Sais de lítio
O lítio é sem dúvida um dos medicamentos mais conhecidos e mais importantes da psiquiatria. Por outro lado, a relação entre o lítio e a independência do Brasil é menos conhecida. O caminho para a descoberta do lítio se iniciou com José Bonifácio de Andrada (patrono da independência do Brasil) no ano de 1800, quando estudava na Europa1. Em suas viagens nas minas de Utö da Suécia, Bonifácio descreveu 4 novos minerais (espodumênio, criolita, escapolita e petalita), tendo publicado em 1800 a descrição desses novos minerais no Journal de Physique, de Chimie et de Histoire Naturelle, em francês, e no Allgemeines Journal der Chemie. No ano seguinte, em 1801, publicou também essas descrições no Journal of Natural Philosophy, Chemistry and the Arts, em inglês2. Durante 17 anos nada mais se falou desses minerais, até que em 1817 o sueco Svedenstjerna encontrou novamente a petalita nas mesmas minas de Utö. No ano seguinte, em 1818, o químico Johan August Arfwedson propôs então haver na petalita um novo composto, que denominou de “Lithion”, derivado da palavra grega para pedra3.
Um dos primeiros usos do lítio foi no tratamento de cálculos renais, da hiperuricemia e da gota3. Naquela época era vigente o conceito de que a doença conhecida como “gota” estava intimamente relacionada a alterações comportamentais e do humor, e um dos primeiros médicos a prescrever lítio para o tratamento da gota (Alfred Baring Garrod) notou haver melhora no humor e no sentimento de bem-estar dos pacientes3. Alguns anos mais tarde, em 1886, o médico dinamarquês Carl Lange publicou uma monografia relatando o uso de sais de lítio para prevenir a depressão recorrente. Ao longo de todo o século 19 e até meados do século XX acreditava-se que os efeitos dos sais de lítio na depressão se deviam ao seu efeito no controle do ácido úrico3. Durante todo esse período, fontes de água mineral com lítio eram consideradas valiosas para o tratamento de problemas urinários, gota, artrite, reumatismo, epilepsia, hipertensão, angina, asma, entre outros3,4. Curiosamente, fontes de água mineral eram recomendadas para a cura de diversas doenças desde a Grécia antiga, inclusive para a mania.
No final do século 19 as águas minerais com sais de lítio estavam no auge. Tal era a busca pelas águas com lítio que os SPAs da Europa e dos Estados Unidos não tinham mais como atender à demanda, e a solução foi engarrafar e vender água mineral com sais de lítio3. Em pouco tempo inúmeras marcas de água com sais de lítio chegaram ao mercado, inclusive uma cerveja feita com água mineral litiada. Um produto chamado “Basic Lithia Water” era anunciado como “inestimável como uma água potável constante e exclusiva, e na prevenção e cura de reumatismo, gota, malária, febre tifoide e doenças dos rins, fígado, sangue e nervos”4.
No final do século 19 diversos pesquisadores começaram a investigar os ingredientes dessas águas minerais e descobriram que a maioria tinha apenas traços de lítio, ou nenhum lítio, e, aos poucos, o lítio perdeu a fama inicial. Em 1906, o Pure and Food Drug Act nos Estados Unidos passou a exigir a declaração explícita e acurada das substâncias contidas nos produtos farmacêuticos, e os procuradores federais começaram a levar à justiça as águas minerais que alegavam conter lítio em sua composição1. Em 1910 uma famosa marca de água litiada, a Buffalo Lithia Water, foi levada à justiça para averiguar suas concentrações de lítio, e a Suprema Corte do Distrito de Columbia concluiu que “para uma pessoa obter uma dose terapêutica de lítio bebendo Buffalo Lithia Water, ela teria que beber 150 mil a 225 mil galões de água por dia”4. A Buffalo Lithia Water perdeu o caso e teve que mudar seu nome para Buffalo Mineral Springs Water1. Como a água mineral com lítio “natural” caiu em descrédito por causa de sua concentração incerta de lítio, compostos líquidos e comprimidos de lítio logo apareceram no mercado4. Em 1929 foi lançado o refrigerante Bib-Label Lithiated Lemon-Lime Soda, que depois mudou de nome para 7Up Lithiated Lemon Soda e, finalmente, em 1936 reduziu seu nome simplesmente para “7 Up”, tendo mantido o lítio em sua formulação até 19501.
No início do século XX, tabletes de lítio eram consumidos numa taxa cada vez maior e, com o uso de doses mais altas, a toxicidade do lítio começou a ficar aparente4. Além disso, por volta de 1948, os tabletes e soluções de cloreto de lítio passaram a ser usados como substitutos do sal de cozinha (cloreto de sódio) por pacientes que tinham de restringir o consumo de sal. O cloreto de lítio tem um gosto salgado e agradável, tendo sido amplamente usado nos Estados Unidos ao longo desse ano. Entretanto, devido às altas concentrações de lítio nesses preparados, os problemas logo começaram a surgir. Em fevereiro de 1949 diversos relatos de intoxicação por cloreto de lítio foram publicados no JAMA5–7. Nesse mesmo mês, o FDA alertou a população a “parar imediatamente de ingerir sais de lítio” e, em 19 de fevereiro desse ano, o jornal New York Times publicou uma reportagem com o título “Salt substitute kills 4, AMA says; Food and Drug Administration warns lithium chloride is a ‘dangerous poison’”1. Em fevereiro de 1949 o FDA ordenou a retirada dos sais de lítio do mercado norte-americano1.
