O Caso Ranier - Esquizofrenia Incipiente
Um dos conceitos mais importantes na psiquiátrica clássica é o chamado humor delirante e a atmosfera delirante, um período que precede a formação do delírio, na qual o paciente sente haver “alguma coisa errada ou estranha acontecendo”. Nessa fase, o indivíduo passa a perceber tudo ao seu redor como sinistro, misterioso, peculiar, de uma forma indefinível. Sente que está pessoalmente envolvido no que percebe, mas ainda não sabe como. Há uma antecipação de que algo irá acontecer, algo irá se revelar. Quando o delírio se forma, há uma sensação de alívio.
A evolução do delírio foi estudada por Klaus Conrad que propôs 5 estágios no desenvolvimento do delírio em sua obra “A Esquizofrenia Incipiente”: 1) Trema - um humor delirante representando uma mudança total na percepção do mundo; 2) Apofania - uma procura e o encontro de novo significado para eventos psicológicos; 3) Anástrofe - fase na qual há um aumento ou agravamento da psicose, 4) Consolidação - fase na qual se formam de novos significados, um novo mundo ou conjunto psicológico é formado com base nesses novos significados e 5) Resíduo - fase na qual o paciente evolui para um eventual estado autístico.
Vejamos a seguir um dos casos descritos por Klaus Conrad, o caso do soldado Ranier1.
Ranier N., nascido em 1921, deu entrada no hospital psiquiátrico no dia 29 de janeiro de 1941, com 20 anos de idade. Apresentava um grave delírio de referência. Acreditava que todos sabiam seus pensamentos, mostrava-se bastante desconfiado e às vezes ficava agitado. Seu estado melhorou lentamente ao longo de 8 semanas de internação.
Depois de melhorar, contou como seu quadro se desenvolveu.
Começou a trabalhar como militar no exército alemão em 1940. Desejava seguir carreira de oficial, mas tinha receio de não conseguir. Logo começou a perceber que “havia algo estranho”, mas não sabia o que. Aos poucos começou a notar “rumores” de que ele iria ser o chefe da companhia. Ouvia esses rumores sobre o próximo chefe e, embora seu nome não fosse dito, passou a saber que se referiam a ele. Passou a sentir uma certa inimizade entre os colegas, que atribuiu a uma inveja. Pouco a pouco passou a sentir que todos se voltavam contra ele.
Certo dia o capitão da companhia lhe disse “coloque-os em ordem, você é o responsável”. Ele percebeu que essa era uma alusão à sua ascensão profissional.
Passou a não mais conversar com ninguém, pois temia a inveja dos colegas. Passou a notar que os colegas o observavam de forma estranha. Certa noite ouviu uma conversa de que os colegas o levariam para o campo, o amarrariam numa árvore e o queimariam com um ferro em brasa. Por medo, decidiu passar a noite em claro para poder se defender caso isso viesse a acontecer. Nessa noite começou a ouvir os passos de pessoas se aproximando ao redor de sua barraca, mas sempre que se levantava tudo ficava em silêncio novamente. Às vezes acendia a luz de sua barraca, mas não via nada; concluía então que todos se escondiam. Passou a noite toda acordado e vigilante. De manhã sentia haver uma certa inimizade entre ele e os colegas. Quando seu melhor amigo perguntou “o que se passa”, notou que todos se viraram para ele, “para ver como iria reagir”.
Sentia que tudo era uma ameaça. Percebeu que todos estavam contra ele. Quando foi tomar banho, o jarro de água tinha desaparecido; quando se dirigia a algum lugar, alguém obstruía seu caminho. Passou a notar que faziam gestos para ele, sentia que eram todos grosseiros com ele.
Percebeu que até seus melhores amigos passavam a se desviar dele aos poucos, até o abandonarem totalmente, e passou a se sentir completamente só.
Foi então levado até a enfermaria e, quando o tenente falava com ele, teve a sensação de que tramavam um plano para que ele deixasse de pensar em ser promovido. Queriam expô-lo ao ridículo em público. Foi então colocado em uma maca na enfermaria e teve de tomar um comprimido. Pensou que essa medicação iria servir para provocar artificialmente um estado febril nele.
Médicos e enfermeiros vieram em seguida e o levaram para um carro. Ele então passou a acreditar que queriam dar a ele uma nova oportunidade. Percebeu que estava sendo colocado à prova para poder ser finalmente um oficial do exército. Quando lhe ofereceram um cigarro, pensou que havia ali alguma substância para paralisar sua vontade ou para enganá-lo de alguma forma. Em certo momento o motor do carro começou a falhar, e ele percebeu que isso era um sinal de que havia uma trama contra ele. Em outro momento viu uma placa com a letra “N” e percebeu que esse era um sinal que significava “NÃO”, querendo dizer que ele não tinha mais esperanças. Ao passarem por uma cidade cujo nome significava “montanha acima” e por uma lona verde, interpretou essas coisas como “sinais” de que havia novamente esperança.
Quando chegou ao hospital, enquanto aguardava, pôde ouvir a voz de seu comandante e de seu coronel e teve a certeza de que tramavam seu assassinato, de que o degolariam como a um animal. Quando encontrou o médico, essa certeza se confirmou ao ver uma seringa no bolso do paletó do médico. Quando foi colocado na cama da enfermaria, teve a sensação de que estavam lendo seus pensamentos, de que todos sabiam o que ele pensava.
