Breve história do tratamento da depressão

Depressão
História
Ópio, barbitúricos, cocaína, anfetaminas, um remédio de tuberculose — e enfim os antidepressivos: dois milênios tentando tratar a tristeza profunda.
NotaSobre este texto

Ensaio histórico sobre os tratamentos da depressão, do láudano à imipramina, mostrando como o próprio conceito de “antidepressivo” é uma construção comercial e científica dos anos 1950.

A síndrome caracterizada por sintomas de tristeza profunda persistentes, associadas perda do interesse e do prazer, perda de energia, sentimentos de angústia e culpa, ansiedade, desânimo, apatia, isolamento social, alterações do sono e do apetite e alterações cognitivas tais como dificuldades de memória e de concentração, hoje chamada de depressão, é relatada na humanidade há milênios, sob diversos nomes, diversos conceitos e diversas classificações.

Seja qual for o nome dado a essa condição, há milênios os médicos tentam aliviar esses sintomas. Medicamentos para acalmar a mente a reduzir a agitação já são utilizados há milênios. Preparados a base de ópio já eram utilizados na Grécia antiga para alívio da dor e da angústia1,2. No século 16 era muito popular um preparado a de ópio com álcool denominado Láudano, um tratamento recomendado inclusive por Thomas Sydenham para a melancolia2. O ópio também foi usado por Emil Kraepelin e Eugen Bleuler no final do século 19 para tratar depressão1. Alcalóides encontrados na natureza e o próprio álcool também foram usados com frequência2. A “cura pelo ópio” (opium cure) foi um método popular na Europa ao longo dos séculos 18 e 19, tendo depois caído em desuso devido aos relatos cada vez mais frequentes de abuso e dependência2.

Em 1903 os barbitúricos começaram a ser comercializados e logo se tornaram bastante populares. Barbital, fenobarbital, butabarbital, amobarbital e vários outros medicamentos dessas classe passaram a ser usados para tratar insônia, ansiedade, depressão e mania2. A escritora britânica Virginia Wolf fez uso de Veronal (barbital) por diversas vezes em suas crises depressivas, tendo inclusive tentando suicídio em 1915 utilizando essa medicação3,4.

Cannabis e Cocaína também já foram usadas na medicina no início do século 20. Por volta de 1930, a Cannabis passou comercializada como uma medicação com o nome de Indonad na Inglaterra e com o nome de Indonal-Burger na Alemanha2. A cocaína se tornou uma medicação extremamente popular nos Estados Unidos, fazendo parte tanto de refrigerantes (Coca-Cola) como de vários medicamentos. Em 1878, nos Estados Unidos, a coca era promovida em propagandas como sendo indicada para “pessoas tímidas” e como um “poderoso estimulante”5. Freud, Em seu texto de 1884 (Uber Coca) recomendava coca ou cocaína para uma variedade de doenças e, especialmente, para a síndrome de fadiga, nervosismo e problemas conhecidos como neurastenia5. Em 1884, a cocaína purificada tornou-se comercialmente disponível nos EUA. Um ano depois, a Parke-Davis Company comercializada coca e cocaína em 15 diferentes apresentações, incluindo cigarros de coca, cocaína injetável e cocaína para cheirar. A Parke-Davis também ofereceria aos consumidores um prático kit de cocaína com uma seringa hipodérmica6. A Coca-Cola foi introduzida em 1886 como uma bebida que oferecia as vantagens da coca, mas sem os perigos do álcool6. O uso da cocaína na medicina norte americana continuo até a década de 1930, quando os problemas do uso da cocaína começaram a ficar claros e surgiram as anfetaminas.

Sintetizadas pela primeira vez no final do século 19, os efeitos estimulantes das anfetaminas logo foram notados. Em 1936 Abraham Meyerson relatou que “quando usado judiciosamente, [a benzedrina] é valiosa para diminuir a angústia e a depressão e aumentar a sensação de energia”7. Em 1937 a benzedrina começou a ser promovida como um medicamento para o tratamento das “depressões leves acompanhadas de retardo psicomotor”8. Em Janeiro de 1941 a Smith, Kline e French (SKF) anunciou a Benzedrina como um tratamento para os estados depressivos9.