Entretanto, no final desse mesmo ano de 1949, a história do lítio iniciaria um novo capítulo. Na edição de 3 de setembro de 1949 da revista The Medical Journal of Australia, John Cade publicou seu artigo seminal descrevendo os efeitos antimaníacos do lítio8. Essa publicação despertou um novo interesse pelo uso terapêutico do lítio9. Charles Noack, um psiquiatra australiano interessado no tratamento sugerido por Cade, começou a estudar o lítio na mania. Noack, juntamente com Edward Trautner, começou a tratar pacientes com mania internados num hospital psiquiátrico em Melbourne, avaliando cuidadosamente quaisquer sinais de intoxicação e relacionando os efeitos colaterais com os níveis séricos de lítio1. Noack e Trautner relataram seus resultados na edição de 18 de agosto de 1951 do Medical Journal of Australia, concluindo que o lítio aliviava os sintomas da mania, e demonstraram que os níveis de lítio poderiam ser monitorados de forma prática, estabelecendo os requisitos fundamentais para o controle do tratamento com o lítio10. O próximo passo para a consolidação do uso do lítio no tratamento do transtorno bipolar foi dado pelo psiquiatra dinamarquês Mogens Schou. Seu irmão mais novo sofria de depressões recorrentes desde os 20 anos de idade, e Schou havia se interessado por medicina justamente para pesquisar tratamentos para os transtornos de humor. Os trabalhos de Cade, Noack e Trautner estimularam Schou a estudar o potencial do lítio no tratamento da mania. Com o objetivo de prover evidências mais sólidas, Schou planejou um ensaio clínico randomizado duplo-cego, um método que havia sido usado na medicina pela primeira vez apenas alguns anos antes (1948). Schou, juntamente com Juel-Nielsen e Voldby, publicou o resultado de sua pesquisa em 1954, concluindo que o lítio tinha um valor terapêutico considerável11. Mas a aceitação do lítio como um tratamento padrão para o transtorno bipolar ainda iria demorar mais duas décadas12. A clorpromazina havia sido lançada em 1952, melhorava os sintomas da mania mais rapidamente que o lítio e não necessitava de monitoramento de níveis séricos. A ascensão do lítio como tratamento padrão das oscilações de humor do transtorno bipolar foi um processo lento. Schou e o psiquiatra dinamarquês Poul Baastrup trabalharam juntos tentando demonstrar que o lítio poderia servir não apenas para tratar a mania aguda, mas como um medicamento profilático para prevenir as recorrências das crises. Em 1967, Schou e Baastrup publicaram os resultados dos seus trabalhos no Archives of General Psychiatry13 e no JAMA14, mostrando o potencial profilático do lítio. Apesar disso, as opiniões sobre o uso do lítio ainda estavam divididas. O gluconato de lítio foi registrado em 1961 na França, o carbonato de lítio em 1966 no Reino Unido, o acetato de lítio em 1967 na Alemanha e o glutamato de lítio em 1970 na Itália15.
Em outubro de 1968 o American Journal of Psychiatry publicou diversos artigos numa seção especial sobre lítio. Em 1969 a Associação Americana de Psiquiatria criou uma força-tarefa sobre lítio para avaliar a eficácia de seu tratamento1.
O FDA aprovou o lítio apenas em 1970, depois de muita pressão para essa aprovação. Foi o 50º país a liberar o lítio para tratamento da mania. Mas foi apenas em 1974 que o FDA aprovou o lítio para o tratamento profilático do transtorno bipolar1.
Estudos de casos
Kanye West — durante um episódio maníaco documentado, o rapper concedeu uma longa entrevista à Forbes; leia os trechos traduzidos em A entrevista de Kanye West à Forbes (2020).
Virginia Woolf — Adeline Virginia Woolf (1882–1941) foi uma escritora, ensaísta e editora britânica, conhecida como uma das mais proeminentes figuras do modernismo (Wikipedia). Em 28 de março de 1941, Woolf vestiu seu casaco, encheu os bolsos com pedras, caminhou em direção ao rio Ouse, perto de sua casa, e se afogou.
Tradução (Wikipedia) da nota de suicídio de Virginia Woolf:
“Querido, tenho certeza de que enlouquecerei novamente. Sinto que não podemos passar por outro daqueles tempos terríveis. E, desta vez, não vou me recuperar. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Por isso estou fazendo o que me parece ser a melhor coisa a fazer. Você tem me dado a maior felicidade possível. Você tem sido, em todos os aspectos, tudo o que alguém poderia ser. Não acho que duas pessoas poderiam ter sido mais felizes, até a chegada dessa terrível doença. Não consigo mais lutar. Sei que estou estragando a sua vida, que sem mim você poderia trabalhar. E você vai, eu sei. Veja que nem sequer consigo escrever isso apropriadamente. Não consigo ler. O que quero dizer é que devo toda a felicidade da minha vida a você. Você tem sido inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer que — todo mundo sabe disso. Se alguém pudesse me salvar, teria sido você. Tudo se foi para mim, menos a certeza da sua bondade. Não posso continuar a estragar a sua vida. Não creio que duas pessoas poderiam ter sido mais felizes do que nós.”
Bilhete de suicídio original:
“Dearest, I feel certain that I am going mad again. I feel we can’t go through another of those terrible times. And I shan’t recover this time. I begin to hear voices, and I can’t concentrate. So I am doing what seems the best thing to do. You have given me the greatest possible happiness. You have been in every way all that anyone could be. I don’t think two people could have been happier till this terrible disease came. I can’t fight it any longer. I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will I know. You see I can’t even write this properly. I can’t read. What I want to say is I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. I want to say that—everybody knows it. If anybody could have saved me it would have been you. Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can’t go on spoiling your life any longer. I don’t think two people could have been happier than we have been.”