Nicholas e a alta contra a orientação médica (Um Filho)
Nicholas, 17 anos, não ia à escola fazia um mês. A mãe, Kate, notara mudanças no comportamento do rapaz e, por isso, o pai, Peter, tem uma conversa com o jovem. Peter está no segundo casamento, com Beth, e o casal acabou de ter um bebê.
Nicholas pede para se mudar para a casa do pai. Peter aceita.
Pouco depois, Peter nota marcas no antebraço de Nicholas, mas não entende o que levaria o filho a se automutilar — afinal, o rapaz tem momentos nos quais “até sorri”.
Nicholas continua faltando às aulas mesmo depois de ir morar com o pai e de trocar de escola. Em uma nova conversa entre os dois, explica que, para ele, a vida é um fardo grande demais para se carregar.
Nicholas tenta o suicídio.
É então internado na ala psiquiátrica de um hospital geral, e os pais são chamados para uma conversa com o psiquiatra assistente, que recomenda que o jovem permaneça internado por mais tempo. Nicholas se enfurece com a aquiescência dos pais em mantê-lo internado.
No caminho de volta para casa, o casal muda de ideia. Retorna ao hospital e assina a alta, contra a orientação do psiquiatra.
Nicholas volta para casa feliz. Faz um café para os pais, e os três combinam de ir ao cinema.
Questões para discussão
- Você concorda com o fato de os pais terem assinado a alta apesar da recomendação do médico assistente?
- Quais os próximos passos a serem tomados pelos pais a respeito do tratamento de Nicholas?
- Antes da tentativa, que sinais de alerta a família percebeu mas minimizou? O que o “até sorri” de Peter revela sobre a compreensão leiga da depressão?
- Diante da recusa dos pais em manter a internação, o psiquiatra está de mãos atadas? O que ele ainda pode (e deve) fazer?
Atenção — o gabarito contém o desfecho do filme. Se a turma ainda vai assistir a Um Filho, discuta as questões antes de abrir este bloco.
A maioria dos clínicos diria não, e com razão: Nicholas acumula os fatores de risco de maior peso para um novo ato — uma tentativa recente (o preditor isolado mais forte de suicídio), autolesão prévia, desesperança verbalizada (“a vida é um fardo”), retraimento e absenteísmo persistentes, adolescência e uma reorganização familiar recente (pai recasado, bebê)1,2. Os pais decidem sob a pressão da raiva do filho, da culpa e do desejo de acreditar na melhora. E o detalhe mais perturbador é justamente a alegria de Nicholas ao voltar para casa: a melhora súbita e inexplicada depois de uma crise é um sinal clássico de alarme, compatível com a tranquilidade de quem tomou uma decisão. No filme, Nicholas se mata com a arma do pai pouco depois de voltar para casa — a arma que a narrativa havia mostrado antes. Dito isso, a discussão não deve se encerrar num “internar sempre”: a internação não é protetora por si só, e o que decide o desfecho é a qualidade da transição para casa. No Brasil, a internação de um adolescente depende do consentimento dos responsáveis (Lei 10.216/20013); se eles recusam e o risco é grave e iminente, o médico documenta a discordância, esgota a negociação e pode acionar o Conselho Tutelar e o Ministério Público, nos termos do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Se a alta acontece mesmo assim, os pais precisam sair do hospital com um plano, não com um alívio. Os componentes: (a) restrição de meios letais — armas de fogo fora de casa (não apenas trancadas), medicamentos sob guarda de um adulto, atenção a janelas e sacadas; (b) supervisão próxima e contínua nos primeiros dias, sem transformar a casa numa vigilância silenciosa — conversar abertamente sobre o risco; (c) plano de segurança escrito com o próprio Nicholas: sinais de alerta pessoais, estratégias de enfrentamento, pessoas e lugares de apoio, contatos de emergência (CVV 188, SAMU 192, UPA/pronto-socorro) e o que fazer para tornar o ambiente seguro4; (d) seguimento precoce: consulta psiquiátrica e psicoterápica agendada antes da alta, idealmente nas primeiras 72 horas e, no máximo, em uma semana — a primeira semana e o primeiro mês após a alta são o período de risco mais alto; (e) tratamento de fato — psicoterapia e avaliação de antidepressivo, com monitoramento próximo em adolescente; (f) envolver a escola e alinhar os três adultos (Peter, Kate e Beth) num mesmo discurso; (g) reconhecer a própria ambivalência: pais que oscilam entre “manter internado” e “assinar a alta” no mesmo trajeto de carro precisam de apoio também.
O absenteísmo de um mês já era, por si, um sinal de sofrimento significativo; a mudança de comportamento notada pela mãe, o pedido de mudar de casa (um pedido de ajuda disfarçado de solução) e as marcas de autolesão vieram em seguida. A autolesão não é sinônimo de tentativa de suicídio, mas é um dos fatores de risco mais consistentes para ela. O “até sorri” expressa a ideia leiga de que depressão é tristeza contínua e visível: na verdade, o humor deprimido oscila, e o adolescente pode sorrir, brincar e, ao mesmo tempo, considerar a vida insuportável. A troca de escola, o afeto do pai e a nova casa foram tratados como tratamento — e não o são.
Não está de mãos atadas. Pode: insistir na conversa com os pais em separado do paciente, nomeando o risco com clareza; negociar alternativas intermediárias (alta programada em alguns dias, licença terapêutica de fim de semana com retorno garantido, hospital-dia ou acompanhamento intensivo em CAPS); documentar a discordância e colher termo de responsabilidade; não deixar sair sem consulta de retorno marcada e sem orientação explícita sobre armas e medicamentos; fazer contato telefônico nos dias seguintes; e, se avaliar risco iminente e os pais persistirem, acionar o Conselho Tutelar e o Ministério Público. A alta contra a orientação médica não encerra a responsabilidade do médico pelo que acontece na transição.
Gabarito redigido pelo assistente com base no enredo do filme e nas referências citadas — revisão do professor recomendada, sobretudo nos aspectos legais da questão 1.
Caso elaborado a partir do enredo do filme Um Filho (The Son, 2022), dirigido por Florian Zeller e baseado em sua peça Le Fils (2018). Veja a ficha do filme em Filmes e Mídia Recomendados e a atividade Plano terapêutico após uma tentativa de suicídio.