Leituras comentadas: a desprescrição de antidepressivos

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Duas reportagens do New York Times e os artigos científicos por trás delas — um mapa comentado do debate sobre como e quando parar um antidepressivo.
NotaSobre este texto

Um mapa comentado da literatura sobre desprescrição de antidepressivos, organizado por tema. Complementa Desprescrever: a farmacologia da retirada e Mais tratamento, melhores resultados?.

Em 2026, duas reportagens do The New York Times colocaram no centro do debate público uma pergunta que a psiquiatria demorou décadas para enfrentar: como — e quando — parar um antidepressivo? Esta página reúne as duas reportagens (com resumo em português, para quem não tem acesso ao jornal) e os principais artigos científicos por trás delas, organizados por tema e com um comentário breve sobre cada um.

Cada item traz um link direto pelo DOI — um clique leva à página do artigo. Os números sobrescritos remetem à lista de referências ao final da página. Os textos estão em inglês; se precisar, use um tradutor ou peça a uma IA um resumo guiado.

NotaComo ler esta lista

Esta não é uma lista de leitura obrigatória: é um mapa do debate. Note que os autores se dividem em dois campos que chegam a conclusões diferentes a partir dos mesmos dados — um exercício raro e valioso de leitura crítica de evidências. O essencial está nos textos de estudo desta aula; venha até aqui quando quiser ir mais fundo.

As duas reportagens do New York Times

“A Generation on Antidepressants Searches for the Exit”

Camille Bromley — The New York Times (Opinion), 7 de agosto de 20261 · Ler no NYT

Resumo em português. O ensaio acompanha Cameron LaBar, medicado com paroxetina aos 9 anos de idade (síndrome de Tourette, TOC e ansiedade) e que, mais de 25 anos depois, tenta sair dos psicotrópicos. A trajetória dele condensa os temas da nossa aula: a explicação do “desequilíbrio químico” que justificava manter o remédio indefinidamente; o embotamento afetivo que ele só reconheceu na vida adulta (“não sei o que é amar”); uma tentativa de parada interpretada como recaída — e que hoje ele entende como abstinência; a descoberta da redução hiperbólica por um vídeo do psiquiatra Mark Horowitz no YouTube, e não pelo seu médico.

A autora situa o caso no quadro maior: o Prozac chegou em 1988, e hoje um em cada seis adultos americanos toma antidepressivo, com mediana de uso em torno de cinco anos e um quarto dos usuários acima de dez — sem que a medicina tenha estudado seriamente o uso de longo prazo e a retirada. Médicos recebem muito mais treinamento para iniciar do que para suspender; pacientes que sofrem na retirada migram para comunidades virtuais de pares (como o fórum Surviving Antidepressants), onde encontram acolhimento e método, mas também discursos que resvalam na antipsiquiatria. O texto descreve ainda a apropriação política do tema pelo movimento MAHA de Robert F. Kennedy Jr., secretário de saúde dos EUA. A conclusão da autora é o argumento mais interessante para o nosso curso: retirar medicamentos com cuidado, em escala, exige mais sistema de saúde, não menos — tempo, vínculo e acompanhamento, justamente o que falta na consulta típica.

“Top Psychiatrists Call for a Greater Focus on Ceasing Medication”

Ellen Barry — The New York Times, 1º de maio de 20262 · Ler no NYT

Resumo em português. A reportagem cobre a publicação, pela força-tarefa da American Society of Clinical Psychopharmacology (ASCP), das primeiras recomendações de consenso sobre desprescrição de psicotrópicos — reunindo 45 psiquiatras liderados por Joseph Goldberg3,4. O documento reconhece problemas estruturais que estudamos nesta aula: faltam ensaios clínicos sobre quando parar; prescrições não são revisadas regularmente; residentes aprendem a prescrever, não a desprescrever; pacientes ficam “estacionados” (parked) em medicamentos que já não são necessários nem eficazes. As recomendações são moderadas: reavaliar cada prescrição ao menos uma vez por ano, suspender o que não funciona, retirar antidepressivos na mania e antipsicóticos em transtornos de humor não psicóticos quando causam ganho de peso importante — mas admitem que alguns pacientes (transtorno bipolar tipo 1, três ou mais episódios depressivos) podem precisar de tratamento indefinido.

A matéria registra as críticas dos dois lados: defensores dos pacientes, como Mark Horowitz e Adele Framer, consideraram as diretrizes tímidas e tardias — e contestaram a afirmação de que fármacos de meia-vida longa “se retiram sozinhos” (auto-taper) —, enquanto a psiquiatria institucional tenta retomar a palavra “desprescrição” dos críticos da área e do movimento MAHA (“nós desprescrevemos o tempo todo, só não falávamos disso”, diz Anita Clayton, presidente da ASCP). A frase que resume o desafio clínico vem de uma psiquiatra que montou um ambulatório-piloto de desprescrição: “é muito mais fácil adicionar um medicamento do que retirar um — é aí que entra a arte.”

