A nova classificação dos psicotrópicos

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Chamar um remédio pelo que ele trata confunde o paciente e trai a farmacologia: a proposta da Nomenclatura Baseada em Neurociências (NbN).
NotaSobre este texto

Texto conceitual sobre os problemas da classificação dos psicofármacos por indicação e a proposta da NbN. Complementa a atividade do aplicativo NbN3.

Ao nos depararmos pela primeira vez com as diversas classes dos medicamentos utilizados em psiquiatria podemos ter a primeira impressão de que os medicamentos estão muito bem organizados em categorias. Afinal de contas, alguns medicamentos são chamados de antidepressivos, outros de antipsicóticos, ansiolíticos, hipnóticos e neurolépticos. Tudo parece em ordem, já que temos também anti-hipertensivos, antiepiléticos, antibióticos, antiparasitários. Então, à primeira vista, parece tudo correto.

Mas a medida que nos aprofundamos no estudo dos medicamentos, descobrimos que antibióticos e antiparasitários podem servir para melhorar problemas dermatológicos; antidepressivos podem servir para tratar incontinência urinária em crianças e tabagismo em adultos, além de insônia e ansiedade; antipsicóticos podem servir para tratar transtorno bipolar; antiepiléticos são chamados de estabilizadores de humor pelos psiquiatras e usados para tratar o transtorno bipolar; antipsicóticos servem para tratar depressões e anti-hipertensivos servem para tratar efeitos colaterais de antipsicóticos.

Denominar um medicamento de acordo com os problemas que ele trata é um problema. Pois as substâncias químicas não tem essa especificidade que a medicina chegou ingenuamente a acreditar. O ácido acetilsalicílico, obtido através da Salicilina, substância extraída da casca do Salgueiro é usado para tratar dores, febre, doenças reumáticas e na prevenção do infarto agudo do miocárdio. Então, se uma medicação serve para tratar diversas condições médicas, não há como classificar as medicações de acordo com sua utilização. Entretanto, é assim que foi feito durante muito tempo na medicina. E isso traz problemas. Quando um paciente lê na bula ou na internet que o medicamento é para tratar uma condição diferente de seu diagnóstico pode ficar confuso e abandonar o tratamento.

Para tentar superar esses problemas várias instituições, entre elas, o European College of Neuropsychiatry (ECNP), o American College of Neuropsychopharmacology (ACNP), Asian College of Neuropsychopharmacology (AsCNP) e International Union of Basic and Clinical Pharmacology (IUPHAR) e o Collegium Internationale Neuropsychopharmacologicum (CINP) criaram uma força-tarefa para construir uma nova classificação dos psicofármacos, denominada de Nomenclatura Baseada em Neurociências (NbN).

A proposta da NbN é classificar os medicamentos de acordo com sua farmacologia e modo de ação. Ou seja, a idéia é substituir uma classificação baseada em doença (por exemplo, antidepressivos, antipsicóticos, ansiolíticos, pílulas para dormir, estabilizadores de humor, etc.) para uma classificação conduzida farmacologicamente, a fim de mudar de sintomas para mecanismos, de doença para farmacologia. A NbN busca fornecer uma importante ferramenta de ensino que reflita a profundidade e a riqueza do tecido neurocientífico dos psicotrópicos.

A NbN na prática

Veja como alguns fármacos conhecidos são renomeados quando descritos por seu domínio farmacológico (o alvo) e por seu modo de ação, em vez de pela indicação1:

  • Fluoxetina. Rótulo tradicional: antidepressivo (ISRS). Na NbN: domínio farmacológico serotonina, modo de ação inibidor de recaptação. O nome “antidepressivo” não revela que a fluoxetina é também primeira escolha no transtorno obsessivo-compulsivo, na bulimia e no transtorno de pânico — a mesma molécula, os mesmos receptores, várias indicações.
  • Quetiapina. Rótulo tradicional: antipsicótico atípico. Na NbN: domínio dopamina e serotonina (e noradrenalina, pelo metabólito norquetiapina), modo de ação antagonista de receptores (com inibição da recaptação de noradrenalina). Na prática, é muito mais usada no transtorno bipolar, como adjuvante na depressão e, em doses baixas, para insônia — nada disso cabe no rótulo “antipsicótico”.
  • Aripiprazol. Também chamado de antipsicótico, mas seu mecanismo é o oposto do haloperidol: enquanto o haloperidol é antagonista de dopamina, o aripiprazol é agonista parcial de dopamina e serotonina. Dois fármacos com mecanismos contrários carregam o mesmo rótulo de classe — exatamente o tipo de confusão que a NbN busca desfazer.

Os produtos da NbN incluem dois sites, (nbn2r.com e nbnca.com) e dois aplicativos (NbN3 e NbN C&A).

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Referências

1.
Uchida, H., Yamawaki, S., Bahk, W.-M. & Jon, D.-I. Neuroscience-based Nomenclature (NbN) for Clinical Psychopharmacology and Neuroscience. Clinical Psychopharmacology and Neuroscience 14, 115–116 (2016).