“Você é obrigado a me prescrever”

Substâncias
Clínica
Alprazolam, zolpidem, pregabalina, quetiapina e clorpromazina para dormir — e um processo na justiça contra quem se recusou a renovar a receita.
NotaSobre este texto

Vinheta clínica de um posto de saúde: a escalada de uma paciente em uso abusivo de medicações e o dilema ético-legal da equipe que se recusa a prescrever. Discuta: o que você faria em cada etapa?

Uma paciente do sexo feminino, 38 anos de idade, solteira, balconista em loja comparece ao posto de saúde solicitando uma renovação de uma receita para insônia. A paciente trazia receitas antigas do seu psiquiatra, indicando uso de ALPRAZOLAM 4mg/noite, QUETIAPINA 300mg/noite, ZOLPIDEM 10mg/noite, PREGABALINA 300mg/noite e CLORPROMAZINA 100mg/noite. O médico do posto de saúde, apesar de não concordar com a receita, pois achou exagerado, renovou as prescrições para mais 30 dias.

Uma semana depois a paciente retornou ao posto de saúde solicitando novas prescrições. A equipe de saúde consultou o prontuário e verificou que há uma semana atrás a paciente havia feito essa mesma requisição. O médico então se recusou a fazer uma nova prescrição. A paciente se tornou beligerante, passou a acusar a equipe médica de não estarem realizando seu trabalho, ameaçou chamar a polícia para prestar queixa, ameaçou fazer um boletim de ocorrência e levar o médico na justiça.

Algumas semanas depois a equipe médica tomou conhecimento de que a paciente havia sido internada numa clínica de dependência química devido a uso abusivo de medicações. Alguns meses depois a paciente retorna ao posto de saúde, com a receita da clínica: ALPRAZOLAM 4mg/noite, QUETIAPINA 600mg/noite, ZOLPIDEM 10mg/noite, PREGABALINA 300mg/noite e CLORPROMAZINA 200mg/noite. A paciente refere estar ainda com insônia apesar das medicações e alega que só consegue dormir quando aumenta a dose de ZOLPIDEM para 20mg de noite, o que tem feito na última semana. Mais uma vez exige do médico a prescrição das medicações e ameaça chamar a polícia caso a prescrição não seja feita. A equipe de saúde resolveu que seria melhor realmente fazer o boletim de ocorrência e não renovou a prescrição.

Ao longo dos meses subsequentes a paciente passou a voltar na consulta, dessa vez com receita de canabinóide, além das medicações anteriores, prescrita por um médico psiquiatra de outro estado e um atestado médico de que ela necessita do uso continuado dessas medicações para seu tratamento. Tendo seu pedido de receita negado no posto de saúde, a paciente entrou na justiça com um mandado de segurança para exigir a medicação que alegava necessitar. Diante de um atestado médico indicando a necessidade do tratamento, seu pedido foi aceito pelo juiz. A equipe do posto de saúde está agora enfrentando um processo na justiça por ter se recusado a renovar a receita da paciente.

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