O peso do passado
Julia, 27 anos, solteira, um filho de 8 anos, mora com o namorado.
Meus pais eram usuários de drogas, e minha infância foi muito difícil, nunca cuidaram de nós. Aos 19 anos engravidei e fui expulsa de casa. O pai do meu filho, com quem eu namorava há 8 anos me abandonou ao saber que estava grávida.
Morei com minha tia durante o período da gravidez. O parto foi complicado, meu filho nasceu com uma rara síndrome e teve de ficar internado por 6 meses, passando por várias cirurgias. Fiquei 6 meses morando no hospital com ele. Durante esses meses vivia na capela do hospital orando e pedindo por um milagre, rezava todos os dias. Mas a situação de meu filho não melhorava. Depois de um tempo a religião me frustrou, briguei com Deus. Apesar de acreditar em Deus, hoje não rezo mais. Tentei por um tempo ler tudo sobre religião, busquei gurus místicos, só me desiludi.
Ao sair do hospital conheci Antônio, que é meu namorado desde então. Estamos juntos há 8 anos. Ele se tornou o verdadeiro pai do meu filho. A família de Antônio me acolheu como uma filha e realmente me salvaram da morte. Pouco tempo depois de começarmos a namorar, Antônio e eu fomos morar juntos e estamos juntos desde então.
Entretanto, apesar do amor do meu namorado e da família dele, hoje não vejo sentido na vida, tenho até hoje pensamentos de desejar a morte, não sei o propósito de estarmos aqui. Ou melhor, acho que não há propósito algum na vida.
Há cinco meses estou em tratamento psiquiátrico com antidepressivos, mas sem melhora.
Comecei uma nova terapia há duas semanas, estou gostando das consultas, mas a vida continua sem sentido. Meu novo psicólogo me pediu para avaliar com meu psiquiatra uma mudança na medicação.
Questões para discussão
- Avalie o risco de suicídio de Julia: que fatores de risco e de proteção o relato oferece?
- “Cinco meses de antidepressivo sem melhora”: o que revisar antes de rotular resistência ao tratamento?
- Que papel a religiosidade — e sua ruptura — desempenha na história?
- Aponte os recursos de resiliência de Julia e como usá-los no plano terapêutico.
- Risco: ideação de morte persistente (“desejo a morte até hoje”), infância com negligência grave, abandono, trauma perinatal do filho. Proteção: vínculo forte com namorado e família dele (“me salvaram da morte”), maternidade ativa, engajamento na nova terapia. A ideação é passiva, sem plano — exige monitorização e pergunta direta a cada consulta, não necessariamente internação.
- Conferir diagnóstico (o “sem sentido” existencial responde mal a fármaco isolado), dose e adesão, tempo real de uso, comorbidades (distimia? TEPT?) e expectativas — Julia talvez espere do remédio o que só a reconstrução de sentido pode dar. Otimizar/trocar é legítimo, mas o eixo aqui é psicoterápico.
- A oração diária na capela foi o recurso de enfrentamento na crise; a “briga com Deus” após a frustração deixou um vazio de sentido não substituído. Explorar a história espiritual (sem prescrever fé) é clinicamente relevante: o luto da crença perdida é parte do quadro.
- Sobreviveu a infância adversa, cuidou de filho gravemente doente por 6 meses, construiu família substituta, mantém-se em tratamento e gosta da nova terapia. O plano pode ancorar-se nesses êxitos: nomear a força já demonstrada, trabalhar sentido (o que a fez levantar todos os dias no hospital?) e incluir o namorado como aliado.