Terry Davis, o Programador do TempleOS (Esquizofrenia)
“Terrence Andrew Davis foi um programador americano que criou e desenvolveu um sistema operacional inteiro, o TempleOS. Obteve um mestrado em engenharia elétrica pela Universidade do Estado do Arizona em 1994 e trabalhou por vários anos na Ticketmaster programando máquinas VAX.
A partir de março de 1996 Davis começou a ter surtos psicóticos e delírios sobre extraterrestres e agentes do governo, e foi hospitalizado por problemas mentais durante um tempo. Ele atribuía uma qualidade profunda ao verso da canção do Rage Against the Machine “some of those who work forces are the same that burn crosses” (“alguns dos que trabalham forças/ou/alguns dos que estão no poder são os mesmos que queimam cruzes”) e recordou-se: “Comecei a ver uns caras de terno me seguindo, e coisas assim. Era muito esquisito”. Certa vez ele dirigiu milhares de quilômetros, rumando a sul, sem um destino exato, convencido de que o rádio de seu carro falava com ele; abandonando seu veículo num deserto do Texas, lá foi encontrado por um policial e levado a um hospital. Foi inicialmente diagnosticado com transtorno bipolar, sendo mais tarde declarado esquizofrênico, e permaneceu desempregado pelo resto de sua vida. Em julho, voltou ao Arizona e começou a formular planos para um novo negócio. Recordou-se de ter impressão 3D em mente como uma prossecução óbvia e desenhou uma máquina de fresa de três eixos. Um incidente envolvendo uma ferramenta Dremel quase ateou fogo a seu apartamento, o que o fez desistir da ideia. Dali em diante, passou a viver com seus pais em Las Vegas e recebia uma pensão por invalidez do governo.
Até 2003, Davis era mandado a uma ala psiquiátrica a cada seis meses por surtos psicóticos recorrentes. Em 2014, ele afirmou que “era verdadeiramente bem louco, de certo modo. Agora eu não sou. Sou louco de um jeito diferente, talvez”. Criado católico, Davis era ateu antes de passar pelos eventos supracitados, vindo posteriormente a dizer que seus delírios o levaram a uma “revelação”. Num e-mail a um jornalista da Vice, ele descreveu a experiência como “parecendo-se muito uma doença mental… Me senti culpado por ser um ateu tão pró-tecnologia… Pareceria educado se você dissesse que eu me assustava pensando em computadores quânticos. E então eu acho que é só acrescentar uma doença mental comum”.
A esquizofrenia afetava-lhe as habilidades de comunicação, e seus comentários na Internet eram quase sempre ininteligíveis, mas alegadamente estava “sempre lúcido” ao conversar com fãs se o assunto era computadores. A Vice notou que, em 2012, Davis tivera uma “conversa produtiva com os contribuidores do MetaFilter, onde seu trabalho foi introduzido como ‘um sistema operacional desenvolvido por um programador esquizofrênico’”.
Davis proclamou estar em comunicação direta com Deus, e que Deus lhe ordenara que construísse o Terceiro Templo na forma de um sistema operacional; portanto, referências a tropos bíblicos são onipresentes no OS.
De acordo com Davis, muitas das características do sistema, como sua resolução 640x480 e display de 16 cores, também foram instruções diretas de Deus. Em seu site oficial alegou que o TempleOS era “o templo oficial de Deus. Tal qual o Templo de Salomão, este é um ponto comunitário focal onde se fazem oferendas e se consulta o oráculo de Deus”. Ele utilizou o oráculo para perguntar a Deus sobre guerras (“serviçais competindo”), morte (“horrível”), dinossauros (“os pés dos brontossauros doem se se pisa neles”), seu videogame favorito (Donkey Kong), carro favorito (BMW), hino nacional favorito (o da Letônia), banda favorita (os Beatles) e qual seria o 11º mandamento (“não poluirás”).