Sintomas de retirada: quantos, quais, por quanto tempo

O núcleo da controvérsia científica. Compare as conclusões de Davies & Read5, Henssler6 e Kalfas7 — e a crítica de Moncrieff8 — para ver como escolhas metodológicas (que estudos incluir, por quanto tempo os pacientes usaram o fármaco) mudam a resposta.

  • Davies & Read (2019) — Addictive Behaviors. A revisão que reacendeu o debate: estimou que cerca de metade dos pacientes apresenta sintomas de retirada, quase metade destes com sintomas graves, e questionou diretrizes que descreviam o fenômeno como “leve e autolimitado”. Foi um dos gatilhos para a revisão das recomendações britânicas.5 · Acessar pelo DOI

  • Henssler e cols. (2024) — Lancet Psychiatry. Meta-análise que descontou o efeito nocebo comparando com grupos placebo: cerca de 1 em cada 3 pacientes relata sintomas ao parar, mas só cerca de 1 em 6-7 seria atribuível ao fármaco em si, com quadros graves em torno de 3%. É a leitura “tranquilizadora” do problema.6 · Acessar pelo DOI

  • Kalfas e cols. (2025) — JAMA Psychiatry. Meta-análise restrita a ensaios randomizados: em média, cerca de um sintoma a mais que o placebo na primeira/segunda semana (tontura é o mais discriminativo), abaixo do limiar de significância clínica — concluindo que boa parte do que se relata seria nocebo.7 · Acessar pelo DOI

  • Moncrieff e cols. (2025) — Psychological Medicine. A resposta do outro campo: reanalisa a revisão anterior e argumenta que os ensaios incluídos envolvem uso de curta duração (semanas), e por isso subestimam sistematicamente a retirada em quem usa por anos — que é o paciente real da prática.8 · Acessar pelo DOI

  • Zhang e cols. (2024) — Molecular Psychiatry. Meta-análise de incidência com foco em fatores de risco: tipo de fármaco (meia-vida curta, como paroxetina e venlafaxina, pesa mais), maior tempo de uso e interrupção abrupta. Útil para identificar quem precisa de retirada mais cuidadosa.9 · Acessar pelo DOI

  • Fava e cols. (2015; 2018) — Psychotherapy and Psychosomatics. As revisões clássicas sobre retirada de ISRS e de duais (IRSN), do grupo que propôs abandonar o eufemismo “síndrome de descontinuação” em favor de “síndrome de abstinência” — e que descreveu quadros pós-retirada persistentes.10,11 · ISRS · IRSN

  • Rennwald & Hengartner (2025) — Epidemiology and Psychiatric Sciences. Revisão sistemática sobre a síndrome de abstinência pós-aguda (PAWS): sintomas que persistem meses ou anos após a retirada. Evidência ainda escassa, mas o fenômeno relatado pelos pacientes ganha aqui tratamento formal.12 · Acessar pelo DOI

  • Horowitz e cols. (2023) — CNS Drugs. Tentativa de estimar o risco individual de abstinência a partir dos dados publicados: o risco cresce com a duração do uso — semanas de uso pedem pouco cuidado; anos de uso pedem retirada lenta. Base racional para individualizar o desmame.13 · Acessar pelo DOI

  • Sørensen e cols. (2022) — Journal of Affective Disorders. Revisão de diretrizes clínicas de depressão: a maioria descrevia os sintomas de retirada de forma incompleta ou minimizada, em desacordo com a evidência disponível. Explica por que gerações de médicos aprenderam que “parar é simples”.14 · Acessar pelo DOI

Redução hiperbólica e ocupação do transportador

A base farmacológica do que estudamos em Desprescrever: a farmacologia da retirada: a relação entre dose e ocupação do transportador de serotonina (SERT) não é linear, e por isso a retirada não deve ser linear.

