A medicalização da vida

Tratamentos
Conceitos
Expansão das fronteiras diagnósticas e disease mongering: os dois mecanismos que transformam experiências comuns em doenças — e prescrições.
NotaSobre este texto

Texto conceitual sobre a patologização da vida cotidiana e o excesso de prescrições. A discussão continua em Mais tratamento, melhores resultados? e em Desprescrever: a farmacologia da retirada.

A cada geração, uma parcela maior da experiência humana comum passa a ser descrita em vocabulário médico — e, com o vocabulário, vêm o diagnóstico, o tratamento e a receita. Esse processo é chamado de medicalização: a tristeza dos lutos, a agitação da infância e a insônia das preocupações deixam de ser lidas como parte da vida e passam a ser lidas como doença. O resultado aparece nas estatísticas de consumo de psicofármacos e nos consultórios de qualquer especialidade.

Dois mecanismos da medicalização

Dois mecanismos ajudam a entender por que isso acontece. O primeiro é a expansão das fronteiras diagnósticas: a cada revisão de manuais e diretrizes, os limiares para se receber um diagnóstico tendem a se afrouxar, e categorias que descreviam quadros graves passam a abarcar manifestações leves e frequentes. O luto que se prolonga, a distração da criança em sala de aula ou a preocupação persistente do adulto deixam de ser lidos como parte do espectro normal da experiência e passam a caber dentro de um rótulo. Quanto mais larga a fronteira, maior o número de pessoas que, da noite para o dia, tornam-se potenciais pacientes.

O segundo mecanismo é o disease mongering — a fabricação ou amplificação deliberada da percepção de doença, muitas vezes impulsionada por interesses comerciais. Campanhas de conscientização, questionários de autoavaliação e a divulgação de “novas síndromes” podem, sob a aparência de cuidado, alargar o mercado de exames, consultas e, sobretudo, medicamentos. O resultado é um ambiente em que reconhecer-se doente parece sempre prudente, e em que o limite entre prevenir o sofrimento e produzir diagnóstico se torna difícil de enxergar. Para o futuro médico, perceber esse pano de fundo é parte da formação de um juízo clínico crítico.

De volta ao topo