Durante seus últimos anos de vida, Davis estava morando na rua e passou por períodos de encarceramento. Ele parara de tomar seus remédios por acreditar que limitavam sua criatividade. Alguns fãs o ajudavam com suprimentos, mas ele rejeitava suas ofertas de abrigo. Depois de morar por um tempo com sua irmã no Arizona, Davis viajou à Califórnia, e em abril de 2018 se estabeleceu em Portland, Oregon. A polícia local fora informada de que Davis poderia ser uma ameaça, já que ele havia anteriormente demonstrado o desejo de matar se Deus lhe pedisse. Em junho, a polícia de Portland informou aos oficiais da cidade vizinha de The Dalles que haviam recebido notícia que Davis poderia estar lá. Davis não foi encontrado e a polícia não recebeu reclamações sobre ele.
Na tarde de 11 de agosto de 2018, enquanto andava sobre trilhos ferroviários em The Dalles, foi atropelado por um trem da Union Pacific; investigadores não puderam apurar se sua morte foi um acidente ou um suicídio. O relatório da polícia dizia que Davis andava de costas para o trem e que havia se virado pouco antes do momento do impacto. Em seu último vídeo, gravado e postado no YouTube horas antes de sua morte, explicou que havia recentemente deletado a maioria de seus vídeos por não querer que “poluíssem” a Internet, e que havia recentemente aprendido a se “purificar”. No fim do vídeo, ele exclama: “É bom ser rei. Não, espere. Talvez eu seja apenas uma pessoinha esquisita que fica andando para lá e para cá. Que seja”.
À medida que relatos de sua morte foram surgindo, Davis foi homenageado por fãs em vários tributos postados em redes sociais. Por intermédio do site do TempleOS, sua família e amigos pediram às pessoas para que doassem dinheiro a “organizações que trabalham para aliviar a dor e o sofrimento causados por transtornos mentais”. O editor do OSNews Thom Holwerda escreveu num obituário para Davis que ele “era claramente um programador talentoso – escrever um sistema operacional inteiro sozinho é um grande feito – e foi muito triste vê-lo afetado por sua doença mental”. Em dezembro de 2018, a página principal do Linux.org (uma comunidade para usuários do Linux) foi hackeada para incluir uma referência ao falecimento de Davis.
Questões para discussão
- Trace o curso da doença de Davis: início, diagnóstico inicial e reclassificação. O que explica a mudança de bipolar para esquizofrenia?
- Identifique os tipos de delírio e as alterações de linguagem descritas.
- Davis parou os remédios “por acreditar que limitavam sua criatividade”. Como abordar essa recusa? (compare com os pacientes de Sacks)
- Analise os desfechos psicossociais — desemprego, rua, encarceramento, morte — e o que faltou de rede de cuidado.
- Início aos ~26 anos (1996) com surtos psicóticos agudos e internações recorrentes; rotulado bipolar no começo — confusão comum quando a agitação psicótica mimetiza mania — e reclassificado esquizofrenia com a evolução: delírios persistentes, desorganização, declínio funcional sem fases claras de humor. O diagnóstico na psicose é longitudinal, não de corte transversal.
- Persecutório e de referência (“caras de terno me seguindo”, o verso da música com mensagem, o rádio do carro falando com ele), místico-religioso de missão (“Deus ordenou construir o Terceiro Templo como sistema operacional”) com revelações e oráculo. Linguagem: comentários online “quase sempre ininteligíveis” (desorganização), com lucidez preservada em domínio restrito (computadores) — dissociação típica entre competência técnica e pragmática social.
- Levar a sério o que ele protege: a criatividade era sua identidade e seu vínculo com o mundo. Abordagens: negociar dose/fármaco que minimize embotamento, decisão compartilhada com metas dele (programar melhor), psicoeducação sobre o custo dos surtos para a própria obra (ele destruiu vídeos, perdeu tudo). É o mesmo dilema de Natasha e Miguel no texto de Sacks: “será que tudo parecerá morto quando eu for tratado?”
- Vinte anos de doença com internações de porta giratória, pensão por invalidez mas nenhuma reabilitação psicossocial; quando os pais envelheceram e os vínculos ruíram, veio a rua, a prisão e a morte ambígua nos trilhos. O caso é o argumento vivo para modelos como as clubhouses (tema da aula): tratamento farmacológico sem rede de pertencimento e trabalho não sustenta ninguém.