Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)

Ansiedade
Caso clínico
Lucas Andrade, 27 anos, médico recém-formado — a preocupação que não desliga.
NotaFicha do caso
  • Diagnóstico: Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)
  • Nome fictício: Lucas Andrade
  • Idade: 27 anos
  • Profissão: Médico recém-formado
DicaObjetivos de aprendizagem
  • Caracterizar a preocupação excessiva e incontrolável como núcleo da TAG
  • Reconhecer os sintomas somáticos associados (tensão muscular, insônia, palpitações)
  • Discutir a saúde mental do médico e as barreiras para buscar ajuda
  • Diferenciar a TAG do transtorno de pânico e do esgotamento profissional (burnout)

Lucas Andrade tinha 27 anos e o cheiro ainda fresco dos corredores hospitalares parecia seguir-lhe os passos. Formado há poucos meses em medicina, carregava o diploma como quem segura um passaporte para um mundo que sempre sonhou, mas cujo peso agora começava a sentir nos ombros. Havia conseguido um contrato provisório em um posto de saúde no interior de Minas Gerais, longe da agitação da capital onde estudara.

O dia começava cedo: acordava antes do amanhecer, preparava um café forte e revisava mentalmente os casos do dia anterior. Não era incomum já sentir o coração acelerado antes mesmo de vestir o jaleco. “Preciso lembrar de pedir aquele exame… e se o paciente de ontem tiver piorado? E se eu tiver deixado passar algo importante?” — pensamentos que surgiam como fios soltos, entrelaçando-se e crescendo até se tornarem uma rede apertada ao redor de seu peito.

No posto de saúde, Lucas atendia de tudo: crianças com febre, idosos com pressão alta, trabalhadores com dores crônicas. Tentava ser minucioso em cada consulta, revendo exames, perguntando mais de uma vez, buscando sinais escondidos nas entrelinhas. Era querido pelos pacientes, que o viam como “o doutor atencioso”. Mas por dentro, a insegurança latejava. A cada diagnóstico, um segundo pensamento: E se eu estiver errado?

À noite, mesmo exausto, o corpo não desligava. Revivia mentalmente cada consulta, cada palavra dita, cada resultado de exame. O sono vinha aos pedaços, interrompido por sonhos nos quais esquecia de atender um paciente ou deixava um remédio errado na receita. Acordava com o coração disparado, o rosto suado, e uma sensação de que precisava “resolver algo urgente” — embora não houvesse nada a resolver às três da manhã.

A vida social minguou sem que ele percebesse. Recusava convites de colegas da faculdade para encontros em Belo Horizonte. No início, alegava cansaço. Depois, simplesmente deixava as mensagens sem resposta. Morava sozinho em um pequeno apartamento alugado, onde os livros de medicina ocupavam cada vez mais espaço, empilhando-se na mesa, no sofá, até na cozinha.

Certa manhã, após um turno particularmente intenso, Lucas sentiu as mãos formigarem enquanto preenchia um prontuário. Uma leve tontura o obrigou a parar. Respirou fundo, bebeu água, mas a sensação de aperto no peito persistiu. Levantou-se, olhou pela janela do consultório para o quintal ensolarado do posto e, por um instante, desejou estar em qualquer outro lugar que não ali.

O médico do posto, um clínico geral veterano, notou seu semblante pálido e perguntou:

— Está tudo bem, doutor Lucas?

Ele sorriu de canto, forçando naturalidade:

— Só um pouco cansado, doutor. Nada demais.

Mas, por dentro, sabia que não era apenas cansaço.

As semanas seguintes trouxeram o peso acumulado de pequenas tensões. Um dia, ao atender uma senhora com dor abdominal, Lucas esqueceu de perguntar sobre o uso de medicamentos — algo básico, mas que só percebeu ao chegar em casa, tarde da noite, já sem poder corrigir. O erro não gerou consequências graves, mas a culpa se instalou como um parasita, repetindo-se na mente em um ciclo infinito de “e se…”.

