Estigma em psiquiatria: o caso de Elena

Introdução
Vidas
Elena, 22 anos, universitária: três anos de psicose tratados como “baixa autoestima” — o relato de Jeffrey Lieberman sobre o custo do estigma.
NotaSobre este texto

Caso clínico real relatado por Jeffrey Lieberman, ex-presidente da Associação Americana de Psiquiatria, em Shrinks: The Untold Story of Psychiatry1. Repare como o preconceito contra a psiquiatria — inclusive o da própria família — atrasa o diagnóstico e interrompe a recuperação.

Jeffrey Lieberman, ex-presidente da Associação de Psiquiatria Americana, mostrou como o estigma e o preconceito podem prejudicar a ajuda e a recuperação de uma pessoa com um transtorno mental grave. Em seu livro Shrinks: The Untold Story of Psychiatry1, Lieberman conta a história de uma jovem universitária de 22 anos que se consultou com ele. Elena havia começado a apresentar problemas de comportamento no segundo ano da faculdade. Tinha adotado uma dieta vegetariana estrita e ficado obcecada com a Cabala, acreditando que sua simbologia secreta a levaria ao conhecimento cósmico. Sua participação na aula tornou-se irregular e suas notas caíram acentuadamente. As colegas de faculdade haviam notado que o comportamento de Elena tinha-se tornado cada vez mais estranho. Um dos professores contou que quando solicitou a ela que explicasse a técnica de fluxo de consciência de James Joyce, Elena escreveu que o estilo literário de Joyce era “um código com uma mensagem especial para leitores selecionados com sabedoria implantada em suas mentes pelas forças espirituais do universo”.

Durante a consulta Elena disse “Não há nada de errado comigo. Eu me sinto bem, exceto que minhas irmãs continuam tirando sarro de mim e mexendo com a minha arte.” E disse em seguida que estava “em busca de salvar o mundo descobrindo a fonte secreta do poder divino”. Ela acreditava que Deus havia colocado anjos nos corpos de seus pais para guiá-la nessa sagrada missão e que até mesmo a secretária do médico sabia disso, dizendo que “O jeito que ela sorriu para mim quando eu entrei. Era um sinal.” Nos últimos 3 anos, apesar de todos os sintomas que apresentava, os pais de Elena acreditavam que se tratava apenas de um “problema de baixa estima”. Elena tinha sido submetidas a uma série de tratamentos para tratar a falta de motivação e a baixa autoconfiança: meditação, acupuntura, hipnose, naturopatia e uma série de outros tratamentos “New Age”. Ao final da consulta, os pais de Elena perguntaram “Então, qual é o veredicto?”. Lieberman disse que não poderia ter certeza, mas parecia provável que a filha deles tivesse esquizofrenia, um distúrbio que geralmente se manifesta no final da adolescência ou início da idade adulta e que, com o tratamento correto, havia uma excelente chance de que ela pudesse se recuperar e levar uma vida relativamente normal, e até mesmo retornar à faculdade. 

Os pais de Elena se enfureceram, mas por fim, cederam e concordaram em admiti-la na unidade psiquiátrica do Hospital Presbiteriano de Nova York - Centro Médico da Universidade de Columbia.

Lieberman pessoalmente supervisionou os cuidados de Elena. Ela começou usar risperidona, e participar de grupos de socialização, ajudando na melhora de habilidades sociais. A terapia cognitiva aumentou sua atenção e concentração. Instrução orientada nas tarefas básicas da vida diária ajudou sua higiene e aparência. Depois de três semanas de medicação e terapia intensiva, os símbolos cósmicos desapareceram de sua atenção e a personalidade natural de Elena começou a brilhar: ela era alegre e inteligente, com um senso de humor brincalhão. Ela expressou vergonha sobre seu comportamento recente e o forte desejo de voltar para a faculdade e seus amigos em New Haven. Entretanto, quando a equipe de tratamento se reuniu com os pais para discutir o plano de alta de Elena e a necessidade de atendimento ambulatorial contínuo, eles não ficaram convencidos de que as melhorias dramáticas de Elena fossem devido ao tratamento médico que ela acabara de receber. Algumas semanas depois da alta Elena deixou de comparecer ao ambulatório.  Como disse Leiberman, “a verdade é que, se isso tivesse acontecido na década de 1970, quando eu estivesse na faculdade de medicina e tratasse de meus primeiros pacientes, eu poderia simpatizar com - ou até mesmo compartilhar - a aversão dos Conway aos psiquiatras. Naquela época, a maioria das instituições psiquiátricas estava obscurecida pela ideologia e pela ciência duvidosa, atolado em uma paisagem pseudo-medica onde os devotos de Sigmund Freud se apegavam a todas as posições de poder.”1

Caso relatado por Jeffrey Lieberman em Shrinks: The Untold Story of Psychiatry1.

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Referências

1.
Lieberman, J. A. & Ogas, O. Shrinks: The Untold Story of Psychiatry. (Back Bay Books, New York, 2016).