API × app

Módulo 1 · Conceitos Fundamentais

Você já viu o que é IA generativa e como tokens funcionam. Agora vamos olhar para os dois grandes modos pelos quais você acessa um modelo de IA — e por que um pesquisador deveria saber a diferença entre eles, mesmo que use só um na prática.

As duas portas de entrada

Todo modelo grande de IA generativa (Claude, GPT, Gemini) é, por dentro, um único produto: o modelo treinado pela empresa, rodando em servidores dela. O que muda é como você se conecta.

                  ┌────────────────────────────┐
                  │     O modelo de IA         │
                  │   (Claude, GPT, Gemini)    │
                  │   roda nos servidores      │
                  │     da empresa             │
                  └────────────┬───────────────┘
                               │
              ┌────────────────┴────────────────┐
              │                                  │
              ▼                                  ▼
     ┌────────────────┐                ┌────────────────┐
     │     APP        │                │      API       │
     │   (chat)       │                │ (programática) │
     ├────────────────┤                ├────────────────┤
     │ login + senha  │                │  chave de API  │
     │ assinatura $   │                │  por token $   │
     │ janela de chat │                │  programa →    │
     │                │                │  programa      │
     └────────────────┘                └────────────────┘

Vamos olhar cada um de perto.

App: o caminho conversacional

O app é o caminho que a maior parte dos usuários conhece. São produtos como:

Você abre uma janela, digita uma mensagem, recebe uma resposta. Como em qualquer outro app, há login (e-mail e senha, ou OAuth com Google/Apple) e a empresa cuida de toda a infraestrutura: cobrança, limites, atualizações de modelo, segurança.

Como se paga

Há, em geral, três tiers:

Tier O que você ganha
Gratuito (Free) Acesso ao modelo padrão da empresa, com limites de uso (ex.: número de mensagens por dia). Sem cartão de crédito.
Assinatura mensal (Pro / Plus / Advanced) — ~$20/mês Modelo mais capaz, limites maiores, recursos extras (carregar arquivos, gerar imagens, modos especializados). É o tier mais comum entre profissionais.
Tiers superiores (Max, Pro nível 2, Team, Enterprise) Limites ainda maiores, modelos flagship, integrações corporativas. Custos sobem para $100-$200/mês ou planos institucionais.

Para um estudante ou professor, o tier gratuito ou a assinatura de ~$20/mês cobre quase tudo o que vamos fazer no curso.

O que você ganha além do modelo

Os apps não são “só uma janela de chat”. Eles incluem:

  • Histórico de conversas salvo em sua conta;
  • Memória entre conversas (em alguns produtos);
  • Carregar arquivos (PDF, imagem, planilha) com clique;
  • Gerar imagens (em alguns apps);
  • Acesso a modelos especializados sem você escolher manualmente.

Tudo isso é construído em cima da API — mas a empresa empacota o conjunto numa experiência fácil. Você não precisa pensar em tokens, modelos, parâmetros: só conversar.

Limitações do app

Em compensação, há coisas que você não consegue fazer pelo app:

  • Automatizar (rodar a mesma conversa em centenas de arquivos);
  • Integrar com outras ferramentas (escrever um script que processa dados e chama a IA);
  • Escolher modelo específico com precisão (geralmente o app decide por você qual versão usar);
  • Controlar custos por operação (o limite é mensal; uma operação pesada conta como qualquer outra).

Se você só quer conversar com IA — escrever, traduzir, brainstorm, pedir explicações — o app é mais que suficiente.

API: o caminho programático

A API (Application Programming Interface) é o canal direto e técnico para o modelo. Em vez de uma janela de chat, é um endpoint — uma URL na internet que recebe um pedido (em JSON) e devolve uma resposta (em JSON):

POST https://api.anthropic.com/v1/messages
Content-Type: application/json
x-api-key: sk-ant-...

{
  "model": "claude-opus-4-7",
  "messages": [{"role": "user", "content": "Olá!"}],
  "max_tokens": 1024
}

Você não vai escrever esse JSON na mão durante o curso. Quem escreve são as ferramentas que você usa — Claude Code, Codex, Gemini CLI, scripts em Python ou R que chamam a IA, agentes que rodam em servidores. Todas elas, por baixo dos panos, mandam pedidos como o de cima.

Como se autentica: a chave de API

A API não usa login com senha. Cada usuário (ou ferramenta dele) tem uma chave de API — uma string longa que parece algo como:

sk-ant-api03-aBcD1234eFgH5678iJkL9012mNoP3456qRsT...

Essa chave é a sua senha — quem tiver acesso a ela pode fazer chamadas em seu nome (e portanto gastar seu dinheiro). Por isso há regras estritas:

  • Nunca colar a chave em código compartilhado (GitHub, e-mail, mensagem);
  • Nunca colar a chave em documento Quarto que será publicado;
  • Guardar em variável de ambiente ou em gerenciador de senhas (1Password, Bitwarden, etc.);
  • Revogar e gerar nova se desconfiar de vazamento (todos os consoles têm o botão).

