Nicholas e a alta contra a orientação médica (Um Filho)

Urgências
Caso literário
Nicholas, 17 anos, deixa de ir à escola, se automutila e tenta o suicídio. Internado, os pais assinam a alta contra a recomendação do psiquiatra — baseado no filme Um Filho (The Son, 2022).
NotaFicha do caso
  • Diagnóstico: Episódio depressivo grave na adolescência, com autolesão e tentativa de suicídio
  • Caso de ficção: Nicholas, protagonista de Um Filho (The Son, 2022), de Florian Zeller, a partir de sua peça Le Fils (2018)
  • Idade: 17 anos
  • Contexto: pais separados; o pai, Peter, está no segundo casamento e tem um bebê recém-nascido
DicaObjetivos de aprendizagem
  • Reconhecer sinais de alerta de risco de suicídio na adolescência (absenteísmo escolar, autolesão, desesperança, retraimento)
  • Avaliar o risco após uma tentativa de suicídio e discutir os critérios para manter ou encerrar uma internação
  • Discutir a alta a pedido da família contra a orientação médica: autonomia dos responsáveis, dever do médico e marco legal brasileiro
  • Identificar a “melhora súbita” após a decisão de alta como possível sinal de alarme, e não de resolução
  • Planejar a transição do hospital para casa: plano de segurança, restrição de meios letais, supervisão e seguimento precoce

Nicholas, 17 anos, não ia à escola fazia um mês. A mãe, Kate, notara mudanças no comportamento do rapaz e, por isso, o pai, Peter, tem uma conversa com o jovem. Peter está no segundo casamento, com Beth, e o casal acabou de ter um bebê.

Nicholas pede para se mudar para a casa do pai. Peter aceita.

Pouco depois, Peter nota marcas no antebraço de Nicholas, mas não entende o que levaria o filho a se automutilar — afinal, o rapaz tem momentos nos quais “até sorri”.

Nicholas continua faltando às aulas mesmo depois de ir morar com o pai e de trocar de escola. Em uma nova conversa entre os dois, explica que, para ele, a vida é um fardo grande demais para se carregar.

Nicholas tenta o suicídio.

É então internado na ala psiquiátrica de um hospital geral, e os pais são chamados para uma conversa com o psiquiatra assistente, que recomenda que o jovem permaneça internado por mais tempo. Nicholas se enfurece com a aquiescência dos pais em mantê-lo internado.

No caminho de volta para casa, o casal muda de ideia. Retorna ao hospital e assina a alta, contra a orientação do psiquiatra.

Nicholas volta para casa feliz. Faz um café para os pais, e os três combinam de ir ao cinema.

Questões para discussão

  1. Você concorda com o fato de os pais terem assinado a alta apesar da recomendação do médico assistente?
  2. Quais os próximos passos a serem tomados pelos pais a respeito do tratamento de Nicholas?
  3. Antes da tentativa, que sinais de alerta a família percebeu mas minimizou? O que o “até sorri” de Peter revela sobre a compreensão leiga da depressão?
  4. Diante da recusa dos pais em manter a internação, o psiquiatra está de mãos atadas? O que ele ainda pode (e deve) fazer?

Atenção — o gabarito contém o desfecho do filme. Se a turma ainda vai assistir a Um Filho, discuta as questões antes de abrir este bloco.

  1. A maioria dos clínicos diria não, e com razão: Nicholas acumula os fatores de risco de maior peso para um novo ato — uma tentativa recente (o preditor isolado mais forte de suicídio), autolesão prévia, desesperança verbalizada (“a vida é um fardo”), retraimento e absenteísmo persistentes, adolescência e uma reorganização familiar recente (pai recasado, bebê)1,2. Os pais decidem sob a pressão da raiva do filho, da culpa e do desejo de acreditar na melhora. E o detalhe mais perturbador é justamente a alegria de Nicholas ao voltar para casa: a melhora súbita e inexplicada depois de uma crise é um sinal clássico de alarme, compatível com a tranquilidade de quem tomou uma decisão. No filme, Nicholas se mata com a arma do pai pouco depois de voltar para casa — a arma que a narrativa havia mostrado antes. Dito isso, a discussão não deve se encerrar num “internar sempre”: a internação não é protetora por si só, e o que decide o desfecho é a qualidade da transição para casa. No Brasil, a internação de um adolescente depende do consentimento dos responsáveis (Lei 10.216/20013); se eles recusam e o risco é grave e iminente, o médico documenta a discordância, esgota a negociação e pode acionar o Conselho Tutelar e o Ministério Público, nos termos do Estatuto da Criança e do Adolescente.

