Anorexia mirabilis, anorexia nervosa e a clorose

Alimentares
História
Santas jejuadoras, mocinhas cloróticas, pacientes de Gull: a recusa alimentar atravessa os séculos mudando de nome, de sentido e de diagnóstico.
NotaSobre este texto

Ensaio histórico sobre as formas que a restrição alimentar severa assumiu ao longo dos séculos — da anorexia mirabilis das santas católicas à clorose e à anorexia nervosa. Base de leitura para a atividade da aula.

Anorexia, do grego an (privação, falta de) e orexis (apetite), é um termo geral usado para se referir a qualquer diminuição do apetite ou aversão à comida1. Já o termo anorexia nervosa se refere a um diagnóstico médico relativamente moderno, surgido por volta do século 19 em referência a situações nas quais a redução do apetite ocorria de forma exagerada e intencional. Em 1868 William W. Gull descreveu uma estranha condição na qual mulheres jovens se recusavam a comer mesmo quando ficaram extremamente emagrecidas. A princípio denominou esse quadro de apepsia hysterica1. Seis anos depois publicou um conjunto revisado sobre essa síndrome e cunhou o termo anorexia nervosa, designação ainda usada ainda hoje na CID-11 e no DSM-5. O termo talvez não tenha sido a melhor escolha, pois na maioria dos casos de anorexia nervosa não há redução do apetite, mas uma redução intencional da ingestão de alimentos. Mas a privação intencional e severa da alimentação já existia bem antes do século 19, em outros cenários e sob outras denominações.

Na Europa medieval, entre os anos de 1200 a 1500, muitas mulheres faziam jejuns prolongados, as vezes ao ponto de recusarem alimentação por vários anos ou décadas. Naquela época isso era considerado um sinal de santidade e a história registra numerosos casos de santas na religião católica que se alimentavam de quase nada. Auto-abnegação virtuosa e jejum têm sido chamados de “holy anorexia” (anorexia sagrada), ”anorexia mirabilis” ou “inedia prodigiosa”. O historiador Rudolph Bell identificou sinais de anorexia em cerca de quase 1/3 das mulheres oficialmente consideradas santas pela igreja católica1. Segundo Bell, entre as santas com comportamento de restrição alimentar estariam Santa Colomba de Rieti, Santa Catarina de Gênova, Santa Verônica Giuliani, Santa Maria Madalena de Pazzi, Santa Fracesca de Ponziani, Santa Clara de Assis e, a mais famosa delas, Santa Catarina de Siena1.

Catarina de Siena, nascida em 1347, ingressou na ordem dominicana e tornou-se muito influente na história da Igreja Católica2. No entanto, Catarina praticou uma dieta alimentar rigorosa durante a maior parte de sua vida adulta, limitando sua dieta a vegetais, água e à eucaristia que ela tomava diariamente. Eram também frequentes as queixas de dores de estômago depois de comer. Nos últimos anos de sua vida, sua recusa alimentar começou a preocupar até mesmo o clero. As ordens de seus superiores para que ela comesse tiveram pouco sucesso2. Comer era um grande sofrimento para Catarina. Ela usava os vômitos como reparação, sendo comum usar uma palha ou outro objeto em sua garganta para provocar o vômito. Seu confessor tentou persuadi-la a se alimentar melhor, mas Catarina continuava insistindo que seu jejum agradava a Deus3. Em Janeiro de 1380 a condição física de Catarina estava bastante deteriorada pela falta de alimentação. Ela não estava se alimentando e não conseguia nem mesmo ingerir líquidos4. Durante os meses seguintes Catarina viveu com imensas dores, sua saúde se agravando a cada dia. Em março de 1380, o padre Bartolomeu relatou que “Ela parecia ter encolhido de tamanho, todos os seus ossos se projetavam para que pudessem ser contados. Sua pele tinha ficado marrom, como se bronzeada pelo sol e aderiu fortemente às suas maçãs do rosto como um pergaminho. Na verdade, ela parecia um esqueleto mumificado. Apenas seus olhos eram os mesmos: ela sorria através deles como sempre fazia”5. No mês seguinte, sua saúde se deteriorou bastante. Ela estava acamada e mal conseguia mover a cabeça e os braços, e suas pernas pareciam paralisadas. Catarina faleceu no dia 29 de abril de 1380, com 33 anos de idade, talvez no último ato de Imitatio Christi¹2,4. Foi canonizada pelo Papa Pio como Santa Catarina em 29 de junho de 1461.

É bastante conhecida também a história de Santa Lidwina, nascida na cidade de Schiedam, Holanda em 1380, tendo falecido em 1433 aos 53 anos de idade. A abstinência alimentar severa de Lidwina foi um dos apectos que mais chamava a atenção em sua vida. No início de sua fase de jejum ela se alimentava um pedacinho de maçã todos os dias. Em seguida, ela reduziu sua ingestão a um pouco de tâmara e vinho aguado com especiarias e açúcar; mais tarde, ela passou deixou de ingerir alimentos sólidos e aceitando apenas água. Durante seus anos finais, seus biógrafos afirmam que se alimentava apenas da hóstia sagrada6.

