José, 25 anos (Transtorno Bipolar / Depressão Grave)
José, 25 anos, estudante de medicina do 8º período, comparece a consulta médica no posto de saúde do SUS, acompanhado de seus dois amigos de república. Os amigos de José relatam que ele tem estado diferente no último mês, não tem ido às aulas, não tem saído à noite, tem ficado mais tempo no quarto, deitado e de conversando menos. Os amigos contaram ao médico que no últimos dias tem notado que José tem bebido cerveja todos os dias, na maioria das vezes sozinho no quarto. Mas perceberam que seria necessário ajuda quando descobriram vestígios de maconha no quarto de José, algo que ele jamais havia usado antes. Resolveram que seria hora de trazer José numa consulta depois que ele ficou 2 dias sem sair do quarto, sem se alimentar e sem tomar banho. José no início se mostrou resistente em aceitar a consulta, mas acabou aceitando. Na consulta está de pijama, barba por fazer, lentificado e desanimado. Sua voz está sem emoção, e evita olhar para o médico.
Dois meses depois…
José voltou ao posto de saúde para consulta de rotina, acompanhado da mãe. Relata estar bem melhor, elogia o médico e a equipe, diz que nunca ficou tão bem como está agora e que não quer nunca mais parar de tomar seus medicamentos. Sente que perdeu muito tempo na vida e agora está conseguindo realizar seus sonhos. Apresenta-se um pouco eufórico, falando de forma rápida. Ele estava em uso de sertralina 150mg por dia há 2 meses, desde que veio trazido pelos amigos da república onde mora, numa fase depressiva grave. Evolui com melhora rapidamente ao longo do primeiro mês de uso de sertralina. Entretanto, a mãe conta que na última semana José está diferente, mais animado que o normal, não tem dormido bem de noite e tem ido a festas até mesmo durante a semana. O pai de José, por outro lado, não concorda com a mãe, acha que José está mesmo precisando mudar, acredita que finalmente o filho superou sua timidez crônica desde a infância. A mãe e o pai de José se desentendem quanto ao tratamento. O pai deseja interromper o tratamento e as consultas, pois não vê nenhum problema no filho. A mãe acredita que José tenha alguma doença mental. A mera menção de que José possa ter algum distúrbio mental deixa o pai bastante irritado.
Qual sua conduta?
Questões para discussão
- Na primeira consulta: quais as hipóteses diagnósticas para o quadro de José e que dados da anamnese as sustentam?
- O uso recente de álcool diário e maconha: causa, consequência ou automedicação?
- Na segunda consulta, o que mudou no exame do estado mental? O que a “melhora demais” indica?
- Qual sua conduta agora — com José, com a sertralina e com os pais em conflito?
- Episódio depressivo grave: isolamento progressivo, abandono das aulas, clinofilia, autonegligência (2 dias sem comer/banho), lentificação, hipomimia, voz monótona, evitação do olhar. Diferenciais a explorar: depressão induzida por substância, transtorno bipolar (fase depressiva) — e rastrear ideação suicida ativamente, dado o contexto universitário.
- Discutir bidirecionalidade: álcool e maconha podem precipitar/agravar depressão, mas o padrão aqui (uso novo, solitário, após o início do quadro) sugere automedicação do sofrimento — o que não o torna menos arriscado. Gancho para epidemiologia do uso de substâncias em universitários e para o risco aumentado em estudantes de medicina.
- Loquacidade, euforia leve, planos expansivos, insônia sem cansaço, festas em dias de semana: virada (hipo)maníaca associada à sertralina — o diagnóstico se reclassifica para transtorno bipolar. “Nunca estive tão bem” + “não quero nunca mais parar o remédio” é sinal de alerta, não de sucesso terapêutico.
- Suspender gradualmente a sertralina, iniciar estabilizador de humor, psicoeducação de José e da família sobre bipolaridade (incluindo o pai, que nega a doença — sem confronto, com informação e tempo), acordar sinais de alarme e seguimento próximo. A divergência parental é oportunidade: alinhar os dois em torno do cuidado, não do rótulo.