Somatização na cultura médica ocidental

Somatoformes
História
De Stekel à CID-11: um século de tentativas de nomear o sofrimento que se apresenta no corpo — e por que a categoria acabou abolida.
NotaSobre este texto

Ensaio histórico-conceitual sobre o conceito de somatização e suas reclassificações, da CID-6 à CID-11. É a base da discussão da aula sobre o conceito de somatização.

A relação entre emoções, paixões e sintomas no corpo tem intrigado filósofos e médicos há milhares de anos. Entretanto, a criação de um ramo da medicina dedicado ao estudo dessa relação é bastante recente. O termo “psicossomático”, apesar de aparecer na literatura de forma esparsa ao longo do século 19, só começou realmente a fazer parte do léxico médico no século 201. É atribuído ao psicanalista Wilhelm Stekel (1868–1940) o primeiro uso do termo “somatização” para descrever a situação na qual problemas emocionais poderiam causar sintomas físicos2. Por volta de 1925 vários autores começam a propor que fatores psicológicos podem ser as causas de várias doenças1. E, em meados do século 20, era usual entender “reações de somatização” como uma expressão inconsciente da ansiedade no corpo3.

A fundamentação teórica para os transtornos “somáticos” é que “fenômenos mentais” são capazes de influenciar o funcionamento e a fisiologia do corpo e a própria experiência do corpo4.

A partir daí começou a ser construída uma nova terminologia para se referir às causas psicológicas das doenças: causas psicogênicas, psicológicas, emocionais, traumáticas. Consequentemente, começaram a surgir novas classes diagnósticas: neuroses, problemas psicossomáticos, dissociativos, conversivos, funcionais, não orgânicos etc.5. Entretanto, é enorme a falta de consenso e de entendimento sobre esses fenômenos, o que se reflete na confusão terminológica e nas constantes mudanças na forma como esses quadros são classificados.

A CID-6, de 1948, e a CID-7, de 1955, tinham um capítulo de transtornos psiconeuróticos com diversas categorias, tais como “psiconeuroses com sintomas somáticos (somatização) afetando o sistema circulatório”, “psiconeuroses com sintomas somáticos (somatização) afetando o sistema digestivo”, “psiconeuroses com sintomas somáticos (somatização) afetando outros sistemas”, reações histéricas sem sintomas somáticos, reações hipocondríacas, despersonalização, reações astênicas, entre outros.

A CID-8, de 1965, mudou o nome desse capítulo para “Neuroses” e resumiu todos os outros quadros de somatização em apenas um diagnóstico: Physical disorders of presumably psychogenic origin.

A CID-9, publicada em 1978, trouxe mudanças radicais. Foi a primeira vez em que os diagnósticos psiquiátricos passaram a ter uma descrição e um guia para os médicos, pois antes a CID continha apenas uma lista de termos. Esse glossário se tornou necessário, pois os diversos termos diagnósticos tinham conceitos diferentes dependendo da formação do psiquiatra6. A CID-9 agrupou diversos diagnósticos na categoria dos transtornos “neuróticos”, incluindo histeria (que por sua vez incluía conversão histérica, reação conversiva, reação dissociativa), além de neurastenia, hipocondria, entre outros.

Em 1980, quando o DSM-III foi publicado, o termo histeria foi deletado do jargão psiquiátrico norte-americano. A nomenclatura psiquiátrica deixava de lado suas origens psicanalíticas e abraçava um modelo categorial, influenciando a próxima edição da CID-10.

A CID-10, publicada em 1994 e vigente até 2021, mudou o nome dos “transtornos conversivos” para “transtornos dissociativos”, criou uma categoria de “transtornos somatoformes” e eliminou os termos “histeria” e “neurastenia”. O conceito de “transtornos dissociativos” era usado para identificar um grupo de pacientes que sofrem de sintomas neurológicos cuja causa clínica não foi encontrada e que, supostamente, têm uma “origem psicogênica”. O termo “transtornos somatoformes”, por sua vez, era usado para descrever situações nas quais a principal característica é a “apresentação repetida de sintomas físicos, juntamente com pedidos persistentes de investigações médicas, apesar de repetidos achados negativos e garantias por parte dos médicos de que os sintomas não têm base física”.

Entretanto, definir como critério de um diagnóstico a falta de explicação clínica para os sintomas é um problema conceitual grave. Afinal de contas, inexplicado não significa que não haja explicação, mas apenas que não conseguimos explicar no momento. Nada impede que num outro momento os sintomas encontrem alguma explicação e, portanto, o diagnóstico inicial se mostre equivocado. Numa revisão de casos conduzida em 1951 por Tissenbaum e Harter, 13,4% dos casos diagnosticados com transtornos psiquiátricos (somatização, dissociação, neuroses, histerias) tiveram seus sintomas posteriormente explicados por doenças neurológicas diversas7. É perfeitamente plausível que várias dessas queixas “sem explicação” sejam sintomas prodrômicos inespecíficos de diversas doenças, tais como esclerose múltipla, lúpus eritematoso sistêmico, viroses etc.