O fenômenos das santas jejuadoras também teve representantes na América Latina. Nascida em Lima, Peru, em 1586, Santa Rosa de Lima jejuava desde jovem. Depois de ler sobre a vida de Santa Catarina de Siena tomou-a por modelo, jejuando três vezes por semana e praticava severas penitências7. Aos 10 anos de idade só se alimentava, com quantidade ínfimas de pão e água alguns dias da semana; nos outro dias com batatas e ervas8. Aos 15 anos de idade parou de comer carne e passou a se alimentar apenas de pão e água9. Aos vinte anos entrou para o convento e aumentou a severidade e a variedade das penitências, usando sempre uma coroa de espinhos na cabeça e uma cinta de ferro na cintura7. Rosa faleceu em 1617 aos 31 anos de idade e foi canonizada pelo Papa Clemente X em 1671.

A anorexia mirabilis praticamente desapareceu durante a Renascença, quando a igreja passou a considerar o jejum extremo como herético e socialmente perigoso10. Entretanto, o fenômeno do jejum religioso extremo continua a inspirar e atrair multidões ainda no século 20.

Em 1934, na cidade de Rio Pomba da Zona da Mata Mineira, a jovem Floripes Dornelas de Jesus sofreu um acidente que a deixou paraplégica aos 21 anos de idade. Como seu quadro era irreversível, passou a se dedicar a vida religiosa. Com o passar do tempo, foi deixando de se alimentar. Inicialmente passou a recusar medicamentos e alimentos, mas tomava ainda sucos, até que por volta de 1943 resolveu parar de se alimentar11². Passou a ingerir apenas uma hóstia sagrada por dia, entregue pelo vigário da paróquia. Lola, apelido da jovem Floripes, passava os dias orando em frente a um altar em homenagem ao Sagrado Coração de Jesus. Passou a receber romeiros que a visitavam em busca de conselhos e orações. Com o passar dos anos, Lola foi se tornando conhecida. Notícias de graças obtidas, alívio de dores e também curas de doenças começaram a circular pela cidade. Seu nome se tornou popular. Lola faleceu com 85 anos em decorrência de um choque cardiogênico, insuficiência cardíaca congestiva e sobrecarga ventricular. Cerca de 15 mil fiéis de toda a região se deslocaram à cidade de Rio Pomba para acompanhar o cortejo fúnebre e prestar suas homenagens a “Santa Lola”. A crença de que Lola era uma “santa” começou ainda em vida, reforçada à medida que relatos milagrosos vinham à tona. Desde o ano de 2005, a Associação dos Amigos da Causa de Lola (AACL) de Rio Pomba, se mobilizou para buscar provas dos milagres por ela concedidos e vem pleiteando sua canonização12.

Anorexia nervosa e anorexia mirabilis, apesar de compartilharem uma restrição alimentar proposital e severa e o consequente emagrecimento e desnutrição, são fenômenos que ocorrem em contextos sócio-culturais bastante distintos, o que faz vários autores consideraram esses fenômenos entidades bastante diferentes10. A anorexia mirabilis geralmente está associada a práticas ascéticas e penitenciais, como virgindade vitalícia, autoflagelação, dormir em camas de espinhos, crença de que a gula era pecaminosa10. Além disso, as anoréxicas religiosas da antiguidade alcançaram status, prazer e a redenção religiosa de seu por meio de seu sofrimento e imitação de Cristo (Imitatio Christi), permitindo-lhes interagir e ter sucesso em um mundo governado por instituições dominadas por homens2. As mulheres jejuadoras podiam usar o jejum religioso para ter o direito de não exercer os papéis e deveres esperados das mulheres na época ou exercer controle sobre outros, barganhar por abstinência sexual mesmo estando casada, ou até mesmo rejeitar um casamento indesejado. Santas jejuadoras podiam até passar por cima da autoridade dos homens da Igreja, criticar o poder secular ou as autoridades religiosas e assumir o papel de professoras, conselheiras ou reformadoras das normas religiosas9. Já o diagnóstico moderno de anorexia nervosa está associado uma visão distorcida da imagem corporal e a um prejuízo funcional.

Outros autores, entretanto, consideram haver uma certa similaridade nesses dois fenômenos, no qual a restrição sistemática do alimento provoca grave risco à saúde, podendo levar a morte9. Afinal de contas, “ainda que as primeiras almejassem a comunhão eterna com Deus, as últimas se contentam com a glória efêmera das passarelas”9. Seja qual for o objetivo, as pessoas com restrição alimentar intencional e compreendem e dão sentido aos seus sintomas usando símbolos e crenças culturalmente explícitos13.

