Claude
Módulo 1 · Agentes de IA
No capítulo anterior você viu o que é um agente e como ele difere de um chatbot. Agora vamos olhar para o agente que este curso recomenda — o Claude, da Anthropic — em detalhes: quem é a empresa, como o produto se organiza em três modos diferentes, e o que cada modo entrega para um pesquisador.
Anthropic em poucas palavras
A Anthropic é uma empresa de pesquisa em IA fundada em 2021 por Dario e Daniela Amodei, junto com outros pesquisadores que vinham da OpenAI. O foco declarado da empresa é segurança em IA (AI safety) — desenvolver modelos cujo comportamento seja confiável, interpretável e auditável, especialmente conforme as capacidades crescem. O produto principal é o Claude, lançado em 2023 e hoje na quarta geração (linha Claude 4.x).
A escolha do Claude como agente principal deste curso reflete duas coisas: (1) a qualidade técnica do modelo para escrita longa, raciocínio passo a passo e código complexo — perfis típicos do trabalho de pesquisa; e (2) o foco da empresa em explicabilidade e controle, valores que se alinham bem ao rigor científico.
A família de modelos Claude
Vimos no capítulo O que é IA generativa (M1-B1-01) que modelo, aplicação e versão são coisas distintas. A Anthropic mantém uma família de modelos com foco diferente, organizados em três camadas:
| Modelo | Foco | Quando usar |
|---|---|---|
| Claude Opus | Raciocínio profundo, tarefas longas e complexas | Escrita de artigo, análise estatística, refatoração grande de projeto |
| Claude Sonnet | Equilíbrio entre velocidade e qualidade | Uso diário em pesquisa, edição de texto, análises rápidas |
| Claude Haiku | Resposta muito rápida, tarefas simples | Buscas no projeto, perguntas pontuais, classificação leve |
A escolha entre Opus, Sonnet e Haiku às vezes é feita por você (escolhendo no menu da aplicação) e às vezes é feita pelo agente automaticamente — em Claude Code, por exemplo, tarefas leves podem ser delegadas a Haiku enquanto Opus cuida do trabalho pesado, otimizando custo e velocidade.
A geração atual no momento de escrita deste curso é Claude 4.x (Opus 4.7, Sonnet 4.6, Haiku 4.5). A Anthropic costuma lançar versões novas a cada poucos meses, e o app Claude Desktop e o Claude Code passam a usar a versão mais nova automaticamente, sem que você precise reinstalar nada (lembre a discussão de modelo × aplicação × versão em M1-B1-01).
Os três modos do Claude Desktop
No Módulo 0 você instalou o Claude Desktop, o aplicativo que reúne os três modos de uso do Claude em uma única interface:
┌──────────────────────────────┐
│ Claude Desktop │
│ (um único aplicativo) │
├──────────────────────────────┤
│ Chat │ Cowork │ Code │
└──────────────────────────────┘
conversa pesquisa programação
Cada modo corresponde a um perfil de tarefa diferente. Vale entender o que faz sentido em cada um — porque a escolha entre eles muda completamente como o trabalho flui.
Chat — o modo conversacional clássico
O modo Chat é o equivalente desktop do que você usa em claude.ai: uma conversa baseada em texto, sem agência sobre o seu computador. É o chatbot que descrevemos no capítulo anterior.
Em pesquisa, Chat é útil para:
- Tirar dúvidas conceituais (“o que é regressão de Cox e quando aplicar?”);
- Brainstorm inicial (“estou pensando em estudar X — que desenhos viáveis?”);
- Revisão de texto curto (“revise este parágrafo do método para clareza”);
- Tradução, resumo, paráfrase — tarefas onde o output cabe na própria janela.
Limite: para qualquer coisa que precise interagir com arquivos do seu projeto, o Chat não vai poder ajudar diretamente — você teria que copiar e colar de volta.
Cowork — agente para trabalho de conhecimento
O Cowork é o agente do Claude para trabalho de escritório/pesquisa que não envolve código diretamente: ler documentos, organizar referências, redigir manuscritos, manipular planilhas, conectar-se a serviços como Google Drive, Slack, Outlook.
Diferente de um chatbot convencional, o Cowork opera diretamente no computador do usuário — criando arquivos, executando código, navegando na web e interagindo com aplicativos — tudo a partir de instruções em linguagem natural. Para um pesquisador, isso significa poder descrever o que deseja (uma análise exploratória de uma planilha, um resumo organizado de uma pasta de PDFs, um manuscrito reformatado para outra revista) e ver o resultado sendo construído em tempo real.
O Cowork brilha especialmente em:
- Revisão de literatura — entregar 30 PDFs e pedir um resumo organizado por tema, com tabela comparativa de métodos.
- Bibliografia — puxar referências do Zotero, normalizar formato, exportar BibTeX.
- Análise exploratória em planilha — abrir um Excel, gerar gráficos descritivos, identificar outliers, sem você precisar escrever fórmula.