  2. Se a alta acontece mesmo assim, os pais precisam sair do hospital com um plano, não com um alívio. Os componentes: (a) restrição de meios letais — armas de fogo fora de casa (não apenas trancadas), medicamentos sob guarda de um adulto, atenção a janelas e sacadas; (b) supervisão próxima e contínua nos primeiros dias, sem transformar a casa numa vigilância silenciosa — conversar abertamente sobre o risco; (c) plano de segurança escrito com o próprio Nicholas: sinais de alerta pessoais, estratégias de enfrentamento, pessoas e lugares de apoio, contatos de emergência (CVV 188, SAMU 192, UPA/pronto-socorro) e o que fazer para tornar o ambiente seguro4; (d) seguimento precoce: consulta psiquiátrica e psicoterápica agendada antes da alta, idealmente nas primeiras 72 horas e, no máximo, em uma semana — a primeira semana e o primeiro mês após a alta são o período de risco mais alto; (e) tratamento de fato — psicoterapia e avaliação de antidepressivo, com monitoramento próximo em adolescente; (f) envolver a escola e alinhar os três adultos (Peter, Kate e Beth) num mesmo discurso; (g) reconhecer a própria ambivalência: pais que oscilam entre “manter internado” e “assinar a alta” no mesmo trajeto de carro precisam de apoio também.

  3. O absenteísmo de um mês já era, por si, um sinal de sofrimento significativo; a mudança de comportamento notada pela mãe, o pedido de mudar de casa (um pedido de ajuda disfarçado de solução) e as marcas de autolesão vieram em seguida. A autolesão não é sinônimo de tentativa de suicídio, mas é um dos fatores de risco mais consistentes para ela. O “até sorri” expressa a ideia leiga de que depressão é tristeza contínua e visível: na verdade, o humor deprimido oscila, e o adolescente pode sorrir, brincar e, ao mesmo tempo, considerar a vida insuportável. A troca de escola, o afeto do pai e a nova casa foram tratados como tratamento — e não o são.

  4. Não está de mãos atadas. Pode: insistir na conversa com os pais em separado do paciente, nomeando o risco com clareza; negociar alternativas intermediárias (alta programada em alguns dias, licença terapêutica de fim de semana com retorno garantido, hospital-dia ou acompanhamento intensivo em CAPS); documentar a discordância e colher termo de responsabilidade; não deixar sair sem consulta de retorno marcada e sem orientação explícita sobre armas e medicamentos; fazer contato telefônico nos dias seguintes; e, se avaliar risco iminente e os pais persistirem, acionar o Conselho Tutelar e o Ministério Público. A alta contra a orientação médica não encerra a responsabilidade do médico pelo que acontece na transição.

Gabarito redigido pelo assistente com base no enredo do filme e nas referências citadas — revisão do professor recomendada, sobretudo nos aspectos legais da questão 1.

Caso elaborado a partir do enredo do filme Um Filho (The Son, 2022), dirigido por Florian Zeller e baseado em sua peça Le Fils (2018). Veja a ficha do filme em Filmes e Mídia Recomendados e a atividade Plano terapêutico após uma tentativa de suicídio.

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Referências

1.
Associação Brasileira de Psiquiatria & Conselho Federal de Medicina. Suicídio: informando para prevenir. (Conselho Federal de Medicina / Associação Brasileira de Psiquiatria, Brasília, 2014).
2.
Botega, N. J. Crise suicida: avaliação e manejo. (Artmed, Porto Alegre, 2015).
3.
4.
Stanley, B. & Brown, G. K. Safety Planning Intervention: A Brief Intervention to Mitigate Suicide Risk. Cognitive and Behavioral Practice 19, 256–264 (2012).