Amnésia Dissociativa e Fuga: o caso de Samuel

Somatoformes
Caso clínico
Samuel Andrade, 38 anos, técnico em eletrônica — encontrado numa rodoviária sem saber quem era.
NotaFicha do caso
  • Diagnóstico: Amnésia dissociativa com fuga dissociativa
  • Nome fictício: Samuel Andrade
  • Idade: 38 anos
  • Profissão: Técnico em eletrônica
DicaObjetivos de aprendizagem
  • Caracterizar a amnésia dissociativa e a fuga dissociativa
  • Diferenciar o quadro de causas orgânicas de amnésia e de simulação
  • Discutir a avaliação inicial do paciente não identificado
  • Refletir sobre o papel da mídia e da rede social na reidentificação

Samuel Andrade tinha 38 anos e, até onde todos que o conheciam podiam afirmar, era um homem comum: técnico em eletrônica, casado com Patrícia, morador de uma pequena cidade no interior de Minas Gerais. Mas numa manhã cinzenta de setembro, sua história tomaria um rumo tão improvável que, nos dias seguintes, estamparia manchetes locais e intrigaria especialistas.

Tudo começou quando um senhor, ao sair de um café na rodoviária de Vitória, percebeu um homem parado na calçada, o olhar perdido e o corpo levemente inclinado para frente, como quem espera alguém — mas com a estranha ausência de quem não sabe a quem espera. Aproximou-se, perguntou se estava bem. Samuel virou-se lentamente e respondeu com uma voz calma, quase arrastada:

— Não sei… Não sei quem sou.

O senhor, confuso, tentou extrair mais informações. Nome? Cidade? Algum telefone? Mas a cada pergunta, Samuel balançava a cabeça, constrangido, como se buscasse no fundo de um armário escuro e vazio. Em poucos minutos, um pequeno grupo de curiosos se formou em torno dele. Uma senhora sugeriu chamar a polícia, e um rapaz sacou o celular e ligou.

Pouco depois, uma viatura chegou. O policial que desceu primeiro aproximou-se devagar, como quem lida com um ferido.

— Meu amigo, tudo bem? O que aconteceu?

— Não sei… Eu… — Samuel hesitou. — Eu não sei quem sou.

O policial trocou um olhar com o colega, e juntos o conduziram até a viatura. Samuel entrou no banco de trás, e o som seco da porta fechando teve algo de definitivo, como se o mundo “antes” tivesse ficado do lado de fora.

Dentro do carro, o giroflex projetava luzes azuis nas fachadas, distorcendo o mundo em flashes intermitentes. Samuel sentia-se como num filme que não lembrava ter começado. O rádio chiava com mensagens rápidas, mas as palavras chegavam distorcidas, como se viessem debaixo d’água.

“E se eu estiver sonhando?”, pensou. Tentou agarrar alguma memória — o nome de um amigo, o cheiro de um lugar, o som de uma risada —, mas encontrou apenas um vazio absoluto, como um quarto branco sem móveis. As ruas passavam rápidas pela janela, mas ele não reconhecia nenhuma esquina. E uma dúvida incômoda martelava: e se não houver casa alguma para voltar?

A cada lombada, o corpo avançava e recuava, contido pelo cinto de segurança, como uma âncora que, estranhamente, não estava presa a nada. Fez um esforço para falar:

— Para onde estamos indo?

O policial do banco da frente respondeu, sem virar-se:

— Vamos levá-lo a um lugar seguro, senhor.

Lugar seguro… Samuel repetiu mentalmente a expressão, como quem prova uma palavra nova na boca. Como saber se era seguro, se ele nem sabia quem era?

Na delegacia, ofereceram-lhe água e um cobertor. Um policial iniciou o registro: nome, idade, endereço, parentes… As respostas não vinham. Apenas um encolher de ombros e um olhar vazio. As impressões digitais seriam enviadas à central para tentar a identificação. Enquanto isso, chamaram um médico para avaliá-lo.