  • Horowitz & Taylor (2019) — Lancet Psychiatry. O artigo seminal, já citado no texto de teoria: como a curva dose-ocupação do SERT é hiperbólica, reduções lineares de dose produzem quedas cada vez maiores de efeito no final — daí a proposta de reduzir em proporções (ex.: 10% da dose anterior), chegando a doses muito baixas antes de parar.15 · Acessar pelo DOI

  • Sørensen e cols. (2022) — Molecular Psychiatry. Revisão sistemática dos estudos de neuroimagem que confirma a relação hiperbólica entre dose e ocupação do SERT para os antidepressivos — o dado empírico por trás da proposta de desmame hiperbólico.16 · Acessar pelo DOI

  • Shapiro (2018) — Psychopharmacology. Nota curta e didática: mesmo doses “subterapêuticas” de ISRS ocupam fração considerável do SERT. É por isso que o salto de uma dose baixa para zero é, em termos de efeito no receptor, o maior degrau de todos.17 · Acessar pelo DOI

  • van Os & Groot (2023) — Therapeutic Advances in Psychopharmacology. Desfechos observacionais do desmame hiperbólico com tapering strips (fitas de doses decrescentes) na Holanda: a maioria dos pacientes — incluindo muitos com tentativas prévias fracassadas — conseguiu completar a retirada. Evidência ainda observacional, mas promissora.18 · Acessar pelo DOI

  • O’Neill e cols. (2026) — Journal of Affective Disorders. Análise farmacocinética in silico de uma prática comum: tomar o comprimido em dias alternados para “desmamar”. Para fármacos de meia-vida curta, isso produz oscilações plasmáticas equivalentes a mini-retiradas abruptas repetidas — ou seja, é uma má estratégia de desmame.19 · Acessar pelo DOI

Parar ou manter? Ensaios de descontinuação e o problema da “recaída”

  • Lewis e cols. (2021) — New England Journal of Medicine (ensaio ANTLER). O grande ensaio randomizado na atenção primária britânica: em 52 semanas, recaída em 56% de quem descontinuou contra 39% de quem manteve. Duas leituras honestas: manter protege; e, ainda assim, quase metade de quem parou ficou bem sem o fármaco. Detalhe crítico: a retirada foi rápida (cerca de 2 meses) — parte das “recaídas” pode ter sido abstinência.20 · Acessar pelo DOI

  • Van Leeuwen e cols. (2021) — Cochrane. A revisão Cochrane sobre descontinuar vs. manter antidepressivos de uso prolongado: evidência de baixa certeza, quase todos os ensaios com retirada abrupta ou rápida e sem distinguir recaída de abstinência — ou seja, a pergunta mais importante da prática ainda não foi bem estudada.21 · Acessar pelo DOI

  • Zaccoletti e cols. (2026) — Lancet Psychiatry. Revisão sistemática com meta-análise em rede comparando estratégias de desprescrição em depressão remitida — o tipo de estudo que faltava: não se parar, mas como parar.22 · Acessar pelo DOI

  • Kendrick e cols. (2024) — JAMA Network Open (ensaio REDUCE). Ensaio randomizado por conglomerados: suporte estruturado por internet e telefone permitiu que mais pacientes de uso prolongado descontinuassem o antidepressivo sem piora da depressão. Mostra que o desmame é viável em escala quando há acompanhamento — o ponto central do ensaio de Bromley.23 · Acessar pelo DOI

Desprescrição: conceito, consenso e prática

  • Gupta & Cahill (2016) — Psychiatric Services. O artigo que trouxe formalmente o conceito de desprescrição (nascido na geriatria) para a psiquiatria: retirar medicamentos também é ato terapêutico, com indicação, técnica e acompanhamento. Leitura curta e fundadora.24 · Acessar pelo DOI

  • Goldberg e cols. (2026) — JAMA Network Open e British Journal of Psychiatry. Os dois documentos da força-tarefa da ASCP noticiados por Ellen Barry: o consenso geral de recomendações e o detalhamento metodológico (Delphi) para transtornos do humor. São a primeira tentativa da psiquiatria institucional americana de normatizar a desprescrição.3,4 · Consenso · Delphi

  • Brisnik e cols. (2024a; 2024b) — BMC Medicine. Um par instrutivo: o primeiro artigo desenvolve indicadores de prescrição de alto risco e sobreprescrição de antidepressivos (método RAND/UCLA); o segundo aplica esses indicadores a bases de dados escocesas e mostra que uma fração substancial dos usuários de longo prazo tem indicação potencial de desprescrição.25,26 · Indicadores · Aplicação

  • Dewar-Haggart e cols. (2025) — PLOS ONE. Por que é tão difícil parar? Estudo longitudinal na atenção primária sobre as intenções dos pacientes: a maioria pretende continuar indefinidamente, e as crenças sobre a depressão e o medicamento predizem essa intenção. Desprescrever começa por conversar sobre crenças.27 · Acessar pelo DOI

A teoria serotoninérgica e o “desequilíbrio químico”

O pano de fundo do ensaio de Bromley: a narrativa que sustentou décadas de uso contínuo. Compare a revisão de Moncrieff28 com a resposta de Jauhar29 — de novo, dois campos lendo a mesma evidência.