Devido a essa questão conceitual falha, a CID-11 optou por abolir a categoria de transtornos somatoformes, substituindo-a por outra classe diagnóstica, conceitualmente parecida, mas baseada em dados positivos e não na ausência de explicação clínica: a classe dos “transtornos do incômodo do corpo ou da experiência do corpo” (Disorders of bodily distress or bodily experience), cuja característica fundamental são “sintomas corporais que o indivíduo considera angustiantes e aos quais é direcionada atenção excessiva”, e/ou “uma perturbação na experiência do corpo da pessoa manifestada pelo desejo persistente de ter uma deficiência física específica acompanhada de desconforto persistente ou sentimentos intensos de inadequação em relação à configuração corporal atual não deficiente”8. Além disso, a CID-11 optou por não utilizar o termo “somático” ou “somatoforme” em sua nomenclatura devido à conotação pejorativa associada a esse termo na prática clínica9.

Leituras sugeridas

  • Gureje & Reed, Bodily distress disorder in ICD-11: problems and prospects9.
  • North, The Classification of Hysteria and Related Disorders: Historical and Phenomenological Considerations10.
  • Fabrega, The concept of somatization as a cultural and historical product of Western medicine4.
  • Moldovan e cols., Evolution of Psychosomatic Diagnosis in DSM11.
  • Rief & Isaac, The Future of Somatoform Disorders: Somatic Symptom Disorder, Bodily Distress Disorder or Functional Syndromes?12.
  • Scull, Hysteria: The Biography13.
  • Fortes, Tófoli & Gask, New Categories of Bodily Stress Syndrome and Bodily Distress Disorder in ICD-1114.
  • van der Feltz-Cornelis & van Dyck, The Notion of Somatization: An Artefact of the Conceptualization of Body and Mind15.
  • Gureje, Psychiatric Aspects of Pain16.
  • de Greck, Somatization and Bodily Distress Disorder17.
  • De Gucht & Fischler, Somatization: A Critical Review of Conceptual and Methodological Issues18.
  • Voigt e cols., Towards Positive Diagnostic Criteria: A Systematic Review of Somatoform Disorder Diagnoses19.
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Referências

1.
Lipowski, Z. J. What Does the Word "Psychosomatic" Really Mean? A Historical and Semantic Inquiry. em Psychosomatic Medicine and Liaison Psychiatry: Selected Papers 119–137 (Plenum Press, New York, 1985). doi:10.1007/978-1-4613-2509-3_7.
2.
Lipowski, Z. J. Somatization: the concept and its clinical application. Am J Psychiatry 145, 1358–1368 (1988).
3.
Menninger, W. C. Psychosomatic medicine; somatization reactions. Psychosom Med 9, 92–97 (1947).
4.
5.
Edwards, M. J., Stone, J. & Lang, A. E. From psychogenic movement disorder to functional movement disorder: it’s time to change the name. Mov Disord 29, 849–852 (2014).
6.
Kramer, M., Sartorius, N., Jablensky, A. & Gulbinat, W. The ICD-9 classification of mental disorders. A review of its development and contents. Acta Psychiatr Scand 59, 241–262 (1979).
7.
Tissenbaum, M. J., Harter, H. M. & Friedman, A. P. Organic neurological syndromes diagnosed as functional disorders. J Am Med Assoc 147, 1519–1521 (1951).
8.
9.
Gureje, O. & Reed, G. M. Bodily distress disorder in ICD-11: problems and prospects. World Psychiatry 15, 291–292 (2016).
10.
11.
Moldovan, R., Radu, M., Baban, A. & Dumitrascu, D. L. Evolution of Psychosomatic Diagnosis in DSM: Historical Perspectives and New Development for Internists. Romanian Journal of Internal Medicine 53, 27–32 (2015).
12.
13.
Scull, A. Hysteria: The Biography. (Oxford University Press, Oxford; New York, 2009).
14.
Fortes, S., Tófoli, L. F. & Gask, L. New Categories of Bodily Stress Syndrome and Bodily Distress Disorder in ICD-11. Jornal Brasileiro de Psiquiatria 67, 211–212 (2018).
15.
Feltz-Cornelis, C. M. van der & Dyck, R. van. The Notion of Somatization: An Artefact of the Conceptualization of Body and Mind. Psychotherapy and Psychosomatics 66, 117–127 (1997).
16.
Gureje, O. Psychiatric Aspects of Pain. Current Opinion in Psychiatry 20, 42–46 (2007).
17.
Greck, M. de. Somatization and Bodily Distress Disorder. em Neuropsychodynamic Psychiatry 319–334 (Springer, 2018).
18.
De Gucht, V. & Fischler, B. Somatization: A Critical Review of Conceptual and Methodological Issues. Psychosomatics 43, 1–9 (2002).
19.
Voigt, K. et al. Towards Positive Diagnostic Criteria: A Systematic Review of Somatoform Disorder Diagnoses and Suggestions for Future Classification. Journal of Psychosomatic Research 68, 403–414 (2010).