Estamira
2004
Sinopse
O documentário retrata Estamira, uma mulher de mais de 60 anos com esquizofrenia que trabalhou por cerca de duas décadas no aterro de Jardim Gramacho, que recebia o lixo do Rio de Janeiro. As filmagens começam em 2000, quando ela inicia tratamento num serviço psiquiátrico público, e acompanham durante anos seu discurso delirante e filosófico, a relação com os filhos e as mudanças com a medicação. O filme ganhou prêmios em Karlovy Vary, no FIDMarseille e no Festival do Rio, entre outros.
Comentário
O documentário acompanha um caso real por vários anos, com delírios místicos e de grandeza, neologismos e discurso desorganizado com momentos de lucidez. Em Psicoses, as falas de Estamira servem para exercitar a construção do sistema delirante descrita por Klaus Conrad1,2 e a procura dos sintomas de primeira ordem de Schneider. A relação ambivalente dela com os remédios e com o serviço de saúde liga o filme às questões sobre efeitos colaterais e adesão.
Em Introdução, serve à questão sobre as causas espirituais das doenças mentais. Um dos filhos, religioso, atribui o quadro a causas espirituais, e o filme deixa ver o peso da pobreza, da violência e do trabalho no lixo. Isso permite discutir os modelos leigos de causalidade e os determinantes sociais.
O filme dura cerca de duas horas, tem tom contemplativo e pode ser exibido em trechos. A estética às vezes valoriza a “sabedoria da loucura”, o que pode ser debatido. Estamira morreu em 2011, de septicemia, depois de esperar atendimento num hospital público, dado que entra na discussão sobre o acesso à saúde.