O exame clínico não revelou ferimentos. Não havia sinais de intoxicação. Samuel estava fisicamente saudável, mas mentalmente à deriva. Foi encaminhado a um hospital da região, onde passou a noite sob observação. No dia seguinte, sua foto já circulava em redes sociais e jornais locais, acompanhada de um pedido: “Homem encontrado sem memória em Vitória. Se você o conhece, entre em contato.”

Na manhã seguinte uma jornalista que ficou sabendo do caso foi até a delegacia para entrevistar Samuel. Andrea, de voz calma e olhar inquisitivo, explicou que seu caso havia despertado curiosidade e perguntou se ele aceitaria falar diante das câmeras.

— Senhor, sabemos que está confuso, mas poderia nos dizer seu nome? — perguntou ela.

— Eu… não sei. — Samuel desviou o olhar para o chão.

— De onde veio? — insistiu.

— Não me lembro. É como se tivesse acordado hoje, aqui. — respondeu, a voz carregando perplexidade.

— Há algo que queira dizer a quem possa estar procurando por você? —

— Se alguém me conhece, por favor… me encontre. Eu me sinto como um livro sem capa, largado numa estante errada.

O cinegrafista captou cada pausa, cada hesitação, o franzir de testa e o sorriso tímido que surgia quando estava nervoso. Ao final, a repórter agradeceu e prometeu que a matéria iria ao ar naquela noite.

O vídeo, transmitido no noticiário local, rapidamente chamou atenção nacional. Uma grande rede exibiu o material na manhã seguinte: “Homem sem memória busca respostas”. Mais de 500km de distância, Patrícia assistia à TV enquanto arrumava a cozinha. Ao ver o rosto de Samuel, o prato escorregou de suas mãos e se quebrou. Reconheceu não apenas o rosto, mas a voz e os gestos.

— Meu Deus… é ele. — murmurou.

Questões para discussão

  1. Caracterize a amnésia dissociativa com fuga: o que se perde e o que permanece preservado?
  2. Monte a investigação do diferencial: causas orgânicas, intoxicação e simulação.
  3. Qual a conduta adequada diante de um paciente não identificado nos primeiros dias?
  4. A mídia resolveu o caso — e criou que riscos? Discuta os limites éticos da exposição.
  1. Perde-se a memória autobiográfica (identidade, biografia, vínculos) de forma abrupta, tipicamente após estresse grave, com viagem inesperada (fuga: de Minas ao Espírito Santo). Preservam-se memória procedural e semântica — Samuel fala, comporta-se socialmente, entende o mundo; só não sabe quem é. Essa dissociação seletiva é a marca do quadro.
  2. Orgânicas: TCE, epilepsia (amnésia pós-ictal), AVC, encefalites, amnésia global transitória (idosos, horas de duração) — exame neurológico, neuroimagem, EEG, laboratório. Intoxicação: álcool/benzodiazepínicos/outras — rastreio toxicológico. Simulação: ganho externo identificável, inconsistências ao exame (a amnésia “conveniente”); a observação longitudinal e a ausência de ganho evidente falam a favor do quadro dissociativo em Samuel.
  3. Garantir segurança e acolhimento (ele está aterrorizado — “um livro sem capa”), avaliação clínica completa antes do rótulo psiquiátrico, registro policial e busca ativa de identificação, evitar pressão por lembrar (a recuperação costuma ser espontânea e gradual) e proteger o paciente de decisões irreversíveis enquanto desidentificado.
  4. A televisão reconectou Samuel a Patrícia em 24 horas — benefício real. Riscos: exposição permanente de um paciente sem capacidade de consentir plenamente, estigma duradouro, uso sensacionalista do sofrimento e o risco de encontrar não uma família, mas um contexto do qual ele fugia (o estressor pode morar em casa). O uso da mídia deve ser último recurso, com o mínimo de detalhes clínicos.

Em choque, correu para o telefone e ligou para a polícia local, informando que sabia quem era o homem misterioso. Essa ligação iniciaria uma nova etapa, na qual as peças de seu passado começariam, lentamente, a se encaixar.

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