- Escrita de seções de manuscrito — a partir do seu rascunho de Métodos, gerar a versão para a revista X seguindo o style guide.
- Comunicação — esboços de e-mail para coautores, slides para uma reunião, resumo executivo de progresso.
Como vimos no capítulo de instalação, Cowork está disponível somente nos planos pagos do Claude (Pro, Max, Team, Enterprise). Se você não tem assinatura, ainda assim instale o Claude Desktop — Chat e Code já cobrem boa parte do que faremos. Cowork será opcional ao longo do curso, com alternativas indicadas onde necessário.
Claude Code — agente para trabalho com código
O Claude Code é o agente do Claude para trabalho com código e arquivos de projeto: editar scripts, rodar análises, mexer em Quarto, fazer commits no Git. Está disponível tanto como modo dentro do Claude Desktop (que você instalou no Módulo 0) quanto como ferramenta de linha de comando independente — caminho oficial para quem está no Linux ou prefere ficar no terminal.
Em pesquisa, Claude Code brilha em:
- Estruturar o projeto — gerar a árvore de pastas e o
_quarto.ymldo zero (lembre o exemplo do capítulo de Prompts, M1-B1-04). - Análises em R ou Python — escrever o script, rodar, ler o output, ajustar.
- Edição de capítulos do Quarto — manter consistência entre arquivos, refatorar nome de variável em todo o projeto.
- Operações de Git — commit organizado, mensagens descritivas, resolução de conflitos.
- Refatoração grande — “renomeia esta variável em todos os scripts”, “mova este código repetido para uma função”.
A regra prática é simples:
- Texto, planilha, PDF, documento externo → Cowork.
- Arquivos do seu projeto Quarto, R, Python, Git → Claude Code.
Quando ambos servem (escrever a discussão de um artigo, por exemplo), use o que estiver mais à mão. Como compartilham seu histórico de conversa e seus arquivos pelo Claude Desktop, não há “perda” em alternar.
O caso SaaSpocalypse: por que isso importa
A magnitude do impacto agêntico do Claude ficou particularmente visível no mercado financeiro. Conforme reportado pela newsletter The Batch do DeepLearning.AI (The Batch, 2026), o lançamento do Cowork em janeiro de 2026, seguido de plugins open-source voltados a funções corporativas (gestão de calendário, análise financeira, revisão jurídica, marketing, entre outros), provocou uma queda de 25% no S&P Software & Services Index — um evento que analistas do mercado apelidaram de “SaaSpocalypse”.
A leitura por trás do número é simples: investidores avaliaram que muito do que empresas de software cobravam por mês — gestão de tarefas, edição colaborativa, automação de fluxos — passou a ser executável diretamente por um agente como o Cowork, com alguns plugins. Equipes pequenas, ou mesmo indivíduos, passam a produzir o que antes exigia uma assinatura SaaS recorrente ou um time técnico inteiro.
Se o Cowork foi capaz de abalar o mercado de software corporativo, o impacto na pesquisa científica vai na mesma direção: tarefas que antes exigiam conhecimento técnico especializado (programação, manipulação de dados, design de site, edição de documento técnico) ficaram acessíveis por descrição em linguagem natural. A barreira técnica de entrada caiu drasticamente — e quem aprende a operar bem com agentes ganha autonomia para fazer mais sozinho do que era possível há dois anos.
Limites específicos do Claude
Para fechar com honestidade — três pontos onde o Claude, mesmo sendo a recomendação do curso, tem limites a conhecer:
- Cutoff de conhecimento. O modelo é treinado com dados até uma data específica (no momento de escrita deste curso, fim de 2025 / início de 2026 para a linha Opus 4.x). Eventos posteriores ele só conhece se você fornecer no prompt ou se o agente buscar na web (Cowork tem essa capacidade nativa; Claude Code precisa de configuração).
- Plano e cota. Mesmo no plano Pro, há limite de mensagens por janela de tempo. Em sessões longas de Claude Code é comum bater o teto e precisar aguardar. Quem usa intensivamente em projetos grandes costuma migrar para o plano Max.
- Cautela em domínios sensíveis. Por priorizar segurança, o Claude às vezes recusa ou suaviza demais respostas em temas clínicos delicados. Em pesquisa médica isso aparece, por exemplo, em discussões sobre dosagem de medicamentos, suicídio, ou desfechos terminais — o modelo pode ser excessivamente cauteloso. A solução costuma ser dar contexto explícito no prompt: “sou médico psiquiatra escrevendo para um artigo científico em revista revisada por pares”.
O que vem a seguir
O próximo capítulo trata da alternativa principal ao Claude no espaço dos agentes profissionais: Codex, da OpenAI — um agente em CLI que ocupa um espaço parecido ao do Claude Code, mas com filosofia e ergonomia diferentes. Se você não pretende comparar agentes, pode pular direto para o Bloco 3 (Terminal); se quer entender o cenário, vale a leitura.