Até então nenhuma dessas medicações havia ainda recebido um rótulo de antidepressivos. Era apenas indicadas para tratar as depressões. Foi apenas em 1947, segundo o historiador Edward Shorter, que o termo “anti-depressivo” foi usado pela primeira vez, num anúncio da medicação Edrisal, uma mistura de benzedrina e ácido-acetil salicílico, para o tratamento da dismenorréia2. Em 1948 a anfetamina benzedrina se tornou o “antidepressivo de escolha”2. Alguns anos depois surgiram no mercado norte-americanos os “combos”, mistura de anfetaminas e barbitúricos para depressão. O primeiro foi o Benzebar, da SKF, uma mistura de benzedrina e fenobarbital, lançado em 1948 e “indicado” para o tratamento da depressão na menopausa, para o paciente deprimido e ansioso.

Em 1950 a SKF anunciou o Dexamyl, uma combinação de dextroanfetamina (Dexedrine®) e do barbitúrico Amobarbital (Amytal®), promovendo essa combinação como uma poderosa medicação para o tratamento da depressão. Na época, essa medicação foi considerada tão segura que em 1963 o FDA liberou sua venda over-the-counter, ou seja, sem necessidade de receita médica2.

(Para ver o anúncio impresso do Dexamyl da SKF, consulte a Busca no Google Imagens ou o Acervo Histórico de Publicidade de Anfetaminas (NCBI)).

Nessa mesma década, em 1954, a Ciba lança no mercado o metilfenidato (Ritalina®), anunciada como um medicamento para tratar a depressão. Em 1957 o Council on Drugs da American Medical Association considerou a Ritalina “útil no tratamento da depressão leve a moderada”10.

(Para ver o anúncio de lançamento da Ritalina nos anos 50, consulte a Busca no Google Imagens ou a Análise Histórica de Anúncios da Ritalina (Somatosphere)).

Nesse mesmo ano de 1957 uma nova medicação para depressão chegou a mercado. A iproniazida, usada desde 1951 no tratamento da tuberculose, passou a ser anunciada para o tratamento da depressão. Seu uso no tratamento da depressão começou a partir da percepção de que os pacientes com tuberculose melhoravam seu estado mental, podendo causar euforia e excitação11,12. Os médicos notaram que os pacientes com tuberculose que tomavam a droga passaram de miseráveis e quase mortos a eufóricos, enérgicos e sociais. Circularam nos jornais da época notícias de que os pacientes estavam “dançando nos corredores embora houvesse buracos em seus pulmões”2,13. Em 1957, a iproniazida foi testada em um pequeno grupo de pacientes psiquiátricos14. De acordo com esse estudo, 70% deles se tornaram mais felizes e sociáveis. Inicialmente foi divulgada como sendo um “energizante psíquico” e só mais tarde considerada um antidepressivo, à medida que o conceito de energizante foi sendo deixado de lado2. No final da década, cerca de 400.000 pessoas com depressão estavam tomando a droga13. No entanto, a fama dos IMAO durou pouco tempo: crises hipertensivas e casos de necrose hepática levaram a retirada de vários desses medicamentos do mercado em 19612,12. Entretanto, a noção de que uma medicação poderia tratar a depressão abriu o caminho para novas possibilidades na psiquiatria, a ideia de poder tratar transtornos mentais por intervenções nos processos bioquímicos do cérebro era uma novidade para a época12.

A iproniazida, pertencente a uma classe de medicamentos chamados de IMAO (inibidores da monoamino oxidase) foram as primeiras medicações baseadas numa teoria bioquímica da depressão: que as aminas cerebrais tais como serotonina, norepinefrina eram neurotransmissores e que a modulação dessas substâncias poderia tratar as depressões. Essa ideia foi totalmente inovadora na época. Apesar dos problemas causados pelos IMAOs, esse medicamentos ajudaram a reduzir o preconceito contra o tratamento farmacológico da depressão e abriram o caminho para outra classe de antidepressivos: os tricíclicos12.

