A dependência do amor romântico
Sônia, 45 anos, casada há 20 anos, tem um filho com o marido de 16 anos. Veio na consulta com história de estar em tratamento para depressão há 2 anos, sem melhora. Conta estar insatisfeita com o casamento e que tem feito terapia, mas não consegue melhorar. Queixa insônia, falta de apetite, desanimo, crises de choro e ansiedade persistente. Relata que a pandemia piorou seu estado emocional, tem estado com medo do COVID e com pesadelos de noite. Estava em uso de fluoxetina de manhã e Rohypnol de 1 mg de noite há quase 2 anos.
Foi indicado manter a terapia e sugerido a substituição do Rohypnol de 1mg pelo clonazepam 2mg de noite e a substituição da fluoxetina pelo escitalopram 10mg, tendo em vista as queixas de perda de apetite e os sentimentos depressivos.
Na consulta seguinte a paciente relatou estar dormindo melhor, tolerando bem o escitalopram 10mg, com melhora na ansiedade. Relatou também ter tido melhora nas crises de choro e lidando melhor com a pandemia.
Mas …
Na terceira consulta, veio com o marido, João, que pediu para conversar primeiro.
O marido conta que vivia em BH trabalhando lá e veio morar novamente no interior por estar em home office devido a pandemia. A volta para casa tornou o convívio com a esposa mais estressante. E há 2 dias atrás ele descobriu que a esposa estava mantendo conversar com um outro homem em redes sociais. Viu as conversas da esposa na qual ela falava muito mal dele, dizia não amá-lo mais e na última conversa a esposa estava marcando um encontro pessoal com esse outro homem depois de sua consulta com o dentista. João se diz decepcionado e amargurado, sem saber o que fazer. Pergunta se isso pode ser a depressão dela ou se isso é efeito dos medicamentos. E me pede para ver o que eu posso fazer para resolver o problema.
Em consulta com a Sônia, ela conta que não ama mais João, mas que tem medo de sair do casamento, pois nunca estudou e nunca trabalhou, não sabe fazer nada, e não sabe como iria se sustentar. Contou que a psicóloga já havia dito a ela que nenhum tratamento com medicamentos iria resolver seu problema. Apesar disso, nos últimos 2 anos ela manteve o uso dos antidepressivos. E conta que depois do marido ter visto suas conversas está novamente se sentindo “deprimida”, e que só tem ficado na cama, sem fazer nada.
Questões para discussão
- Por que a “depressão” de Sônia não melhora depois de 2 anos de tratamento?
- O marido pede ao médico que “resolva o problema”. Discuta as questões éticas: de quem é a demanda? O que fazer com o que ele revelou?
- Como a dependência emocional e financeira mantém o sofrimento de Sônia?
- Qual o lugar dos psicofármacos neste caso? O que a psicóloga já havia antecipado?
- Porque o alvo está errado: os sintomas expressam um casamento insatisfatório e uma vida sem projeto próprio — conflito que nenhuma dose de antidepressivo resolve. As melhoras parciais (sono, ansiedade) confirmam efeito sintomático; a “recaída” após a descoberta das conversas confirma o motor relacional.
- O paciente é Sônia; o médico não é árbitro do casamento nem detetive. Cabe ouvir o marido com respeito, não prometer “consertar” a esposa, preservar o sigilo do que ela disser em consulta e devolver a ela a condução da própria vida. Oferecer terapia de casal é possível — se ambos quiserem.
- “Nunca estudou, nunca trabalhou, não sabe como se sustentaria”: o medo da autonomia impossível prende Sônia a um vínculo sem amor, e o adoecimento (“ficar na cama sem fazer nada”) vira ao mesmo tempo expressão e justificativa da paralisia. Trabalhar autonomia (inclusive material) é intervenção de saúde mental aqui.
- Coadjuvante, no máximo — tratar insônia e ansiedade enquanto a psicoterapia enfrenta o núcleo. A psicóloga já dissera que “nenhum tratamento com medicamentos iria resolver seu problema”; o caso ilustra a medicalização de um impasse biográfico.