Dissociação da personalidade?

Somatoformes
História
De Mary Reynolds a Sybil e Billy Milligan: a história — e a controvérsia — do diagnóstico de múltiplas personalidades.
NotaSobre este texto

Ensaio histórico-crítico sobre o transtorno dissociativo de identidade, dos primeiros relatos do século 18 ao caso Sybil e à crítica contemporânea baseada na ciência da memória. Atividade sobre transtorno dissociativo de personaliade.

Existe mesmo dissociação da personalidade?

O primeiro tratado sobre um caso de dupla personalidade foi publicado na Alemanha, por Eberhardt Gmelin, em 17911. Uma jovem alemã possuía duas personalidades: uma alemã de classe média e uma aristocrata francesa. Enquanto francesa, ela havia esquecido totalmente sua família alemã. Por sua vez, quando voltava a ser a alemã local, não tinha absolutamente nenhuma lembrança de sua outra personalidade de refugiada francesa. Quando se apresentava como francesa, falava perfeitamente francês e conseguia se lembrar de tudo o que havia dito ou feito durante seus “episódios” franceses anteriores. Quando era a alemã, não sabia nada de sua personalidade francesa2. Nesse mesmo ano, nos Estados Unidos, Benjamin Rush descreveu, em suas aulas na Universidade da Pensilvânia, o caso de um jovem de 18 anos que possuía duas personalidades3. É também da região da Pensilvânia um dos casos mais discutidos na literatura médica: as personalidades de Mary Reynolds.

A história das personalidades de Mary foi relatada em diversas publicações ao longo de um século: por Samuel Latham Mitchill em 1816, por Francis Wayland em 1854, pelo reverendo William Plummer em 1860, por S. Weir Mitchell em 1888 e por Ada Goodrich-Freer em 19074. Durante cinco anos Mary alternou duas personalidades, até que em 1829 passou a viver permanentemente em sua segunda personalidade, até seu falecimento aos 69 anos de idade4. No início do século 20, o psicólogo Prince publicou o livro The Dissociation of a Personality, descrevendo um caso no qual uma paciente tinha diversas personalidades, contribuindo para popularizar o conceito5.

Alguns anos depois, por volta de 1954, dois psiquiatras norte-americanos, Corbett H. Thigpen e Hervey M. Cleckley, descreveram um outro caso, mais tarde transformado em livro e em filme: The Three Faces of Eve (As Três Faces de Eva, 1957).

O diagnóstico de múltiplas personalidades começou a se tornar frequente nos Estados Unidos alguns anos depois, com a publicação da história de uma outra paciente: Sybil. Esse foi o pseudônimo de Shirley Ardell Mason, paciente da psicanalista Cornelia B. Wilbur. Sua história foi contada no livro homônimo pela jornalista Flora Rheta Schreiber em 1973 e transformada em filme em 1976 e novamente em 2007. De acordo com a história contada, Sybil tinha cerca de 16 diferentes personalidades. Apesar de já existirem diversos livros sobre esse tema, foi com Sybil que se popularizou a noção de que a dissociação da personalidade estava vinculada a abusos na infância6.

Entretanto, essa história foi o pivô de uma grande e embaraçosa fase da psiquiatria norte-americana. Apesar de inúmeros casos descritos, inúmeros filmes, livros e histórias, o diagnóstico de dissociação da personalidade tem sido bastante questionado nos últimos anos7,8. Um dos psiquiatras que atendeu Shirley (Sybil) depois de Wilbur foi Herbert Spiegel, que afirmava não haver múltiplas personalidades em Sybil, apenas um caso de “histeria”9. Em uma entrevista a Mikkel Borch-Jacobsen, Spiegel contou ter claramente discordado de Schreiber e Wilbur quanto ao diagnóstico de Sybil. Entretanto, Schreiber alegava que o livro tinha que ser sobre a história de uma paciente com múltiplas personalidades e que sem isso não haveria um livro6.

Numa pesquisa sobre a percepção dos psiquiatras acerca do diagnóstico do transtorno de múltiplas personalidades conduzida no Canadá, a existência dessa condição foi questionada por 27,8% dos psiquiatras10. Baldock e Leichner notaram também que, nos programas de residência em psiquiatria canadenses, cerca de 60,7% dos residentes não acreditavam nesse diagnóstico11.

O ponto mais crucial é que os métodos terapêuticos desenvolvidos para tratar a dissociação são baseados em uma falsa teoria da memória humana12. Muitos terapeutas, a começar por Freud, acreditaram que tudo o que acontece na vida de uma pessoa fica registrado no cérebro e que a memória é uma espécie de gravador (ou videogravador) de toda a vida8. Na verdade, as pessoas não se lembram da maior parte do que acontece com elas, e o que elas lembram é uma narrativa reconstruída, não uma gravação8. Especialistas em memória entendem que toda lembrança é um processo ativo de reconstrução e, desde a década de 1970, começou a ficar claro ser possível criar falsas memórias13. Um indivíduo inocente — confuso, fatigado e ansioso — exposto a interrogatórios psicologicamente coercitivos por policiais que afirmam saber que ele é culpado pode começar a duvidar de sua própria memória, pode se “lembrar” de fatos que na verdade nunca ocorreram e passar a acreditar que realmente cometeu um crime14. Existem documentados na literatura diversos casos de falsas confissões internalizadas, tais como a de Peter Reilly, um jovem de 18 anos que encontrou a mãe assassinada quando chegou em casa. Peter logo chamou a polícia, que suspeitou ser ele o assassino e o interrogou com o auxílio de um polígrafo. Depois do interrogatório inicial, os policiais disseram que ele havia falhado no teste “infalível” do detector de mentiras, o que indicava ser ele o assassino, apesar de não ter memórias do evento. O interrogatório que se seguiu conseguiu fazer Peter realmente acreditar ter sido ele o assassino, tendo inclusive assinado uma confissão. Dois anos depois, evidências independentes mostraram não ser possível que ele fosse o culpado14.

