Associação na primeira infância e aversão sexual: Westermarck, Wolf e a crítica a Freud
Criados para casar, criados para não desejar
Há um arranjo de casamento, documentado em várias culturas, que funciona como um experimento natural. Nele, uma menina é entregue ainda bebê à família do futuro marido e criada ao lado dele, como se fossem irmãos, para que se casem quando adultos. Se a convivência alimentasse a atração, esses casamentos seriam mais estáveis; ocorre o inverso: fracassam mais do que os demais. Essa constatação está no centro de um longo debate nas ciências humanas sobre por que existe o tabu do incesto — e opõe duas explicações, a de Edward Westermarck e a de Sigmund Freud.
A hipótese de Westermarck
Edward Westermarck (1862–1939), sociólogo e filósofo finlandês, formulou sua hipótese em The History of Human Marriage, de 18911. Ele sustentou a tese com um extenso levantamento comparativo e etnográfico, compilando relatos sobre casamento, parentesco e regras de evitação em numerosas sociedades — no estilo comparativo que dominava a antropologia do período. O que lhe faltou foram dados demográficos que permitissem testar a ideia.
A tese tem três elementos. Primeiro, um mecanismo psicológico: a convivência doméstica próxima e contínua durante a primeira infância produz indiferença ou aversão sexual mútua entre as pessoas envolvidas — independentemente de haver laço de sangue. É a proximidade precoce, e não o parentesco biológico em si, que dispara a aversão. Segundo, a origem do tabu: como quem cresce junto normalmente são parentes próximos, essa aversão recai sobre eles, e os costumes e leis contra o incesto seriam a expressão social desse sentimento. Terceiro, uma base evolutiva: influenciado por Darwin, Westermarck propôs que a aversão foi favorecida pela seleção natural porque a endogamia próxima reduz a viabilidade da prole.
A prova de Arthur Wolf: os casamentos sim-pua de Taiwan
O antropólogo Arthur P. Wolf (1932–2015), de Stanford, realizou décadas depois a pesquisa empírica que tenta fundamentar a tese de Westermarck. Os registros domiciliares detalhados do norte de Taiwan, referentes ao período de 1845 a 1945, constituíam um experimento natural. No costume do casamento por adoção menor — o sim-pua (媳婦仔), literalmente “nora-criança” — a futura esposa era adotada ainda bebê pela família do noivo e criada junto com ele desde a mais tenra infância.
O raciocínio era que se Westermarck estivesse certo, os casamentos sim-pua deveriam fracassar mais do que os casamentos “maiores”, em que os noivos só se conheciam adultos. Foi exatamente o que os dados mostraram — mais divórcio, mais adultério e menor fecundidade nos casamentos por adoção menor. A convivência precoce reduzia a atração em vez de aumentá-la. Wolf apresentou o argumento em uma série de artigos no American Anthropologist2–4 e o consolidou na monografia demográfica escrita com Chieh-shan Huang5 e, sobretudo, no livro-síntese Sexual Attraction and Childhood Association6. Wolf sintetizou o próprio programa no artigo de revisão “Westermarck Redivivus”, em que argumenta ter dado sustentação empírica a uma tese antes desacreditada7; o balanço do campo ao virar do século foi reunido no volume que editou com William Durham8.
A evidência dos kibutzim
Um segundo experimento natural reforçou a tese a partir de um contexto cultural distinto. Nos kibutzim israelenses, crianças eram criadas em grupos comunais, em contato íntimo e contínuo desde bebês, sem serem parentes. Melford Spiro notou o padrão ao discutir a estrutura familiar do kibutz9, e Yonina Talmon documentou de forma sistemática a seleção de cônjuges nesses assentamentos10: os jovens criados juntos no mesmo grupo quase nunca se casavam entre si. Joseph Shepher quantificou o fenômeno — praticamente nenhum casamento entre membros do mesmo grupo de criação — e o interpretou como “imprinting negativo”11, desenvolvendo em seguida uma teoria biossocial completa12. Como os coabitantes não eram parentes, o caso isola a variável relevante: a aversão acompanha a convivência precoce, não a consanguinidade.
O avesso de Freud
A tese de Westermarck se opõe frontalmente à explicação freudiana. Em Totem e Tabu, de 1913, Freud parte da premissa inversa: o desejo sexual pelos membros próximos da família é primário e intenso — o complexo de Édipo. Como a atração intrafamiliar seria forte e perigosa, a cultura precisaria de uma proibição poderosa para contê-la. Para Freud, a existência do tabu é a prova de que o desejo existe: não se proíbe aquilo que ninguém deseja fazer.
Westermarck sustenta o oposto. Não há desejo primário a reprimir; a convivência precoce já produz aversão. O tabu não conteria um impulso incestuoso — apenas ratificaria em lei um sentimento que a maioria já tem espontaneamente. A objeção clássica a Westermarck, vinda de Frazer e depois dos antropólogos sociais, é que uma aversão instintiva tornaria a proibição redundante: por que proibir por lei o que ninguém quer fazer? Essa objeção, ironicamente, ecoa o próprio raciocínio de Freud. A resposta de Wolf é que a aversão individual e a regra social operam em níveis distintos — o tabu tem funções morais e de organização social, como definir grupos e regular alianças, que excedem o sentimento individual de repulsa6.
O que a pesquisa posterior mostrou
Testes independentes ampliaram o alcance da hipótese. Justine McCabe analisou o casamento com a filha do irmão do pai no Líbano e encontrou o mesmo padrão de baixa fecundidade e alto divórcio quando os cônjuges haviam sido criados juntos13. Irene Bevc e Irwin Silverman mostraram, em amostras ocidentais, que a separação precoce entre irmãos se associa a maior probabilidade de contato sexual posterior — e a proximidade íntima, ao contrário14,15. A psicologia evolutiva forneceu o mecanismo cognitivo: Debra Lieberman, John Tooby e Leda Cosmides demonstraram que a duração da co-residência na infância prediz tanto a aversão sexual quanto a intensidade da condenação moral do incesto de terceiros16, e propuseram um modelo de “detecção de parentesco” em que a co-residência precoce é uma das pistas usadas pela mente17. Daniel Fessler e C. David Navarrete encontraram evidência convergente nas atitudes de terceiros18.
Debates e reanálises
A tese não é consenso. Gregory Leavitt contestou a força das evidências sociobiológicas da evitação do incesto e as inferências causais delas extraídas19. As resenhas do livro de 1995 de Wolf oscilaram entre o entusiasmo — Debra Lieberman e Donald Symons saudaram a passagem “de Westermarck a Wolf”20 — e a cautela, como na de Göran Aijmer21. A crítica mais substantiva veio de Eran Shor e Dalit Simchai, que reanalisaram o caso dos kibutzim e argumentaram que a ausência de atração observada não implica necessariamente uma aversão ativa geneticamente programada: a socialização, a familiaridade e a falta de “novidade” bastariam para explicar o padrão22.
Há hoje consenso sobre o fato, mas não sobre a causa. A redução da atração sexual entre indivíduos que coabitam desde a primeira infância está bem estabelecida empiricamente, e nesse ponto os dados favorecem Westermarck sobre Freud. Permanece em disputa o mecanismo: uma disposição selecionada pela evolução ou um efeito da familiaridade adquirida na convivência. As duas hipóteses, no entanto, convergem contra Freud — o incesto próximo é evitado não porque uma norma reprime um desejo intenso, mas porque, na maioria dos casos, tal desejo não se forma.