A restrição alimenta, e suas consequências, em contextos não religiosos poderia suscitar outros diagnósticos na antiguidade. Para alguns autores há uma grande sobreposição nos sintomas da anorexia nervosa e de uma doença conhecida como Clorose14,15. No século 16, uma moça jovem, solteira, com humor irritável, rejeitando alimentação, ou com um controle rigoroso dos alimentos, emagrecida, com medo de engordar, apresentando amenorreia, com a pele pálida, as vezes com náuseas e vômitos provavelmente seria diagnosticada com Clorose14. Por quase 400 anos esse diagnóstico foi usado com frequência, tendo desaparecido no início do século 20. Clorose é um diagnóstico médico no mínimo curioso, tendo passado por diversas interpretações até sua total extinção. Antes de 1750 era denominado de “doença das virgens” ou “febre amatoria” (febre do amor); de 1750 a 1850 foi considerada uma doença da menstruação caracterizada por amenorréia; de 1850 a 1900 foi considerada uma forma de anemia e no período de 1900 a 1920 esse diagnóstico deixou de existir14. A história da clorose é também a história do olhar médico sobre a sexualidade feminina. Em suas descrições iniciais a perda do amor e a virgindade eram aspectos importantes do diagnóstico. Mais tarde, de 1750 a 1850 a “obstrução da menstruação” foi considerada a causa das aflições, baseada na crença de que o sangue menstrual “ruim” era reabsorvido e causada uma série de sintomas físicos e mentais. Com o desenvolvimento da hematologia no século 19 a anemia passou a ser considerada o sintoma mais importante da Clorose, sendo a amenorreia, as alterações mentais e comportamentais apenas consequência da anemia14. Curiosamente, como notou Loudon14, o advento da medicina laboratorial, apesar de esclarecer nossa compreensão de diversas doenças, foi responsável por criar mais confusão no que diz respeito ao entendimento da Clorose.

Para compreender melhor esse fenômeno, precisamos saber não apenas quais os valores e significados são atribuídos a esses comportamentos pelos próprios pacientes, mas também pelos cuidadores e pela sociedade em geral13. Tão importante é o contexto social na construção das doenças que DiNicola16 propõe que “o que é definitivo sobre a auto-inanição é a mudança no plano sócio-cultural: ela determina se o jejum será interpretado em termos religiosos como”anorexia sagrada”, em termos médicos como “clorose”, em termos psiquiátricos como “anorexia nervosa” ou termos políticos como “greve de fome”.

De volta ao topo

Referências

1.
Bell, R. M. Holy Anorexia. (University of Chicago Press, Chicago, 1985).
2.
3.
Rampling, D. Ascetic ideals and anorexia nervosa. J Psychiatr Res 19, 89–94 (1985).
4.
Emling, S. Setting the World on Fire: The Brief, Astonishing Life of St. Catherine of Siena. (St. Martin’s Press, New York, 2016).
5.
Curtayne, A. Saint Catherine of Siena. (TAN Books, Charlotte, NC, 2016).
6.
Bynum, C. W. Fast, Feast, and Flesh: The Religious Significance of Food to Medieval Women. Representations 1–25 (1985) doi:10.2307/2928425.
7.
Weinberg, C. Do ideal ascético ao ideal estético: a evolução histórica da anorexia nervosa. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental 13, 224–237 (2010).
8.
Almeida, V. M. de & Neves, A. K. S. Anorexia santa e anorexia contemporânea: o mesmo transtorno em épocas distintas? Revista Médica de Minas Gerais 22, 348–353 (2012).
9.
Weinberg, C., Cordás, T. A. & Albornoz Munoz, P. Santa Rosa de Lima: uma santa anoréxica na América Latina? Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul 27, 51–56 (2005).
10.
Harris, J. C. Anorexia nervosa and anorexia mirabilis: Miss K. R–and St Catherine Of Siena. JAMA Psychiatry 71, 1212–1213 (2014).
11.
Revista Manchete. Reportagem sobre Floripes Dornelas de Jesus (’Santa Lola’), Rio Pomba, MG. (1957).
12.
Silveira, S. & Elias, C. “Santa Lola”: trajetória social e origem da vocação religiosa da imagem sagrada do interior mineiro. Revista de Ciências Humanas (UFV) 15, 273–292 (2015).
13.
Banks, C. G. ’Culture’ in culture-bound syndromes: the case of anorexia nervosa. Soc Sci Med 34, 867–884 (1992).
14.
Loudon, I. S. Chlorosis, anaemia, and anorexia nervosa. Br Med J 281, 1669–1675 (1980).
15.
Loudon, I. S. The diseases called chlorosis. Psychol Med 14, 27–36 (1984).
16.