A responsabilidade criminal é outro ponto complicado nos casos em que se alega que um crime foi cometido por “uma das personalidades” do indivíduo. Nesse caso, quem seria o culpado? Seria o caso de inimputabilidade penal? As cortes norte-americanas têm se debatido com esse assunto sem encontrar um consenso15. Dada a controvérsia do diagnóstico, é difícil que juristas, médicos e outros profissionais entrem em consenso16. Mas, apesar dos diferentes posicionamentos, raramente uma defesa baseada nesse diagnóstico tem sucesso. O único caso em que esse diagnóstico foi aceito como razão de inimputabilidade foi o de Billy Milligan, em 197816,17.

Criar “falsas personalidades”, seja acidentalmente ou deliberadamente, pode ser uma consequência de técnicas de sugestão9. Se esse diagnóstico representa uma entidade nosológica real ou apenas um artefato de técnicas psicológicas mal aplicadas ainda é um ponto a ser resolvido. Entretanto, apesar das diversas críticas quanto à existência de um quadro real de diferentes personalidades numa só pessoa, esse diagnóstico persiste ainda nos manuais de psiquiatria, tanto no DSM-5 quanto na CID-11. Será que esse diagnóstico vai se mostrar coerente e se manter nas próximas edições, ou terá o mesmo destino de diversos outros diagnósticos psiquiátricos que deixaram de existir?

Leituras sugeridas

  • Middleton & Butler, Dissociative identity disorder: an Australian series18.
  • Thomas, Factitious and malingered dissociative identity disorder: clinical features observed in 18 cases19.
  • Paris, The rise and fall of dissociative identity disorder8.
  • Strasburger & Waldvogel, Sight and blindness in the same person: gating in the visual system20.
  • Şar, Yargiç & Tutkun, Structured interview data on 35 cases of dissociative identity disorder in Turkey21.
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Referências

1.
Hart, O. van der & Dorahy, M. J. History of the Concept of Dissociation. em Dissociation and the Dissociative Disorders: DSM-V and Beyond (org. Dell, P. F. & O’Neil, J. A.) 3–26 (Routledge, New York, 2009).
2.
Carlson, E. T. Multiple personality and hypnosis: the first one hundred years. J Hist Behav Sci 25, 315–322 (1989).
3.
Carlson, E. T. The history of multiple personality in the United States: I: The beginnings. Am J Psychiatry 138, 666–668 (1981).
4.
Carlson, E. T. The history of multiple personality in the United States: Mary Reynolds and her subsequent reputation. Bull Hist Med 58, 72–82 (1984).
5.
Prince, M. The Dissociation of a Personality: A Biographical Study in Abnormal Psychology. (Longmans, Green,; Co., New York; London; Bombay, 1906).
6.
Borch-Jacobsen, M. Sybil—The Making of a Disease: An Interview with Dr. Herbert Spiegel. The New York Review of Books 44, 60–64 (1997).
7.
McHugh, P. R. & Putnam, F. W. Resolved: multiple personality disorder is an individually and socially created artifact. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry 34, 957-962; discussion 962-963 (1995).
8.
Paris, J. The rise and fall of dissociative identity disorder. J Nerv Ment Dis 200, 1076–1079 (2012).
9.
Rieber, R. W. Hypnosis, false memory and multiple personality: a trinity of affinity. Hist Psychiatry 10, 3–11 (1999).
10.
Mai, F. M. Psychiatrists’ attitudes to multiple personality disorder: a questionnaire study. Can J Psychiatry 40, 154–157 (1995).
11.
Baldock, J. & Leichner, P. Re: Psychiatrists’ attitudes to multiple personality disorder. Can J Psychiatry 40, 495–496 (1995).
12.
McNally, R. J. Remembering Trauma. (Belknap Press of Harvard University Press, Cambridge, MA, 2003).
13.
Loftus, E. F. The malleability of human memory. Am Sci 67, 312–320 (1979).
14.
Kassin, S. M. The psychology of confession evidence. American Psychologist 52, 221–233 (1997).
15.
Behnke, S. H. Assessing the criminal responsibility of individuals with multiple personality disorder: legal cases, legal theory. J Am Acad Psychiatry Law 25, 391–399 (1997).
16.
Farrell, H. M. Dissociative identity disorder: No excuse for criminal activity. Current Psychiatry 10, 33–40 (2011).
17.
State v. Milligan, No. 77-CR-11-2908 (Court of Common Pleas, Franklin County, Ohio, 1978). (1978).
18.
Middleton, W. & Butler, J. Dissociative identity disorder: an Australian series. Aust N Z J Psychiatry 32, 794–804 (1998).
19.
Thomas, A. Factitious and malingered dissociative identity disorder: clinical features observed in 18 cases. Journal of Trauma & Dissociation 2, 59–77 (2001).
20.
Strasburger, H. & Waldvogel, B. Sight and blindness in the same person: Gating in the visual system. PsyCh Journal 4, 178–185 (2015).
21.
Şar, V., Yargiç, L. İ. & Tutkun, H. Structured interview data on 35 cases of dissociative identity disorder in Turkey. Am J Psychiatry 153, 1329–1333 (1996).