Causalidade: biologia versus espíritos
Na antiguidade, chineses, egípcios, hebreus e gregos frequentemente atribuíam as alterações de comportamento a uma ação sobrenatural, demoníaca ou divina. Se o discurso ou o comportamento do indivíduo parecia ter um significado religioso ou místico socialmente aceitável, assumia-se ter havido uma possessão por um bom espírito e o indivíduo era tratado com reverência e respeito. No entanto, a maioria dos casos de alterações de comportamento, principalmente nos casos de agitação, agressividade ou quando o comportamento contrário aos ensinamentos religiosos, a situação era usualmente considerada obra de um deus irado ou de um espírito maligno. Entre os antigos hebreus, por exemplo, acreditava-se que essas alterações de comportamento representassem um castigo de Deus. Moisés é citado na Bíblia como dizendo: “O Senhor te ferirá de loucura”. Nesses casos, eram feitos todos os esforços para livrar a pessoa do espírito maligno. O principal tipo de tratamento para a possessão demoníaca era o exorcismo, que incluía várias técnicas para expulsar um espírito maligno de uma pessoa aflita. Essas técnicas variavam, mas geralmente incluíam magia, oração, encantamento e poções1 Na Idade de Ouro da Grécia houve um progresso considerável na compreensão e tratamento dos transtornos mentais. O médico grego Hipócrates (460-377 aC) negava que divindades e demônios interferissem no desenvolvimento de doenças e insistia que os transtornos mentais, como outras doenças, tinham causas naturais e necessitavam de tratamentos apropriados. Ele acreditava que o cérebro era o órgão central da atividade intelectual e que os distúrbios mentais eram devidos à patologia cerebral, enfatizando tanto a importância da hereditariedade e da predisposição quanto ao fato de lesões no cérebro poderem causar distúrbios sensoriais e motores1. Os tratamentos preconizados por Hipócrates estavam muito adiantados em relação às práticas exorcísticas predominantes na época, tendo reconhecido, por exemplo, a importância do meio ambiente como um dos fatores determinantes do adoecimento. Hipócrates classificava os transtornos mentais em três categorias gerais: mania, melancolia e frenite. Para o tratamento da melancolia, por exemplo, ele prescreveu uma vida regular e tranquila, sobriedade e abstinência de todos os excessos, uma dieta vegetal, celibato, exercício pouco cansativo e sangramento, se indicado. A ênfase de Hipócrates nas causas naturais das doenças, na observação clínica e na patologia cerebral como a raiz dos transtornos mentais foi verdadeiramente revolucionária para a época. Como seus contemporâneos, no entanto, Hipócrates tinha pouco conhecimento de fisiologia. Ele acreditava que aparecimento de doença física na ausência de patologia orgânica era restrita às mulheres e causada pelo útero que “vagava por várias partes do corpo”. Para essa “doença”, que denomina de “histeria” Hipócrates recomendava o casamento como o melhor remédio1.
Na China antiga, desde as primeiras dinastias, já vigorava a crença de que as doenças tinham causas naturais2. A tradição chinesa entendia que a doença representava o desequilíbrio de forças atuando no corpo, forças essas governadas pelos mesmos princípios que as forcas da natureza e que, portanto, podiam ser compreendidas da mesma forma que os fenômenos naturais2. As doenças eram, portanto, manifestações de doenças físicas. A medicina chinesa atingiu um nível relativamente sofisticado durante o segundo século, e Chung Ching, que foi chamado de Hipócrates da China, escreveu dois trabalhos médicos conhecidos por volta do ano 200 d.C. Como Hipócrates, ele baseou suas visões de distúrbios físicos e mentais em observações clínicas e implicou patologias de órgãos como causas primárias. Ele também acreditava que condições psicológicas estressantes poderiam causar patologias orgânicas, e seus tratamentos, como os de Hipócrates, utilizavam drogas e a recuperação do equilíbrio emocional por meio de atividades apropriadas.
Mas, assim como no Ocidente, as visões chinesas sobre os transtornos mentais também oscilaram entre crenças nas causas sobrenaturais e forças da natureza. Desde o final do século II até o início do século IX, fantasmas e demônios foram implicados na insanidade “fantasma-maligna”, que presumivelmente resultou da posse de espíritos malignos. A “Idade das Trevas” na China, no entanto, não foi tão severa (em termos de tratamento de pacientes mentais) nem tão duradoura quanto no Ocidente1.
Durante a Idade Média na Europa, a investigação científica sobre comportamento anormal foi limitada. Durante esse tempo, explicações sobrenaturais das causas da doença mental cresceram em popularidade. A influência da teologia crescia rapidamente, e o “pecado” muitas vezes era citado como um fator causal na doença mental. Por exemplo, Kroll e Bachrach3 encontraram o pecado implicado em 16% casos de doenças mentais na época.
Na Idade Média na Europa, o cuidado dos transtornos mentais foi realizado em grande parte ao clero. O “tratamento” consistia em oração, água sagrada, ungüentos santificados, a respiração ou saliva dos padres, o toque de relíquias, visitas a lugares sagrados e formas leves de exorcismo. Em alguns mosteiros e santuários, os exorcismos eram realizados pela suave imposição de mãos. Tais métodos foram freqüentemente associados a tratamentos médicos vagamente compreendidos, originários principalmente de Galeno, que deu origem a prescrições como as seguintes: “Para um homem doente de demônio: quando um diabo possui um homem, ou o controla por dentro com uma doença, um vomito de tremoço, carne de bispo, meimendro, alho. Misture tudo, adicione cerveja e água benta”4,citado em: 1. Robert Burton, em sua obra clássica A Anatomia da Melancolia, publicado em 1621, considerava a possessão demoníaca uma causa potencial de transtornos mentais. Foi durante a última parte da Idade Média e no início do Renascimento que surgiram os questionamentos científicos e um movimento enfatizando a importância de interesses e preocupações especificamente humanos. Consequentemente, as causas dos transtornos mentais começaram a ser contestadas. Figuras importantes do cristianismo também começavam a questionar as práticas da época. Por exemplo, São Vicente de Paulo (1576-1660) declarou que as doenças mentais não são diferentes das doenças corporais1.
Atualmente, coexistem nas mais diversas culturas crenças bastante diferentes sobre as causas dos transtornos de comportamento. As crenças da antiguidade não foram simplesmente substituídas por outras. Muito pelo contrário, hoje vivemos uma pluralidade de crenças, uma pluralidade de visões de mundo. Ciência, religiosidade, misticismo convivem hoje lado a lado e, mais do que nunca, precisamos aprender a respeitar as diferenças.