O corpo começou a falar de formas mais nítidas. As palpitações vinham em horários aleatórios: no meio de uma consulta, ao atravessar a rua, até enquanto lavava a louça. A musculatura do pescoço e dos ombros vivia rígida, como se estivesse sempre se preparando para uma pancada iminente. Ele começou a carregar um pequeno tubo de analgésico no bolso do jaleco, aplicando pomada discretamente durante o expediente.

Paulo, o veterano do posto, percebeu mudanças no colega.

— Você anda muito calado, Lucas. E meio ausente, às vezes.

— É só a rotina — respondeu, evitando alongar a conversa.

O próprio Lucas sabia que não era só isso. Naquela altura, havia noites em que permanecia acordado até as quatro da manhã, sentado no sofá, com a TV ligada em volume baixo, enquanto sua cabeça rodava um inventário interminável de possíveis problemas: um paciente que não voltara para retorno, um exame que ainda não tinha visto, um diagnóstico que talvez estivesse incompleto.

Começou a evitar certos casos, passando-os para outros colegas quando podia. Sentia uma mistura de alívio e vergonha ao fazer isso. Sua autoconfiança, antes sólida como a parede branca do consultório, agora tinha fissuras por toda parte.

O estopim veio numa manhã abafada de terça-feira. Lucas estava atendendo um adolescente com febre quando, de repente, uma onda quente subiu do peito à cabeça. Suas mãos começaram a suar, o coração disparou, e a respiração ficou curta. Por um instante, teve certeza de que iria desmaiar na frente do paciente. Pediu licença, saiu para beber água e demorou quase dez minutos para voltar. O adolescente e a mãe o olhavam com estranheza quando ele retomou o atendimento, tentando disfarçar a fragilidade.

Naquela noite, ligou para sua irmã, Mariana, enfermeira em Belo Horizonte. Falou pouco sobre os sintomas, mas Mariana, atenta, percebeu a urgência.

— Lucas, isso não é normal. Você precisa procurar ajuda, senão vai acabar adoecendo de verdade.

Ele hesitou. Médicos são treinados para cuidar dos outros, não para admitir que precisam de cuidado. Mas, enquanto ela falava, percebeu que estava cansado demais para discordar.

Questões para discussão

  1. O que diferencia a preocupação de Lucas de uma preocupação “normal” com o trabalho?
  2. Identifique no relato os sintomas somáticos da ansiedade generalizada.
  3. Como diferenciar o quadro de Lucas de um transtorno de pânico? E do esgotamento profissional (burnout)?
  4. Que barreiras dificultam a busca de ajuda pelos médicos, e como elas aparecem no caso?
  1. A preocupação da TAG é excessiva, difusa e incontrolável (“fios soltos que se entrelaçam”), presente na maior parte dos dias, e desproporcional ao risco real — Lucas revisa condutas corretas, antecipa catástrofes improváveis e não consegue “desligar” nem à noite. O critério de prejuízo está presente: sono fragmentado, isolamento social, evitação de casos.
  2. Tensão muscular cervical constante (“preparando-se para uma pancada”), insônia, palpitações em momentos aleatórios, formigamento nas mãos, tontura, aperto no peito e sudorese.
  3. No pânico, as crises são paroxísticas, com início abrupto, pico em minutos e medo de morrer/enlouquecer; entre as crises pode haver apenas ansiedade antecipatória. Na TAG a ansiedade é contínua e flutuante — o episódio da “onda quente” de Lucas se aproxima de uma crise, mas o núcleo do quadro é a preocupação crônica. O burnout é circunscrito ao trabalho, com exaustão, distanciamento/cinismo e queda de desempenho; em Lucas o sofrimento invade todas as esferas e tem qualidade ansiosa.
  4. Cultura de invulnerabilidade (“médicos cuidam, não adoecem”), medo do estigma entre pares, autodiagnóstico minimizador (“é só cansaço”) e a racionalização do sofrimento como parte da profissão. Foi preciso a irmã enfermeira nomear o problema de fora.
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