Por volta de 1955-1956 Roland Kuhn, psiquiatra pesquisador da Geigy, estava estudando algumas substâncias parecidas com a clorpromazina. Uma delas, denominada na ocasião de G-22355 havia mostrado ser útil para a depressão. Kuhn numa conferência em 1957, citou que essa substância era “uma boa droga para pacientes deprimidos”2. Em setembro desse mesmo ano de 1957 Khun publicou um artigo na Swiss Medical Weekly relatando os efeitos impressionantes dessa medicação nos sintomas depressivos2. Mas a comunidade médica estava relutante em relação a medicações para depressão e apenas 12 médicos estavam presentes na conferência de Kuhn no congresso de 195815. Nessa época a psicanálise era dominante nos Estados Unidos e idéia de tratamentos através de medicamentos era repudiada por muitos psiquiatras norte americanos16. A noção vigente era que a depressão surgia de “conflitos intrapsiquicos” e que os medicamentos apenas mascaravam os sintomas16.

A Geigy esse medicamento lançou na suíça em 1957 com o nome Tofranil® (imipramina), anunciando-o como um “timoléptico” e no ano seguinte várias ensaios clínicos começaram a mostrar o efeito antidepressivo da imipramina e começava a surgir a idéia de que seria possível não apenas melhorar os sintomas, mas realmente tratar a depressão. Começava a se formar a idéia de que poderiam haver realmente substâncias “antidepressivas”16. A imipramina foi finalmente aprovada pelo FDA nos Estados Unidos em 1959.

O segundo medicamento dessa classe, a amitriptilina, foi aprovado 2 anos depois, em 1961, pela Merck, como um antidepressivo. Nesse início da década de 1960 a utilidade desses medicamentos para tratar a depressão se tornou indiscutível e nessa década surgiram diversos outros medicamentos dessa classe conhecida como tricíclicos: nortriptilina, trimipramina, proptilina, dothiepina, doxepina e clomipramina16.

A aceitação do uso de medicamentos para tratar a depressão foi fruto não apenas do efeito desses medicamentos, mas do esforço das empresas farmacêuticas na promoção do uso desses medicamentos. Não bastava vender medicamentos, era preciso também vender a “idéia” de que era possível tratar a depressão com medicamentos16. O próximo passo foi a formulação da teoria de quais eram as alterações bioquímicas da depressão e de como esses medicamentos agiam, teorias que teve um papel fundamental para a aceitação do uso desse tipo de medicações.

Leituras sugeridas

  • Sadock, Sadock & Ruiz, Compêndio de Psiquiatria, cap. 8: Transtornos do humor17.
  • The American Psychiatric Publishing Textbook of Psychiatry, cap. 11: Depressive Disorders, p. 353–38618.
  • Monroe & Harkness, Is Depression a Chronic Mental Illness?19.
  • Sobre a depressão de Leonard Cohen na imprensa2025.
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Referências

1.
Ban, T. A. Pharmacotherapy of depression: a historical analysis. J Neural Transm (Vienna) 108, 707–716 (2001).
2.
Shorter, E. Before Prozac: The Troubled History of Mood Disorders in Psychiatry. (Oxford University Press, New York, 2009).
3.
Koutsantoni, K. Manic depression in literature: the case of Virginia Woolf. Med Humanit 38, 7–14 (2012).
4.
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Grinspoon, L. & Bakalar, J. B. Coca and cocaine as medicines: an historical review. J Ethnopharmacol 3, 149–159 (1981).
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Musto, D. F. Opium, cocaine and marijuana in American history. Sci Am 265, 40–47 (1991).
7.
Myerson, A. Effect of Benzedrine Sulfate on Mood and Fatigue in Normal and in Neurotic Persons. Archives of Neurology & Psychiatry 36, 816–822 (1936).
8.
Guttmann, E. & Sargant, W. Observations on Benzedrine. Br Med J 1, 1013–1015 (1937).
9.
Smith, Kline & French. Benzedrine advertisement. (1941).
10.
Anonymous. Council on Drugs. Journal of the American Medical Association 163, 1479–1482 (1957).
11.
Selikoff, I. J., Robitzek, E. H. & Ornstein, G. G. Treatment of pulmonary tuberculosis with hydrazide derivatives of isonicotinic acid. J Am Med Assoc 150, 973–980 (1952).
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Pletscher, A. The discovery of antidepressants: a winding path. Experientia 47, 4–8 (1991).
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Sadock, B. J., Sadock, V. A. & Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. (Artmed, Porto Alegre, 2017).
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The American Psychiatric Publishing Textbook of Psychiatry. (American Psychiatric Publishing, Washington, DC, 2014).
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