Oliver Sacks: neurossífilis, mania e criatividade
PÓS-ESCRITO
Muito recentemente (janeiro de 1985) encontrei alguns desses mesmos dilemas e ironias no caso de outro paciente (Miguel O.), internado no hospital psiquiátrico com o diagnóstico de “mania”, logo se percebendo, porém, que ele estava manifestando o estágio excitado da neurossífilis. Homem simples, ele fora peão de fazenda em Porto Rico; sofrendo um certo impedimento da fala e da audição, ele não conseguia expressar-se muito bem com palavras, mas o fazia, exibia sua situação, de um modo simples e claro, com desenhos.
Na primeira vez em que o atendi, ele estava bastante excitado e, quando lhe pedi para copiar uma figura simples, produziu, todo entusiasmado, uma elaboração tridimensional — ou pelo menos foi assim que interpretei, antes de ele me explicar que se tratava de uma “caixa de papelão aberta” e tentar desenhar algumas frutas dentro da caixa. Inspirado impulsivamente por essa imaginação excitada, ele não fez caso do círculo e da cruz, mas conservou e tornou concreta a ideia de “cerco”. Uma caixa aberta, uma caixa cheia de laranjas — não era mais empolgante, mais viva, mais real do que minha figura sem graça?
Poucos dias depois eu o vi novamente, cheio de energia, muito ativo, com ideias e sentimentos voando para todo lado, alto como uma pipa. Pedi a ele outra vez para desenhar a mesma figura. Dessa vez, impulsivamente, sem fazer uma única pausa, ele transformou o original em uma espécie de trapezóide, um losango, depois o ligou a um fio — e a um menino. “Menino empinando pipa, pipas voando!”, exclamou, excitado.
Encontrei-o pela terceira vez alguns dias depois, muito deprimido, acentuadamente parkinsoniano (fora-lhe administrado Haldol para acalmá-lo enquanto se aguardavam os últimos exames do líquido espinhal). Pedi mais uma vez que desenhasse a figura, e dessa vez ele a copiou sem animação, corretamente, e em tamanho um pouco menor do que o original (a “micrografia” do Haldol), sem vestígio algum das elaborações, da animação, da imaginação das ocasiões anteriores.
“Não vejo mais ‘coisas’”, ele disse. “Parecia tão real, tão vivo antes. Será que tudo parecerá morto quando eu for tratado?”
Os desenhos de pacientes com parkinsonismo quando são “despertados” pela levodopa fornecem uma analogia instrutiva. Quando pedimos que desenhe uma árvore, o parkinsoniano tende a desenhar uma coisinha mirrada, atrofiada, pobre, uma árvore de inverno seca, totalmente desfolhada. Quando ele “esquenta”, “se recobra”, é animado pela levodopa, a árvore ganha vigor, vida, imaginação — e folhagem. Se ele se tornar demasiadamente excitado, “alto” com a levodopa, a árvore pode adquirir uma aparência fantasticamente ornada, exuberante, explodindo com novos ramos e folhas que brotam repletos de pequenos arabescos, floreios e outras coisas mais, até que finalmente sua forma original perde-se por completo sob a elaboração enorme, barroca. Desenhos assim também são muito característicos das pessoas com a síndrome de Tourette — a forma original, a ideia original, perdida em uma selva de ornamentos — e da chamada speed art gerada pelo uso de anfetaminas. Primeiro a imaginação é despertada, e depois se torna excitada, frenética, tendendo à falta de limites e ao excesso.
Que paradoxo, que crueldade, que ironia há nisso: a vida interior e a imaginação poderem jazer embotadas e adormecidas, a menos que sejam libertadas, despertadas por uma intoxicação ou doença!
Precisamente esse paradoxo está no cerne de Tempo de despertar; ele também é responsável pela sedução da síndrome de Tourette e, sem dúvida, pela singular incerteza que pode associar-se a uma droga como a cocaína (que sabidamente eleva a dopamina no cérebro, como faz a levodopa ou a síndrome de Tourette). Isso explica o espantoso comentário de Freud sobre a cocaína, afirmando que a sensação de bem-estar e a euforia que ela induz “[…] em nenhum aspecto diferem da euforia normal da pessoa saudável […] em outras palavras, você fica simplesmente normal, e logo se torna difícil acreditar que está sob a influência de alguma droga”.
A mesma avaliação paradoxal pode aplicar-se a estimulações elétricas do cérebro: há epilepsias que são excitantes e viciam — e podem ser autoinduzidas, repetidamente, pela pessoa que a elas é propensa (da mesma forma que os ratos, com eletrodos cerebrais implantados, estimulam compulsivamente os “centros de prazer” do próprio cérebro); mas existem outras epilepsias que causam prazer e genuíno bem-estar. O bem-estar pode ser genuíno mesmo se for causado por uma doença. E esse bem-estar paradoxal pode até trazer um benefício duradouro, como ocorreu com a sra. O’C. e suas estranhas “reminiscências” convulsivas.
Estamos em terreno estranho aqui, onde todas as considerações usuais podem ser invertidas — onde a doença pode ser bem-estar e a normalidade, mal-estar, onde a excitação pode ser um cativeiro ou uma libertação e onde a realidade pode residir na ebriedade e não na sobriedade. É verdadeiramente o reino de Cupido e Dioniso.
Para refletir
1. Autopercepção do adoecimento. No caso descrito por Sacks, a paciente estava inicialmente satisfeita com as mudanças que percebia em sua animação e em sua personalidade. Mas, depois de algum tempo, os amigos começaram a questionar sua mudança, até que ela mesma começou a refletir que algo poderia estar errado. E nos casos de transtorno bipolar — como você acha que isso pode ocorrer?
2. Receio de perder a criatividade e a energia. No texto, tanto Natasha, a senhora com sífilis, quanto Miguel se sentiram angustiados diante da possibilidade da perda que haveria com o tratamento:
“Não quero que ela piore, seria horrível; mas não quero que seja curada — seria horrível do mesmo modo. Eu não estava plenamente viva antes de esses bichinhos me pegarem. O senhor acha que conseguiria mantê-la exatamente como ela está?” — Natasha, 88 anos.
“Não vejo mais ‘coisas’. Parecia tão real, tão vivo antes. Será que tudo parecerá morto quando eu for tratado?” — Miguel.
Essas mesmas questões também angustiam os pacientes com transtorno bipolar — e é frequentemente por elas que suspendem o uso das medicações.
Trecho de O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu1, capítulo “A Doença de Cupido” e seu pós-escrito.