John Nash e Uma Mente Brilhante (Esquizofrenia)

Psicóticos
Caso real
John Forbes Nash Jr. (1928–2015), matemático e Nobel — esquizofrenia, genialidade e o retrato do cinema.
NotaFicha do caso
  • Diagnóstico: Esquizofrenia
  • Caso real: John Forbes Nash Jr. (1928–2015), matemático, Prêmio Nobel de Economia (1994)
  • Idade: faleceu aos 86 anos
  • Profissão: Matemático
DicaObjetivos de aprendizagem
  • Conhecer o caso real de esquizofrenia mais célebre da cultura contemporânea e sua representação no cinema
  • Discutir a relação entre esquizofrenia, genialidade e criatividade
  • Reconhecer a agregação familiar da esquizofrenia (o filho de Nash também adoeceu)
  • Discutir curso, remissão parcial e funcionamento em longo prazo na esquizofrenia
  • Comparar a representação cinematográfica com a fenomenologia real da doença1

John Forbes Nash Jr. (1928 – 2015) foi um matemático norte-americano que trabalhou com teoria dos jogos, geometria diferencial e equações diferenciais parciais. Compartilhou o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 1994 com Reinhard Selten e John Harsanyi.

Nash também foi conhecido por ter tido sua vida retratada no filme “Uma Mente Brilhante”, vencedor de quatro Oscars (indicado para oito), baseado no livro-biográfico homônimo, que apresentou seu gênio para a matemática e sua luta contra a Esquizofrenia.

O filho de John Nash, John “Johnny” Charles Nash, também desenvolveu esquizofrenia. No material abaixo você poderá ver uma entrevista na qual Johnny é entrevistado pela psiquiatra Nancy Andreasen, que estuda a relação entre esquizofrenia e criatividade (Interview with John Nash’s Schizophrenic Son).

Também consta entre os links abaixo um trecho do filme “Uma mente brilhante” na qual a esposa de Nash entra em seu escritório e vê o quanto Nash está paranóico, encontrando conexões entre diversos assuntos não relacionados, e colocando todas essas conexões interligadas na parede do escritório (John Nash Office Wall Scene).

Nash (86 anos) e sua esposa Alicia (82 anos) faleceram em um acidente de carro em Maio de 2015, quando voltavam da Noruega, onde Nash tinha acabado de receber o Premio Abel de Matemática (uma premiação do governo da Noruega para matemáticos de destaque). O destino do filho do casal, que dependia dos cuidados dos pais, foi tema da imprensa na época2.

Questões para discussão

  1. O que a trajetória de Nash ensina sobre curso e prognóstico de longo prazo na esquizofrenia?
  2. O filho de Nash também desenvolveu esquizofrenia. O que dizer sobre herança e risco familiar?
  3. Que distorções o cinema introduziu no retrato da doença de Nash — e por que isso importa clinicamente?
  4. Esquizofrenia e genialidade: relação real ou romantizada?
  1. Que o curso não é uniformemente deteriorante: Nash teve décadas de doença grave, com internações, e ainda assim remissão parcial tardia, retorno ao convívio acadêmico e o Nobel aos 66 anos. A esquizofrenia comporta trajetórias heterogêneas — um antídoto contra o niilismo prognóstico, sem romantizar: a maioria dos pacientes precisa de tratamento contínuo e suporte.
  2. Herdabilidade alta (~80% em estudos de gêmeos), mas herança poligênica e não determinística: filho de um afetado tem risco de ~10-15% — dez vezes o populacional, e ainda assim a maioria não adoece. Aconselhamento deve informar sem sentenciar; ambiente e outros fatores modulam o risco.
  3. O filme apresenta alucinações visuais vívidas e personificadas (o colega de quarto, a menina), quando Nash tinha predominantemente delírios e alucinações auditivas — a crítica de Parker (“movie mania”). Importa porque molda a expectativa do público e até de estudantes: pacientes reais podem ter seu sofrimento posto em dúvida por “não parecer o do filme”.
  4. A associação é frágil para esquizofrenia (diferente do que os dados sugerem para transtornos do humor e criatividade): a psicose ativa de Nash foi improdutiva — sua obra matemática veio antes e depois. O que fascina é a coexistência num mesmo indivíduo, não uma causalidade; cuidado com o mito que embeleza a doença e sabota a adesão.

Fontes sobre John Nash:1;3;4. Ver também o filme na Wikipedia e a entrevista com o filho de Nash.

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Referências

1.
Parker, G. A Diagnostic Bind: Movie Mania and John Nash’s Schizophrenia. Acta Psychiatrica Scandinavica 132, 321–323 (2015).
2.
3.
Weiden, P. J. Why Did John Nash Stop His Medication? Journal of Psychiatric Practice 8, 386–392 (2002).
4.
Capps, D. John Nash, Game Theory, and the Schizophrenic Brain. Journal of Religion and Health 50, 145–162 (2011).