Desprescrever: a farmacologia da retirada
Se prescrever exige conhecimento, retirar exige tanto quanto. O corpo se adapta à presença contínua do medicamento, e essa adaptação explica por que a suspensão pode ser difícil — e por que costuma ser mal interpretada.
Adaptação neurobiológica e abstinência
A exposição contínua a um psicotrópico desencadeia mecanismos compensatórios nos receptores. Com o tempo, essas adaptações reduzem o efeito inicial do medicamento (tolerância) e, quando ele é retirado, deixam o sistema temporariamente desregulado — base fisiológica da dependência fisiológica e das síndromes de abstinência.
Os sintomas mais frequentes da retirada dos antidepressivos são resumidos pelo acrônimo FINISH:
| Letra | Sintoma |
|---|---|
| F | Flu-like symptoms — sintomas semelhantes aos da gripe |
| I | Insônia |
| N | Náusea |
| I | Imbalance — alterações do equilíbrio |
| S | Distúrbios sensoriais |
| H | Hyperarousal — agitação, ansiedade, hiperexcitação |
| D | Sintomas depressivos |
Muitos sintomas de abstinência são interpretados, equivocadamente, como recaída da doença — o que contribui para prolongar indefinidamente o tratamento.
Retirada e a curva dose–efeito
A relação entre dose e efeito farmacológico não é linear. Um bom exemplo é a ocupação do SERT (serotonin transporter), a proteína responsável pela recaptação da serotonina e alvo dos ISRS: pequenas doses já ocupam grande parte dos transportadores, e aumentos sucessivos de dose produzem ganhos cada vez menores de ocupação1,2.
Mesmo doses consideradas “subterapêuticas” ainda ocupam fração considerável do transportador — em termos de efeito no receptor, o salto de uma dose baixa para zero é o maior degrau de todos3. Daí a proposta de redução hiperbólica: diminuir a dose em proporções (por exemplo, 10% da dose anterior a cada etapa), chegando a doses muito baixas antes de suspender por completo1.