  • Moncrieff e cols. (2022/2023) — Molecular Psychiatry. A revisão guarda-chuva: não há evidência consistente de que a depressão seja causada por baixa de serotonina. Não conclui que antidepressivos não funcionem — conclui que o modelo explicativo popular não se sustenta.28 · Acessar pelo DOI

  • Jauhar e cols. (2023) — Molecular Psychiatry. A resposta crítica de peso (“um guarda-chuva furado tem pouco valor”): aponta limitações metodológicas da revisão e defende que o sistema serotoninérgico está, sim, implicado na depressão — ainda que ninguém defenda mais o modelo simplista do “desequilíbrio”.29 · Acessar pelo DOI

  • Ang, Horowitz & Moncrieff (2022) — SSM - Mental Health. O “desequilíbrio químico” foi mesmo só marketing, uma “lenda urbana” que a academia nunca endossou? Este estudo examina a literatura científica e mostra que a hipótese circulou também em textos acadêmicos — a profissão tem sua parcela de responsabilidade.30 · Acessar pelo DOI

  • Lacasse & Leo (2005) — PLoS Medicine. O clássico sobre o descompasso entre a propaganda dos ISRS (“corrige o desequilíbrio químico”) e o que a literatura científica de fato sustentava. Documento histórico da construção comercial da narrativa.31 · Acessar pelo DOI

  • Schroder e cols. (2020) — Journal of Affective Disorders. Por que a narrativa importa: entre pacientes psiquiátricos internados, acreditar que a própria depressão é um “desequilíbrio químico” associou-se a mais pessimismo sobre o prognóstico e a preferência por medicação em vez de psicoterapia. A explicação que damos ao paciente molda o tratamento que ele aceita.32 · Acessar pelo DOI

Embotamento afetivo e disfunção sexual

  • Goodwin e cols. (2017) — Journal of Affective Disorders. Inquérito com pacientes deprimidos em tratamento: cerca de metade relata embotamento afetivo — sentir menos as emoções, boas e ruins. É a queixa central do personagem da reportagem de Bromley.33 · Acessar pelo DOI

  • Peters e cols. (2022) — Journal of Affective Disorders. Análise de três ensaios randomizados comparando embotamento com bupropiona vs. ISRS: ajuda a separar o que é efeito do fármaco do que é sintoma residual da própria depressão — distinção clínica difícil e importante.34 · Acessar pelo DOI

  • Healy & Mangin (2024) — Epidemiology and Psychiatric Sciences. Sobre a disfunção sexual pós-ISRS (PSSD) — persistente após a retirada: por que é tão difícil medir sua incidência (ausência de codificação, constrangimento, atribuição à depressão) e o que isso diz sobre farmacovigilância de danos raros e tardios.35 · Acessar pelo DOI

A voz dos pacientes e as comunidades de pares

Quando a medicina não tem resposta, os pacientes se organizam — tema comum às duas reportagens.

  • Framer (2021) — Therapeutic Advances in Psychopharmacology. A fundadora do fórum Surviving Antidepressants (citada por Ellen Barry) sistematiza o que aprendeu ajudando milhares de pessoas a retirar psicotrópicos. Um documento raro: conhecimento leigo acumulado, publicado em periódico científico.36 · Acessar pelo DOI

  • Hengartner e cols. (2020) — Therapeutic Advances in Psychopharmacology. Análise quantitativa de centenas de relatos de abstinência prolongada postados nesse mesmo fórum: perfil dos sintomas, duração e fármacos envolvidos. Evidência de baixa hierarquia, mas descreve exatamente o que os ensaios curtos não capturam.37 · Acessar pelo DOI

  • Guy e cols. (2020) — Therapeutic Advances in Psychopharmacology. A “voz do paciente”: relatos de pessoas cujos sintomas de retirada foram desconsiderados, ou rotulados como recaída, ou como doença nova — com nova prescrição em cima. O erro diagnóstico central desta aula, contado por quem o sofreu.38 · Acessar pelo DOI

  • Mahmood e cols. (2024) — Health Expectations. Estudo qualitativo com entrevistas em profundidade sobre a experiência vivida da retirada de ISRS: o que os pacientes sentem, como interpretam, o que esperavam dos médicos e não encontraram. Bom contraponto metodológico às meta-análises do início da lista.39 · Acessar pelo DOI

Adaptado do material da aula “Desprescrição” da disciplina de Terapêutica Clínica (UFSJ), do mesmo autor.

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Referências

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Bromley, C. A Generation on Antidepressants Searches for the Exit. The New York Times (Opinion) https://www.nytimes.com/2026/08/07/opinion/antidepressants-ssris-side-effects-drugs-maha.html (2026).
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