Num momento em que estava sozinho, cortou os pulsos para se matar, pois “preferia morrer a viver aquele lento martírio”. Percebeu que, apesar de estar sozinho, as pessoas saberiam o que tinha feito, por causa da transmissão de pensamento que estava sofrendo.
Alguns dias depois, relatou que se sentia confuso, com as lembranças de tudo que viveu nos últimos dias um pouco “esfumaçadas”. Continuava sentindo que todos conseguiam ler seus pensamentos, que vigiavam seus pensamentos. Sentia que, sempre que pensava em fugir do hospital, era observado com mais intensidade e que o cercavam para impedir sua fuga. Ranier então tentava pensar apenas em coisas inofensivas para não chamar a atenção da equipe.
Sentia-se muito incomodado durante a noite, pois sentia que observavam constantemente seus pensamentos. Sabia que os outros pacientes dormiam muito durante o dia para poderem observar melhor seus pensamentos durante a noite. Notava também que, quando pensava algumas coisas em particular, as pessoas tossiam de forma intencional, e que, quando pensava em se barbear, via algum outro paciente passar a mão pela face e dizer para ele que tinha feito a barba.
Certo dia, ainda internado, teve o pensamento de que isso tudo era uma prova para ver se ele tinha condições de ser um oficial. Entendeu então que queriam educá-lo, “fazer dele um homem”.
Percebeu que sempre exigiam dele uma decisão. Certa vez viu um queijo sobre a mesa e notou que havia gotas de líquido sobre o queijo. Com isso teve a certeza de que era um sinal de que ele devia se arriscar. Decidiu então que precisava lutar para mostrar que era também fisicamente capacitado para ser oficial. Passou então a iniciar brigas com frequência em sua ala. Passou a temer que o mudassem para a ala de pacientes mais tranquilos, pois assim perderia a oportunidade de mostrar suas capacidades. Pensava sempre: “tem que voltar a lutar, tudo está em jogo, exigem isso de você”. Durante esse período não se sentia humilhado ou deprimido; pelo contrário, sentia-se orgulhoso por sentir que era tratado como um inimigo de respeito. Passou a acreditar que sua nação somente poderia durar eternamente se todos os homens passassem a ser educados dessa mesma forma que acontecia ali com ele. E sentia que, se perseverasse, iria conseguir se tornar o oficial que desejava.
Depois de alguns dias, entretanto, sentiu que suas forças o deixavam. Não era mais capaz de resistir. Não conversava mais com ninguém. Já não tinha mais esperanças. Estava esperando a morte. Sentia-se acabado física e mentalmente. Sentia haver falhado definitivamente. Não tinha mais esperanças de ser um dia oficial.
Antes de sua alta hospitalar, o paciente relatava sentir-se deprimido, com um sentimento de inferioridade, de que não tinha mais valor, de que era “como as outras pessoas”.
Três semanas depois, o paciente escreveu uma carta para o médico contando não ter mais o sentimento de que estava sendo observado e que estava feliz por se ver livre desse sentimento. E agradeceu ao médico pela ajuda durante a internação, apesar de nunca ter aceitado tal ajuda.
Questões para discussão
- Identifique no relato as fases de Conrad: trema, apofania e anástrofe.
- O que é humor delirante? Onde ele aparece antes de qualquer delírio estruturado?
- Dê exemplos de percepção delirante e delírio de referência no caso (a placa “N”, o queijo, os rumores).
- Que sintomas de primeira ordem de Schneider o caso apresenta?
- Como o delírio motivou a tentativa de suicídio — e o que isso ensina sobre risco na psicose aguda?
- Trema: a tensão inespecífica inicial — “havia algo estranho”, inimizade difusa, noite em claro vigilante. Apofania: os significados se revelam — rumores referem-se a ele, o capitão alude à sua promoção, tudo vira sinal. Anástrofe: ele se torna o centro do mundo — a companhia inteira conspira, o hospital o testa para “fazer dele um homem”, a nação depende de homens educados como ele.
- É a atmosfera pré-delirante: o mundo torna-se sinistro, carregado de significado iminente, sem que o paciente saiba ainda o quê. No caso: “logo começou a perceber que havia algo estranho, mas não sabia o que” — a formulação clássica. Quando o delírio se estrutura, paradoxalmente vem alívio: o incompreensível ganha explicação.
- Percepção delirante: percepção normal + significado delirante imposto — a placa com a letra “N” significa “NÃO, sem esperança”; as gotas sobre o queijo significam “arrisque-se”; o motor falhando prova a trama. Delírio de referência: os rumores sobre o próximo chefe referem-se a ele; a tosse dos outros comenta seus pensamentos.
- Difusão/publicação do pensamento (“todos sabiam o que ele pensava”, vigiavam seus pensamentos à noite), vivências de influência e alusão constantes; a leitura do pensamento confirmada pelos gestos alheios (o outro paciente passando a mão no rosto quando ele pensava em barbear-se).
- Cortou os pulsos “preferindo morrer a viver aquele lento martírio” — o suicídio como fuga do terror delirante (degola iminente), não como desejo depressivo de morte. Na psicose aguda o risco vem do conteúdo do delírio e do pavor; por isso avaliação de risco é obrigatória mesmo sem “tristeza”.