel formatado a partir de R/Python (relatórios para colaboradores que esperam .xlsx), bibliotecas como openxlsx2 (R) e openpyxl (Python) permitem controle fino — incluir múltiplas planilhas, formatação, bordas, cores, fórmulas. Útil para entregar resultado em formato familiar sem comprometer o processamento.

O fluxo recomendado para pesquisa

Resumindo a conclusão prática:

Onde Excel é OK Onde Excel é arriscado
Entrada manual com validação de células Como formato de armazenamento canônico de dados de pesquisa
Comunicação visual com não-técnicos Pipeline de processamento (autoconversões corrompem)
Relatórios pontuais para apresentação Identificadores alfanuméricos sensíveis (gene names, CEP, CPF)
Pequenas tabelas que cabem na cabeça Datasets grandes (Excel trava acima de ~1M linhas)

O fluxo de pesquisa robusto típico:

  1. Coleta: Excel para entrada manual estruturada.
  2. Conversão imediata: exporta .xlsx para CSV ou Parquet, sem reabrir no Excel.
  3. Análise: todo processamento em R/Python lendo CSV/Parquet.
  4. Comunicação: se precisar entregar resultado em .xlsx, gere programaticamente com openxlsx2/openpyxl a partir do código de análise.

Esse fluxo isola o Excel ao papel para o qual ele é melhor (interface humana) e protege os dados das autoconversões durante análise.

Conexão com IA

Três usos onde agentes ajudam especificamente com Excel:

1. Inspecionar planilhas complexas. “Cole o resultado de excel_sheets() desse arquivo. Há 12 sheets. Qual provavelmente contém os dados de pacientes?” O agente identifica padrões nos nomes e propõe a sheet certa, evitando que você abra cada uma manualmente.

2. Diagnosticar autoconversões. Quando uma análise produz resultado estranho, “essa coluna deveria ter 487 valores únicos mas tem 322 — pode ser autoconversão do Excel?” O agente lê o .xlsx direto, compara com o que você esperava, identifica conversões silenciosas.

3. Gerar código de exportação .xlsx formatada. “Crie um .xlsx com 3 abas (resumo, dados completos, gráficos), formatação ABNT, primeira linha em negrito.” Resultado: chamadas de openxlsx2 que você adapta. Tedioso à mão, rápido com agente.

O que vem a seguir

CSV é mínimo, Excel é estruturado mas opinativo. O próximo formato — JSON — ocupa um espaço diferente: tão portável quanto CSV, mas capaz de representar dados hierárquicos (não retangulares), o que abre uso em APIs, configurações, e metadados.

04 · JSON

Referências

BRUFORD, Elspeth A. et al. Guidelines for human gene nomenclature. Nature Genetics, [s. l.], v. 52, n. 8, p. 754–758, 2020.
ZIEMANN, Mark; EREN, Yotam; EL-OSTA, Assam. Gene name errors are widespread in the scientific literature. Genome Biology, [s. l.], v. 17, n. 177, 2016.