Vamos voltar a esse ponto na prática quando você for usar API de fato — provavelmente no Módulo 2 ou 3.

Como se paga

A API cobra estritamente por uso:

  • Você não paga assinatura mensal mínima;
  • Cada chamada consome tokens (entrada + saída) — vimos no capítulo 02;
  • A conta é somada e cobrada no fim do mês;
  • Quem nunca usou pode começar com créditos gratuitos (Anthropic dá $5; Google é mais generoso) — um teste sem cartão.

Para um pesquisador, isso significa:

  • Em meses que você usa pouco, paga muito pouco (ou nada).
  • Em meses de uso intenso, paga mais que uma assinatura — mas geralmente em troca de muito mais trabalho útil feito.
  • Sem teto: rodar um agente desatento durante a noite pode custar dezenas ou centenas de dólares. Por isso quase todos os consoles permitem definir um limite mensal de gastos — recomendação forte: ative na primeira vez que ativar a API.

O que você ganha

Em troca da complexidade, a API libera tudo o que o app não permite:

  • Automação — chamadas em loop, processamento em lote;
  • Integração — chamar IA dentro de scripts, dentro de pipelines de análise, dentro de outras ferramentas;
  • Escolha de modelo — você decide se quer Opus (mais caro, melhor) ou Haiku (mais barato, suficiente para tarefas simples);
  • Controle fino — temperatura, número máximo de tokens, formato de saída.

E, principalmente, é o que viabiliza os agentes.

Os agentes (Claude Code, Codex, Gemini CLI): meio termo

As três ferramentas que você instalou no Módulo 0 são agentes. Eles ocupam um terceiro espaço entre app e API:

  • Tecnicamente: agentes usam a API — cada ação que o Claude Code executa no seu projeto (ler um arquivo, rodar um comando, editar código) é uma chamada à API.
  • Na sua experiência: você não vê chave nenhuma. Faz login com sua conta, e a ferramenta cuida de autenticar e cobrar.

Como funciona a cobrança? Depende da ferramenta:

Agente Como cobra
Claude Code Se você logou com sua conta Anthropic e tem assinatura Max ou Team, o uso conta contra a quota dessa assinatura. Caso contrário, usa a API e cobra por token.
Codex CLI Se você logou com ChatGPT Plus / Pro, conta contra a quota. Senão, usa API.
Gemini CLI Tem uma quota gratuita generosa (mais de 1000 requisições/dia para usuários autenticados com Google), suficiente para a maior parte do uso pessoal. Acima disso, vira API.

Em outras palavras: você pode usar agentes sem mexer em API diretamente — basta logar. Por baixo dos panos, é tudo API; mas o agente esconde a complexidade.

DicaBoa notícia para o curso

Você não precisa de chave API agora. Para tudo o que vamos fazer no Módulo 1 e na maior parte do Módulo 2, o Claude Desktop (com a assinatura gratuita ou Pro) e o Claude Code logado com sua conta já resolvem. Chaves de API entram em cena se você decidir, mais à frente, automatizar análises ou rodar processamentos em lote.

Quando cada modo faz sentido

Resumindo a decisão prática:

Cenário Modo recomendado
Conversar, escrever, brainstorm, pedir explicações App (chat) com plano gratuito ou Pro
Análise de código, edição de arquivos, refatoração Agente (Claude Code, Codex, Gemini CLI) — usa API por baixo, mas via login
Processar 200 PDFs em lote API direta (precisa de chave)
Integrar IA em pipeline de análise R/Python API direta
Aplicação que vai ser usada por outras pessoas API direta com chave do projeto
Aluno começando o curso App + agente logado — não toca em chave API por enquanto

Para o curso, a recomendação é: comece com Claude Desktop (chat) + Claude Code logado. Avance para chave de API só quando uma necessidade específica aparecer.

Implicações para reprodutibilidade científica

Um ponto rápido importante para pesquisa: a API é muito mais reprodutível que o app.

  • Pelo app, você não controla qual versão exata do modelo está respondendo. A empresa atualiza o modelo “por baixo”, e suas conversas anteriores podem produzir resultados diferentes se repetidas amanhã.
  • Pela API, você especifica o modelo (claude-opus-4-7, por exemplo). E pode até guardar versão específica e timestamp se a documentação científica exigir.

Isso importa quando o uso de IA for parte da metodologia de um estudo (ex.: sumarizar artigos para uma revisão sistemática, classificar respostas de questionário, gerar texto para análise). Vamos voltar a esse ponto no capítulo 05 · Citar IA.

O que vem a seguir

O próximo capítulo trata da habilidade que define a qualidade de tudo o que você obtém com IA — independentemente de usar app, API ou agente: o prompt. Anatomia, técnicas, iteração.